Eu sofro preconceito no Brasil e não na Alemanha

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Photo by Toa Heftiba on Unsplash
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Eu sofro preconceito no Brasil e não na Alemanha.

A conversa começou com as comparações entre criar filho no Brasil e na Alemanha, se estendeu para a discrepância social brasileira e acabou no preconceito. Éramos três brasileiras de distintos estados, casadas com alemães e com filhos em idades diferentes.

Eu, gaúcha, nunca senti o preconceito pela cor da pele, mas sim pelo modo de me vestir. Acostumada com a modéstia e o conforto da vestimenta europeia, saio desse modo para passear e fazer compras nos shoppings de Porto Alegre. Entrar em lojas sofisticadas mal arrumada é ser foco de olhares interrogativos e descaso no atendimento. O comportamento das vendedoras muda completamente quando meu marido está ao lado e as atendentes nos ouvem falar em alemão.

O relato da paulistana vai mais além. Ela tem a cor da pele mais escura que a dos filhos e gosta de usar roupas brancas. É constantemente taxada como babá das crianças, quando a encaixam no clichê do uniforme dos serviçais. Em uma ocasião, falando alemão com as crianças, foi questionada de onde vem essa babá tão estudada, que até alemão fala. Não lhe resta outra alternativa senão explicar que ela própria é a mãe das crianças e que eles moram na Alemanha e não no Brasil. A atitude dos interlocutores muda imediatamente e a curiosidade supera o pré-julgamento.

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A baiana ademais dessas situações, relatou que já foi considerada como prostituta quando estava em companhia do seu marido gringo. Numa ocasião, sentados em um restaurante no pelourinho, foi abordada por um homem que a perguntou quando ela estaria liberada para o próximo programa. Ela respondeu que aquele era o seu marido. O homem retrucou: “Ah, isso dizem todas!”

A conclusão da conversa foi a seguinte frase: Preconceito eu sofro no Brasil, aqui na Alemanha ninguém me pergunta se eu sou babá dos meus filhos ou me vêm como prostituta por estar acompanhada de um alemão.

E eu pergunto: Será que não sofre preconceito mesmo ou ele é mais discreto, sutil e recai sobre outro tipo clichê?

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Preconceito existe em toda parte, depende dos valores da sociedade: está relacionado com a história do país, com o grau de machismo, com o nível de desigualdade social, com a abertura para a diversidade, com a aceitação da miscigenação e integração de estrangeiros na sociedade.

Eu sofri preconceito quando cheguei na Espanha, porque achavam que eu estava em busca de um marido europeu para poder ficar na Europa. Já quando vim para a Alemanha, a receptividade foi completamente diferente; aqui, como brasileira, fui muito bem acolhida, pois o Brasil para os alemães é sinônimo de alegria e coisas boas. Já quem sofre preconceito por prostituição são as mulheres do leste europeu e as asiáticas, como as tailandesas, que são frequentemente taxadas de “casar por interesse”.

O preconceito, infelizmente, está em todas as partes, em todas as sociedades, muda somente de figura em relação à importância que é dada a uma característica pessoal, posição ou comportamento: origem, orientação sexual, cor da pele, crença religiosa, classe social, idade, currículo escolar, currículo laboral, as categorias são inúmeras.

Quem sofre preconceito sempre se sente menosprezado e injustiçado, a diferença é que, ter essa experiência no nosso país de origem dói mais, pois nos damos conta dos valores da sociedade da qual viemos e da amplitude impactante com que eles se impõem. Para quem vive no exterior, preservamos a imagem das coisas do nosso país, tentando abafar as ruins da nossa memória.

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Regressar com toda a saudade acumulada e sofrer preconceito é muito doloroso, pois não esperamos passar por esse tipo de situação. É uma dor dupla, uma por dar-se conta dos valores que a sociedade carrega, outra por ser discriminada no seu país por motivos pelos quais você não é discriminada no país que a acolheu.

De todas as formas, o preconceito faz mal, é totalmente injusto e injustificado e cabe a cada um de nós, como indivíduo, combater nossos próprios pré-julgamentos, ensinar aos nossos filhos sobre a importância da diversidade e trabalhar na sociedade para que preconceitos sejam dissolvidos.

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Larissa é nascida em Porto Alegre, criada em Vacaria, na serra gaúcha e herdou dos seus pais a vontade de viajar. Advogada de formação, escritora de coração, aventureira por emoção, veio para a Europa em 2001 em busca de novos desafios e de seu lugar no mundo. A primeira estação em Madri não lhe despertou a vontade de ficar ali para sempre, e, assim chegou, num dia frio de março, um dia antes de seu aniversário de 27 anos, numa pequena cidade na costa da Alemanha para trabalhar numa sorveteria de italianos. Apesar do trabalho árduo, decidiu que esse era o seu lugar, e que teria muito o que aprender nesse país. Assim sendo, aprendeu alemão, conheceu seu marido, trabalhou como intérpretre, fez mestrado, trabalhou numa empresa brasileira, teve filhos, mudou-se em 16 anos de Alemanha, 6 vezes de cidade, e está sempre em busca do conhecimento humano e de histórias inspiradoras. Tem seu próprio blog sobre suas observações da vida alemã, o Brasanha, escreve sobre a maternidade na Alemanha no Batatolandia e colabora com o projeto Carlotas sobre empatia e diversidade.

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