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Feminismo no Qatar

Feminismo no Qatar

Feminismo e mundo árabe parecem conceitos antagônicos, um quebra cabeça que não encaixa, uma ilusão. Mas ao contrário do que todo mundo pensa, as mulheres árabes também têm voz – às vezes sufocada – e começam a ter vez.

Antes de começar, e para me esquivar de qualquer comentário preconceituoso, gostaria de dizer que, para efeitos desse artigo, feminismo é a luta pela igualdade de gêneros. Direito de escolher onde ir, o que vestir, com quem casar; se estuda ou compra uma bicicleta; votar, dirigir, receber o mesmo salário que um homem, enfim… essas coisas básicas que nos transformam em seres humanos pensantes e plenos.

Aqui no Qatar algumas mulheres exercem papel de destaque na sociedade, como, por exemplo, a Dra. Hessa Al Jaber que é Ministra da Informação, um dos cargos mais importantes do governo e a Sheikha Mayassa Al Thani, que é a presidente da Qatar Museum Authority.  Para saber um pouco mais sobre o papel da mulher por aqui, confira este artigo.

Mesmo tendo esses dois exemplos, e outros, de mulheres poderosas, pouco se é feito em prol da defesa das mulheres em geral e o assunto “direito das mulheres” é um tabu.

No último mês – e até agora – rolou o maior bafafá nas redes sociais entre os qataris, e os expatriados que aqui vivem,  porque a escritora qatari, Maryam Al-Subaiey, apareceu seu o véu em um programa de TV, num canal francês.

Embora ela tenha defendido que as mulheres qataris têm conquistado seu lugar ao sol – o que não é de todo mentira como eu já disse -, os seus conterrâneos não ficaram felizes. A maioria dizia que é um desrespeito uma mulher qatari, que está representando o país, aparecer sem se cobrir (eles estavam falando da cabeça, porque o corpinho dela estava bem tapado).

Foi um alvoroço no Twitter e rendeu até “textão” de colunista em jornal local. Fiquei feliz por não serem só pedradas. Muitos qataris, mulheres e homens, defenderam a escritora, afinal não é um pedaço de pano que define o caráter de ninguém e teve gente que lembrou, inclusive, que a esposa do atual Emir já fez aparições sem o véu. (Será que acharam que ela é uma má qatari também?)

O bom dessa fofoca toda foi que se abriu espaço para falar do que realmente importa. Dentro da universidade mais importante do país foi feito um fórum sobre a figura da mulher no islã.

A Dra. Hatoon Al Fassi, saudita que luta pelo direito de suas conterrâneas a votar e dirigir, falou abertamente sobre a pouca participação política das mulheres, da não criminalização da violência doméstica e ainda sobre o fato de o filho de uma mulher qatari, com um homem de outra nacionalidade, não ser considerado qatari (a nacionalidade passa apenas através do pai).

Depois dessas declarações, para eles, bombásticas, houve um novo reboliço no Twitter, pedindo a expulsão da professora da universidade. Um detalhe importante: Em 2001 ela foi proibida de ensinar na Arábia Saudita.

A falação, pelo que vi, foi toda sem fundamento. Foi um tal de “não gosto porque não gosto” sem fim. Ainda não chegamos a um conclusão sobre o assunto e acho que ainda está longe disso. Mas ao menos elas estão mostrando a cara e indo a luta.

Em sua entrevista à TV francesa, a escritora disse, entre outras muitas coisas, que o mundo inteiro é patriarcal mas que os países do Golfo são estereotipados como tal. Ela teve a oportunidade de estudar, de viver sua vida de forma livre e isso é fruto da luta de muitas outras mulheres, uma delas, inclusive, a Sheikha Mozah, mãe do atual Emir e segunda esposa do seu predecessor,  que trouxe as universidades para o Qatar e hoje mais de 70% da população universitária é constituída de mulheres.

Como observadora e militante feminista, eu fico feliz de ver essa mudança gradual no cenário. Mulheres empreendedoras, mulheres cientistas, mulheres políticas. É bonito de ver uma mulher que usa o véu, não porque é obrigada, mas porque escolheu usá-lo.

Toda essa discussão sobre feminismo e direito das mulheres me lembrou um documentário do Michel Moore no qual ele dizia querer para os Estados Unidos a igualdade de gênero alcançada na Tunísia. Isso mesmo, e você não está louco. Um país majoritariamente islâmico, localizado no Norte da África tem melhores condições para as mulheres do que os Estados Unidos.

A mudança vem de onde a gente menos espera, eu estou sempre me inspirando nessas mulheres cheias de coragem, que enfrentam toda a sociedade, mas também me inspiro nas mulheres que enfrentam suas rotinas de casa, filhos, trabalho sem a ajuda masculina porque a luta é de todas e por todas, a revolução está dentro de nós.

Fontes:

Qatari writer’s TV appearance sans hijab sparks debate

Saudi scholar comes under fire in Qatar for feminist views

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