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Entrevista com a cubana Regia Torres, campeã olímpica de vôlei

Regla Torres Tri campeã olímpica de vôlei

Entrevista com a cubana Regia Torres, campeã olímpica de vôlei.

Regla Torres Herrera, a “Torre cubana”, invencível no voleibol e inesquecível nos jogos contra o Brasil, bloqueou as dificuldades, atacou e ganhou com braços fortes, assim como fazem as mulheres cubanas. Sim, as mulheres cubanas são fortes como Torres!

Nasceu e cresceu em La Lisa, Havana, um bairro popular e típico da cidade. Filha única de uma mãe que a criou com mãos de ferro, e que viu no esporte um cuidador, um lugar em que sua filha poderia ter uma boa alimentação e seguir um bom caminho, ter um futuro e bons valores. Assim foi o princípio de tudo.

Matriculada em regime de internato, desde os 10 anos, em uma Escola de Iniciação Desportiva (EID), que formou vários atletas olímpicos de Cuba, foi educada com a disciplina e a rigorosa rotina de uma vida dedicada ao esporte.

Regla Torres com Imilsis Maria Téllez Quesada (=2 grandes campeãs olimpícas de diferentes gerações) e trabalham juntas na formação de futuras campeãs.
Regla Torres com Imilsis Maria Téllez Quesada: 2 grandes campeãs olimpícas de diferentes gerações, trabalham juntas na formação de futuras campeãs. Fonte: acervo pessoal

“Eu odiava esporte, odiava suar, odiava correr e o que gostava de fazer era ler. Eu era muito rebelde”, conta. Quando seus treinadores chamavam a mãe para dizer que a filha não estava no treinamento, aparecia a mãe, agarrava ela forte pela orelha e a arrancava do quarto, de onde não queria sair porque estava lendo seus livros. E a levava direto para treinar na quadra.

Essa rebelde que amava ler não podia contra a força e a vontade dessa mãe. Começou a tomar gosto pelo vôlei depois de algum tempo na escola e teve muitos influenciadores, como Graciela González, esposa do treinador Eugênio George, grande lenda do esporte, e também de outra destacada esportista, Ana Ibis Díaz Martínez. Os treinadores eram tão exigentes e perfeccionistas como sua mãe. E foi nesse ambiente que ela e tantas outras meninas se fizeram mulher.

Apesar das lesões que geralmente afligem os atletas, o lema dessas mulheres em jogo era: “nunca dizer que a dor está te matando”. Não queriam que ninguém ocupasse seu lugar. Essas guerreiras espartanas defendiam sua posição em quadra com dor, com suor e muita garra.

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Enquanto estavam em jogo, não importava se era só um treino. Para elas, significava sempre estar alerta e defendendo o seu território. “Exigiam de nós temperamento explosivo porque o voleibol não era pra gente passiva”, diz. Isso era a vida delas! Não existia balada, namoros ou amigos. “Nós brigávamos como irmãos e era mais comum as discussões quando estávamos muito tempo viajando”, lembra.

Essa vida isolada, voltada só para treinar, teve um preço: sem experiência e nem jogo de cintura diante de situações cotidianas no mundo real, não sabia como se defender da  aproximação de amigos e relacionamentos baseados em interesses. A vida era treino, jogos e viagens. A solidão sempre estava presente.

O casamento era um desafio. Casou pela primeira vez bem jovem, desdobrava-se entre treinos e cuidados com a casa e contava muito com a ajuda da família, para dar conta de tudo. “Desconhecia meu antigo parceiro porque passava tanto tempo fora que quando estávamos juntos vinham os conflitos”, lembra.

Adiou o desejo de ser mãe por muitas vezes, em benefício da profissão, até que não foi mais possível. “Minha mãe dizia que tinha que ser forte para que eu mesma me defendesse e resolvesse meus problemas”, conta. E assim foi e ainda é. Uma fortaleza que deu a volta por cima depois de 3 cirurgias no joelho, quando todos questionavam a sua volta às quadras, e também quando a vida lhe deu várias rasteiras.

Hoje, as que jogavam juntas naquela época, equipe de ouro que ganhou vários jogos olímpicos, não têm nenhum nível íntimo de relacionamento, mas sempre estão presentes quando uma precisa de apoio. “É uma relação estranha ao meu ver, mas que funciona na hora da necessidade”, explica.

E assim evidenciei. Quando cheguei para entrevistar Regla, quem a ajudava durante o treinamento da equipe de vôlei da Escola de Havana na qual atua como treinadora, era Marta Sánchez, outra estrela do grupo.

Essa jogadora de personalidade, honesta com seus sentimentos e com o que pensa e diz, não é de fingir ou de se submeter, seu caráter forte e a sede de vencer é muito natural, como o são na maioria das mulheres cubanas. Embora, na vida diária, fora das quadras, seja outra a situação.”Eu sou uma pessoa passiva fora do vôlei, gosto de estar sozinha e ter meu momento em silêncio, preciso desse tempo, amo ler e prefiro as coisas simples”, detalha.

Apesar de ter participado de um monte de polêmicas que, até hoje, são lembradas, como brigas e desafetos, principalmente com jogadoras brasileiras, diz gostar muito do Brasil. “Eu amo o Brasil! Sinto uma identificação quando estou no país e as equipes de vôlei brasileiro sempre foram muito fortes. Todos me falam das partidas contra o Brasil nas ruas, mas com muito carinho e brincadeiras”, confessa.

Nos Jogos Olímpicos de 2008, teve um encontro com a Virna Dias, a estrela e rival brasileira da época, com quem ela brigava no meio dos choques. Conversaram e demonstraram que existe carinho e respeito, sem a rivalidade das quadras. “Nós tínhamos que desestabilizar o time do Brasil, que era mais veloz, e começaram aí as brigas. Mas isso ficou no passado. Nunca mais vi equipes com temperamento explosivo e com sede de ganhar como eram as equipes brasileira e cubana, de Atlanta, 1996”, admite.

Essa fama de brigona trouxe alguns infortúnios na vida. Ouviu muita crítica na hora de entrar no hall da fama como melhor jogadora de vôlei do século XX. Foi por muito tempo incompreendida. “Consegui entender e aceitar que fui eleita e era justo tê-lo”, apesar de ter sofrido tantas injustiças ao ser nomeada.

Quero homenagear essa grande mulher cubana, ex-jogadora de vôlei e tricampeã olímpica (1992, 1996 e 2000), que ganhou a sua terceira olimpíada com apenas 25 anos, possui 13 medalhas de ouro e três de prata e, nada menos, é considerada a melhor jogadora do século XX pela Federação internacional de voleibol, figurando desde 2001, no hall da fama desse esporte.

E o que ela tem a nos dizer e sempre diz a sua equipe quando treina o seu time de jovens mulheres, futuras jogadoras, é: “Não existe nada nesse mundo que uma mulher não possa fazer ou conseguir.”

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2 comentários

Sofia Agosto 20, 2018 at 5:16 pm

Muito legais os seus textos sobre Cuba!
Queria saber se seria possível um sobre a fisioterapia cubana, se há grande diferenças entre aqui e aí. Estou fazendo um trabalho sobre isso, inclusive kkkk É de fisioterapia ao redor do mundo, e a minha parte ficou a da América Central. Sei que, SE vc chegar a responder provavelmente não vai dar tempo de colocar no trabalho nem nada, mas mesmo se fosse só a título de curiosidade pra mais tarde, eu acharia bem interessante mesmo.
Enfim, obrigada pelos textos que vc já escreveu. Abraços e tudo de bom!

Resposta
Claudia Setembro 8, 2018 at 4:25 pm

Ola Viviane,

Li alguns textos seus e fiquei curiosa em saber onde vc mora em Havana? Em que parte da cidade? E vc trabalha aí?
Na verdade queria saber porquê vc se mudou para Cuba!
Abs

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