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Escócia

Escócia – Pequenos detalhes

Dizem que você só conhece o país de verdade quando você passa a residir nele, onde experimenta sua cultura, as políticas e regras locais, interage com os outros residentes sem ser um turista de passagem, quando tem que botar em prática todo seu conhecimento da língua para as coisas mais simples, como ir ao mercado.

Mas há também várias coisas pequenas presentes no dia a dia que só notamos quando começamos nossa nova vida, e que são um bom exemplo da diferença entre o país que escolhemos e o Brasil. Cada vez é uma surpresa, com que você aprende a se adaptar. A reação a cada uma, se é melhor ou pior, se é algo engraçado ou curioso, vai depender das nossas próprias experiências individuais. Listo abaixo algumas que notei desde que mudei; algumas não são exclusivas da Escócia ou do Reino Unido, você pode encontrar em vários outros países, mas que são diferentes para brasileiros. Algumas já passaram a ser algo tão automático pra mim nestes 3 anos vivendo aqui que eu estranho quando algum visitante do Brasil aponta com curiosidade a “novidade”. Eu acho essas pequenas diferenças interessantíssimas e uma parte fundamental de toda a experiência que temos no exterior.

(Quase) tudo fecha cedo: São Paulo, minha cidade natal, é famosa pelos vários serviços que são oferecidos até tarde da noite, muitos 24h. Aqui a maioria do comércio e serviços encerra as atividades às 17h, alguns estendem às 18h. A exceção fica com algumas redes de mercado e estabelecimentos de lazer como restaurantes que abrem para o jantar, cinemas/teatros, pubs e clubes noturnos. Saiu do trabalho e quer fazer compras depois deste horário? Nem pensar. Ficou doente depois das 17h e precisa de um remédio? Esqueça farmácia. Se for algo simples sem prescrição, corra para o mercado. Senão, só com o serviço out-of-hours que vai te dizer por telefone o que fazer. Se for emergência, este setor obviamente fica aberto nos hospitais o tempo todo. A balada termina cedo: pubs fecham entre 23h e meia-noite e as festas noturnas acabam por volta das 2h-3h.

sorry we are closed
(fonte: pixabay.com)

Money, Money, Money: No Brasil sacar dinheiro é uma tarefa hercúlea. Além dos horários limitados de funcionamento dos caixas eletrônicos, você só pode sacar no caixa do próprio banco ou em redes como a 24 Horas, que cobram taxas extras dependendo da sua conta. Aqui você pode sacar dinheiro em qualquer caixa eletrônico, de qualquer banco, em qualquer hora. Dá até pra entender a questão do horário no Brasil por questões de segurança, mas essa universalização dos caixas eletrônicos deveria ser urgentemente aplicada no país. Nada pior do que ter que bater perna desesperadamente atrás de um caixa específico quando você precisa de dinheiro.

Moeda é algo sério: moedas aqui são valorizadas e desprezá-las é um erro. Dá pra pagar várias coisas só com moedinha. E nada de troco em bala ou perdoado. Se a compra foi de 1.99 e você pagar com 2, o comerciante vai te devolver aquele 1 centavo. Afinal, nada mais justo, não é mesmo?

Liga pra mim: aqui não existe cobrança de DDD. Não faz diferença eu ligar pra um número de Aberdeen ou ligar daqui pra Londres. O custo é o mesmo.

Paga pra mim: lembram do famigerado serviço 0900, que obrigava o cliente a pagar uma tarifa especial para ligar para as empresas? No Brasil (ainda bem) foi proibido, mas aqui ainda existe nos telefones que começam com 084 e 087. Sem saber dessa cobrança logo que cheguei, acabei com uma conta de 40 libras no celular (para comparação, minha conta mensal é 10 libras). Há planos de encerrar este serviço ainda neste ano. Enquanto isso, muitas pessoas recorrem a sites como o SAYNOTO0870, que oferece alternativas de números locais das empresas.

Escreve pra mim: tudo é comunicado por carta. As contas são enviadas por carta. O agendamento da consulta médica com o especialista é enviado por carta. Mudei de plano de eletricidade/gás recentemente, os dois com a mesma empresa. Recebi quatro cartas: uma pra confirmar o novo plano de gás, uma para o de eletricidade, e mais duas para confirmar a forma de cobrança de cada um. Escrever cartas para revistas, serviços públicos e empresas é super normal por aqui. Também é muito comum enviar cartões de uma pessoa a outra em qualquer ocasião, algo que ficou esquecido no Brasil. Há lojas inteiras dedicadas a cartões, tamanho o sucesso que eles fazem.

A caixa de correio do Royal Mail (fonte: pixabay.com)
A caixa de correio do Royal Mail (fonte: pixabay.com)

Minhas compras, minha sacola: desde o ano passado, os consumidores na Escócia pagam 5 pence (£0.05) para cada sacolinha que usam no comércio. Isso vale pra qualquer sacola, seja de plástico ou papel. Em São Paulo quando propuseram algo parecido foi um auê sem fim. Aqui todo mundo entendeu e passou a andar com suas próprias sacolas reutilizáveis. Quem esquece ou não quer andar com uma, paga o valor sem chorar. Os comerciantes podem ficar com o dinheiro, mas têm sido encorajados pelo governo a doar esse valor para causas ambientais e informar os consumidores como esse dinheiro está sendo utilizado.

Em casa

Não existe área de serviço: A lavadora de roupas fica na cozinha. Quem tem quintal seca as roupas lá fora. Quem não tem monta o varalzinho de apartamento e bota as roupas pra secar onde tiver espaço (as minhas secam na cozinha). Ou compra uma secadora, que não é muito eficiente e ocupa mais espaço ainda.

Ninguém lava a calçada: Isso é algo brasileiro e completamente desnecessário, além de ser um horror em termos de sustentabilidade.

Cada um com sua porta: prédios não tem porteiro em geral. Alguns edifícios mais novos em grandes cidades, pensados para um público de executivos que vêm trabalhar aqui, possuem um serviço de concierge, mas são a exceção. “Mas quem vai receber minha encomenda se eu não estiver em casa?” Você pode retirá-la na agência mais próxima se o carteiro não conseguir entregar. Também dá pra mandar entregar no trabalho ou pedir pro vizinho receber, e já aproveita pra fazer uma amizade.

Cadê o ralo? As casas não tem ralo, porque ninguém lava o chão. Passa uma vassoura e um pano ou um esfregão e tá tudo limpinho. Rodo não existe, só aquele pequeno para a pia e ou a versão para limpar janelas.

Sem choque: quem usa secador tem que se acostumar com usá-lo no quarto. Por regras nacionais de segurança os imóveis não possuem tomada no banheiro. Há apenas uma especial para barbeadores.

A única tomada nos banheiros
A única tomada nos banheiros

Falando em banheiro: papel higiênico se joga na privada (que é bem mais higiênico por sinal), não no lixinho. Muita gente aqui nem lixinho coloca e neste caso quem precisa jogar fora outras coisas como embalagens, lenços umedecidos e absorvente vai até a lixeira mais próxima da casa.

A paixão por papel de parede e carpete. O carpete faz todo sentido num país frio, e o papel de parede se bem cuidado, dá um charme na casa. Mas têm proprietários que extrapolam sua paixão e colocam os dois até no banheiro. Aí não rola.

E você, o que acha destas diferenças? Quem já veio pra Escócia lembra de alguma que te chamou a atenção?

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Daniela Madureira

14 comentários

Juliana Brandão Dezembro 16, 2015 at 4:33 pm

Aqui na Inglaterra também é assim a maioria das coisas. Mas juro que não consigo entender a ausência de ralo.
As tomadas até entendo pelo histórico incendiário da ilha, mas ralo? rs

As sacolas só começaram a ser cobradas, aqui em baixo da ilha, em outubro desse ano. Eu achei o máximo!!

Agora, lavar a calçada pra que?? A chuva lava hehehe

Beijos, Ju.

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Daniela Madureira Dezembro 16, 2015 at 7:22 pm

Não tem ralo porque ninguém lava o chão, passa um pano pra limpeza.
Acho que até demorou essa cobrança das sacolas na Inglaterra, e eu lembro que alguns tablóides (pra variar) estavam noticiando esta medida como se fosse o apocalipse hahahaha. O povo aqui na Escócia só deu risada.

Pois é, também nunca entendi essa necessidade que brasileiro tem de lavar calçada. Puro desperdício de água.

Um beijo!

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Giovanna Calixto Faraco Outubro 21, 2016 at 7:36 pm

Eu sempre pensei assim com relação as calçadas! hahaa
Que bom ver que existem países que tem isso como uma prática. <3

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Cristiane Leme Dezembro 16, 2015 at 7:44 pm

Dani, adorei o texto! Por aqui colocaram as diferenças culturais na cartilha da integração. Por exemplo, a questão de como lavar a louça, que por aqui ainda é como no tempo da minha bisavó, tudo num tacho só e com água muito mas muito quente. A questão da cobrança das sacolas de mercado eu acho que é uma realidade em vários países europeus; lembro de quando fui pra Alemanha pela primeira vez em 2003 e no supermercado não tinha sacolas (nem pra comprar) porque por lá o ‘normal’ é cada pessoa trazer a sua própria sacola de casa… Acho muito interessante observar as diferenças e nessas horas penso no quanto o brasileiro é “mimado” nos seus costumes. Nem sei se mimado é a palavra certa, mas enfim…
Bjo

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Daniela Madureira Dezembro 16, 2015 at 8:23 pm

Oi Cris! Aqui até onde sei não tem nada parecido com uma cartilha, o que é uma pena, facilitaria muito a vida de alguns imigrantes em alguns aspectos. Mas acho legal também essa experiência de descobrir certas coisas do dia-a-dia.
Eu lembro que a primeira vez que vim à Escócia, em 2009, eu tive que pagar pela sacola em um mercado, e achava que isso era padrão, pelo menos em mercados. Só depois que passei a viver aqui que descobri que não, mas fiquei feliz com a nova lei (que agora existe na Inglaterra também). Muito atraso não fazer isso.
Sobre a comparação com a vida dos brasileiros, outra coisa que acabei deixando de fora mas é bem marcante é a ausência de quarto de empregada nos imóveis (e a quase ausência das próprias empregadas).
Beijo!

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Isabela Dezembro 17, 2015 at 11:22 am

Muito interessantes essas curiosidades, algumas eu já tinha ouvido falar, mas única que eu fico pensando é ..jogar papel higiênico na privada ? Parece um desperdício de água tão grande ..

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Daniela Madureira Dezembro 17, 2015 at 8:03 pm

Oi Isabela! Jogar papel higiênico no vaso não gera desperdício de água. O papel vai junto com o… “restante”, na mesma descarga que a pessoa já dá depois de utilizar o vaso. A quantidade de água na descarga é a mesma, independente de jogar o papel lá ou não. E com isso evita-se que o papel acabe nos aterros sanitários, dentro de um saco plástico.
Na água ele se decompõe durante o tratamento de esgoto.
Obrigada pela leitura!

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Elias Dezembro 17, 2015 at 7:21 pm

Olá Daniela! Aproveitando o assunto das cartas, me deixou uma dúvida: como funciona o serviço de correspondências por aí? Vejo que existem muitas caixas de correio espalhadas nas ruas, não só no Reino Unido, mas em vários países do mundo, e as pessoas simplesmente depositam suas cartas e correspondências por lá. Mas como no Brasil tudo é feito dentro da agência do Correios (para pegar uma imensa fila e demorar horas para mandar uma cartinha), não tenho ideia de como vocês fazem isso. Poderia explicar como funciona?

Sobre sua matéria, me identifiquei e deparei com muitas coisas que você descreveu quando visitei Londres. É um lugar bem diferente do Brasil e essas diferenças só deixam a viagem ser mais interessante. Obrigado!

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Daniela Madureira Dezembro 17, 2015 at 8:11 pm

Oi Elias, o funcionamento do envio de cartas aqui é bem similar ao do Brasil. Você pode utilizar as agências (como você mencionou) ou as caixas (que também existem no Brasil). Para utilizá-las, tanto aqui como no Brasil, o envelope já deve estar selado. Então se você já sabe o valor do envio, basta comprar o selo em lojas autorizadas ou nas agências, colar no envelope e aí depositar a carta na caixa.
Em casa nós compramos alguns selos pra já deixar aqui. Quando enviamos cartões postais ou cartas simples, cujo preço é sempre o mesmo, já deixamos prontos e selados e só enviamos pelas caixas de correio. Se é um pacote ou algo maior que precisa ser pesado para calcular o valor, aí utilizamos a agência.

Fico feliz que tenha gostado do texto! Muitas coisas aqui na Escócia são realmente similares às do nosso vizinho do sul, a Inglaterra.
Eu que agradeço pela visita ao blog e pela leitura!

Resposta
Veronilda G. Robertson Janeiro 8, 2016 at 2:54 pm

Olá, Daniela!

Gosto muito dos seus posts!!

Seguem duas coisas que tenho notado ser bem diferente aqui na Escócia com relação ao Brasil:

Onibus: se você pegar um ônibus deverá ter o valor exato da passagem ou perderá seu dinheiro pois não há cobradores e os motoristas não manuseiam dinheiro, portanto não dão troco. Você precisa colocar as moedas em uma caixinha e falar o tipo de passagem que quer. Single ticket, Day Ticket (que vale para o dia todo) ou Night Ticket. O que facilita muito é que existe outras formas de comprar a passagem, usando o celular, ou comprar um cartão, equivalente ao Bilhete Unico em São Paulo. Porém, aqui quando você usa o cartão o valor de uma passagem vale para o dia inteiro.

Escola: é obrigatória a presença da criança na escola, se faltar eles mandam uma mensagem perguntando porque a criança não está na escola e existe um determinado número de faltas que pode ter no ano, Se ultrapassar por motivos não justificáveis, os pais são multados.

Abraços,

Resposta
Daniela Madureira Janeiro 8, 2016 at 7:27 pm

Veronilda, bem bacana lembrar dessas diferenças! Eu não tenho filhos então não sabia dessa sobre a escola.

Sobre os ônibus, não conheço um cartão que permita viajar durante um dia inteiro pelo preço de uma passagem. As opções que conheço são os cartões que permitem carregar para várias passagens, mas cada vez que você pega um ônibus, uma nova passagem é cobrada. Ou tem a opção do cartões diários, mensais e anuais, que permitem múltiplas viagens no período escolhido, mas têm um valor mais caro do que uma passagem simples. Você tem um link com informações sobre este tipo de cartão que menciona?

Abraços.

Resposta
Débora Thomé Abril 4, 2016 at 6:26 pm

Puxa, estou indo em maio e essa informação do cartão de ônibus seria bem útil! Eu recebo notificação se vocês continuarem essa troca de ideias?

Amo a Escócia! Adorei o blog!

Bj e obrigada

Resposta
Daniela Madureira Abril 4, 2016 at 10:40 pm

Oi Débora, eu não recebi mais resposta dela, mas recomendo a você o site Traveline Scotland, que traz a lista de todas as empresas de transporte público e seus sites, onde você pode consultar as opções de bilhetes e cartões nas cidades que vai visitar.

Obrigada por acompanhar o blog, fico feliz que goste dos textos!
Boa viagem à Escócia, é realmente um país encantador.

Abraços, Daniela

Resposta
Anelise Vaz Outubro 13, 2016 at 11:54 pm

Oi Débora, acho que já está tarde pra te responder, mas esse cartão que ela mencionou se chama Ridacard, funciona na região de Edimburgo. Custa 50 libras por mês e se anda à vontade em ônibus, airlink e nos trams. Também tem outro tipo em que você coloca quantas viagens quer, pra evitar esse problema do troco. Em Edimburgo os motoristas realmente não dão troco, tem que ter o valor exato. Mas em outras regiões do país pode ser diferente, Eu agora moro em Fife e aqui eles trocam até notas grandes, dão o troco direitinho.

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