Fábio Mesquita, diretor do Departamento de combate à AIDS do Ministério da Saúde

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Fábio Mesquita, diretor do Departamento de combate à AIDS do Ministério da Saúde.

Hoje no Clube do Bolinha o entrevistado é o médico epidemiologista Fábio Mesquita, que depois de passar dez anos morando na Ásia implementando tratamentos contra a AIDS está de volta ao Brasil à frente do Departamento de Combate à AIDS e Hepatites Virais em Brasília.

Fábio, que é reconhecido mundialmente como uma das maiores autoridades no assunto, está ajudando a escrever a história da luta contra a epidemia de AIDS no Brasil e mundo afora. Depois de atuar por oito anos pela ONU no sudeste da Ásia, foi convidado pelo ministro da saúde brasileiro para voltar ao Brasil como diretor do Departamento Nacional de DSTs, AIDS e hepatites virais, que enfrentava um de seus maiores desafios históricos: controlar um novo crescimento da epidemia em nosso país, agora na juventude.

Conheça um pouco mais da vida desse brasileiro que leva o nome do Brasil para todos os rincões do mundo através de congressos e conferências em que participa.

Gostaríamos de conhecer um pouco mais sobre você :Quando se deu conta que estava se tornando um cidadão do mundo?

Fábio: Adoro meu país, meu trabalho aqui, meus amigos e minha luta, mas desde muito cedo tive uma sede muito grande “pela estrada”. Aos 14 anos de idade fiz minha primeira viagem internacional, um mochilão com outros amigos adolescentes. Pegamos aquele trem que faz o circuito Brasil – Bolívia,  o trem da morte, como era mais conhecido e fomos primeiro até a Bolívia, aos Andes e cruzamos o continente chegando ao Oceano Pacífico no Peru. Aos 30 anos fiz minha primeira viagem profissional/ acadêmica para a Universidade da Califórnia em Berkeley, nos EUA… E a partir daí foram inúmeras viagens para muitos lugares do mundo, onde atuei partilhando a expertise adquirida através de nossas bem sucedidas experiências brasileiras. Viajei para países incríveis como a Rússia, Tailândia, Japão e muitos outros, e ainda durante uma bolsa sanduíche no meu doutorado, vivi pela primeira vez um ano inteiro nos Estados Unidos. Quando você viaja tanto, perde um pouco do senso de chão. Sente que de um modo ou de outro vai estar para sempre em trânsito.

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Dr Fábio recebendo dois dos netos do saudoso Nelson Mandela, no Brasil. Eles vieram dar apoio a campanha Zero Discriminação.
Fábio recebendo dois dos netos do saudoso Nelson Mandela no Brasil. Eles vieram participar  da campanha Proteja o Gol do UNAIDS, apoiada pelo Departamento de AIDS

E como surgiu a oportunidade para que você decidisse sair do país de uma maneira quase definitiva e para uma oferta profissional tão desafiadora?

Fábio: Fui recrutado para trabalhar na cooperação australiana, a AUSAID, que desenvolvia um projeto de cooperação técnica em parceria com o governo da Indonésia. Meu contrato era de dois anos apenas e eu não pensava em esticar mais do que isso, mas quase na sequência, recebi um convite para trabalhar na ONU. Era irrecusável, e lá fomos nós (eu e minha esposa Fabi Mesquita, colunista do BPM), para uma nova missão. Mudamos para as Filipinas onde ficava baseada a sede regional da Organização Mundial da Saúde (OMS). Ali fui responsável por implementar e apoiar tecnicamente projetos de Redução de Danos para a prevenção da AIDS em 39 países do sudeste da Ásia e do Pacífico. Quatro anos depois fui promovido e passei a cuidar de todo o programa de AIDS da OMS no Vietnã.

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Trabalhando na Ásia

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Dr Fábio dando palestra sobre a AIDS
Fábio dando palestra sobre a AIDS

Conte pra gente uma grande lição que você aprendeu nesses anos no exterior.

Fábio: Mudamos para a Indonésia logo após o tsunami. Passamos por terremotos e furacões. Vimos até um vulcão em erupção quando fomos voluntários na tragédia do terremoto de Jogjakarta de 2005. É um exercício precioso de humildade e gratidão à vida. Você se dá conta que é apenas uma migalha ante a fúria da natureza, mas que ainda assim pode fazer a diferença, enquanto fizer o bem.

Estragos feitos por um furacão em Hanoi, no Vietnam
Estragos feitos por um furacão em Hanoi, no Vietnam
Fábio, um dos voluntários ajudando as vítimas do furacão Ondoy, nas Filipinas
Dr Fábio com Ministra da Saúde da Indonésia
Fábio com Ministra da Saúde da Indonésia

Do que você mais sentia falta ?

Fábio: Da comida, do resto da família, dos amigos e de coisas nossas tão particulares, como a música, a espontaneidade e o calor humano. Da rede de relações no meu próprio país.

Você abriu mão de um posto importante em uma das maiores organizações do mundo. Valeu a pena voltar para casa?

Fábio: Sem dúvida. É um privilégio poder trabalhar de novo para seu próprio país, com você reciclado, mais aberto e experimentado, vivendo e experenciando coisas que estagnado em um mesmo local seriam impossíveis. O que você aprende aqui pode ajudar muitos outros povos, mas o que você aprende dos outros povos também pode ajudar muito aqui.

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Seu coração aquietou aqui? Voltou de vez?

Fábio: O definitivo não existe. Como diz a canção, o trem que chega é o mesmo da partida. Quando morava fora morria de saudade do Brasil. Daí você volta para casa e morre de saudade da Ásia. Quando você é um expatriado, não existe mais vida sem saudade. A hora do encontro é sempre também despedida. Havia aprendido tudo isto teoricamente com minha filha Laura que saiu aos 12 anos do Brasil para morar na Holanda e sempre teve esta sensação de pertencimento a mais de um mundo, mas foi minha experiência prática que reafirmou este conceito de que você é do mundo e não de um só lugar por mais legal que ele seja, como é o Brasil. (Você) vive intensamente cada um deles e morre de saudades de cada aspecto caraterístico de cada um deles.

Que conselho você dá para quem sonha com uma carreira internacional ?

Fábio: Estude muito! Faça especializações, encare pelo menos um mestrado. Aprenda inglês e se possível alguma outra língua. Seja curioso, faça trabalhos voluntários, envolva-se com organizações internacionais sérias. Participe de intercâmbios e esteja sempre antenado com o mundo ao seu redor. Há muitas instituições sérias que recrutam talentos ao redor do mundo. Vale muito a pena estender seus horizontes e se sentir cidadão do mundo, com responsabilidades por ele como um todo.

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Fabi é uma mulher de fibra, que carrega no coração o mundo inteiro. Jornalista e bailarina, tem mestrado em Educação, Arte e História da Cultura e é doutoranda em Antropologia, mas nem liga para esses títulos porque o que ela gosta mesmo é de estar no meio da moçada, promovendo Direitos Humanos e empoderamento popular. Atua com educomunicação e juventude desde que se entende por gente, e ganhou em 2015 o título de mulher inspiradora pelo coletivo feminista "Think Olga" que nomeia os destaques femininos em suas áreas de atuação. Fabi é consultora em comunicação e mobilização social e ja trabalhou para diversas agências das Nações Unidas, além do CDC de Atlanta, além de diversas ONGs e Fundos. Escreve para esse blog desde 2013. Ela tem rodinhas nos pés e asas nas costas. Talvez por isso alguns a chamem de fada. Não tentem descobrir de onde ela é, porque ela pertence a muitos lugares e ao mesmo tempo a nenhum. Essa aquariana de riso farto, tira leite de pedra por onde quer que vá. Saiu do Brasil para morar na Indonésia em pleno pós Tsunami sem falar nenhuma palavra de inglês, se virou bem e daí pras Filipinas e Vietnã. Fez uma pausa no Brasil e agora está na Suíça. Por quanto tempo? Não se sabe. Ela segue à risca o conselho de Frida Kahlo que diz: Onde não puderes amar, não te demores...

14 Comentários

  1. Cara! Genial…muito bom saber um pouco mais sobre esta grande pessoa que é o Fabio. Ele, com simplicidade, trabalha para “salvar” vidas no sentido amplo da palavra.
    Muito legal!
    Saudações!

  2. Fábio Mesquita…. O GRANDE MESTRE E O MAIOR PRESENTE QUE EU PUDE CONHECER
    FÁBIO E FABI MESQUITA
    NÃO TENHO PALAVRAS PARA AGRADECER A DEUS A OPORTUNIDADE QUE TIVE DE CONHECER VOCÊS!
    QUE DEUS ABENÇÕE VOCÊS E DER MUITOS ANOS DE VIDA PARA QUE CONTINUEM FAZENDO ESSE TRABALHO LINDO DE VOCÊS, E CONTINUAR DANDO OPORTUNIDADES A PESSOAS SEM OPORTUNIDADES COMO NÓS TRAVESTIS E TRANSEXUAIS.
    AMO VOCÊS!

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