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Japão

O fim do Eldorado japonês

O fim do Eldorado japonês.

Apesar de muitos descendentes já terem vivido no Japão em um determinado período ao longo desses 26 anos de movimento dekassegui, muitas pessoas ainda me perguntam se o país ainda é um bom lugar para ganhar dinheiro e são pessoas que estiveram por aqui há anos e devido a alguma dificuldade financeira no Brasil pensam em retornar ou mesmo marinheiros de primeira viagem que ainda enxergam o Japão como uma espécie de porta da esperança.

Claro, essa não é uma questão que se responde com um simples sim ou não, pois vários são os fatores que definem o sucesso ou o fracasso de um dekassegui (lembrando que dekassegui significa sair do seu local de origem para trabalhar em outro). Então as pessoas, em tese, saíram do Brasil para vir ao Japão apenas para trabalhar por um determinado período, juntar uma quantia de dinheiro e retornar ao país de origem.

Em primeiro lugar gostaria de deixar um aviso aos navegantes: o país passou por inúmeras mudanças nesses últimos 15 anos, reformas nas leis de imigração, leis fiscais e trabalhistas – esta última tem muito a ver com o seu planejamento para uma possível vinda ou retorno ao país.

Primeiro fator a ser considerado é o aumento do imposto sobre consumo que, por anos e anos, foi de apenas 5%, passou em 2014 para 8% e em 2018, subirá para 10% lembrando que consumo inclui a sua conta de luz, água, gás, telefone, compras em geral, enfim, tudo no final será acrescido 8% de imposto de consumo. É pouco? Faça as contas meu amigo(a) fique de olho nas suas faturas e some tudo no final do mês e verás que faz diferença sim.

Estudos feitos por especialistas mostram que a carga tributária direta sobre o salário ou renda do trabalhador supera os 44%, então com a “sobra” você ainda vai ter que pagar os 8% de tudo que for comprar ou consumir. Outra grande diferença é que a maioria dos trabalhadores brasileiros não são mensalistas nem contratados direto das empresas, mas mão de obra tercerizada, ganhando por hora. Sendo assim, não recebem bonificações, prêmios extras, subsídios e muitos ainda não estão inscritos nem sequer no seguro social, o Shakai Hoken.

Leia sobre: Dá para morar no Japão sem saber japonês?

Aliás o Shakai Hoken, que deve ser pago metade pela empresa e a outra parte pelo funcionário, também é um outro encargo que os estrangeiros não estavam acostumados, mas agora o governo, que possui a maior dívida pública do mundo, resolveu fazer valer a lei para todos, sem chorumelas; todos vão ter que contribuir, não é opcional, é lei!

Sim o governo vem nos encurralando com a chegada do cartão chamado “My Number” espécie de CPF mas, com funções bem mais evasivas, afinal até à sua conta bancária o governo agora terá acesso. Estamos praticamente a um passo de sermos monitorados por um chip ou sei lá o que mais vão inventar!

Nos últimos 20 anos, o salário do país também tem baixado consideravelmente. Assim, trabalhamos mais para tentar compensar essa diferença e aí vem o governo e agradece, pois você pagará então mais impostos, ou seja, quanto mais você ganhar, maior será o valor dos impostos a serem pagos. Em vez daquele passeio tão sonhado ou adquirir algum bem desejado, seu dinheiro irá para os cofres públicos, de alguma forma.

Antes de você pensar: “E então, o que você está fazendo aí?” Lembre-se de que o texto é direcionado às pessoas que desejam vir pela primeira vez ou retornar ao Japão na condição de DEKASSEGUI! A intenção como sempre é passar informações atuais e reais da situação do país.

Foto: Toshi Maehara
Foto: Toshi Maehara

Para os que estiveram por aqui no começo dos anos 90 e desejam retornar, aconselho a se prepararem para um outro Japão, até mesmo aspectos culturais sofreram grandes mudanças ao longo dos anos; sim, o país de cultura milenar sucumbiu às influências trazidas pela globalização. Para entender melhor, vou listar algumas coisas abaixo, sem muitos dados estatísticos, as mudanças que mais atingiram nosso bolso e estilo de vida aqui:

  • Obrigatoriedade do Seguro Social (Shakai Hoken), desconhecido/ou ignorado pela maioria dos estrangeiros latinos até a crise causada pela quebra do grupo Lehman Brothers em 2008;
  • Oscilação constante do preço dos combustíveis, antes os valores ficavam estacionados por anos;
  • Aumento dos bens de consumo, além de uma nova taxa inclusa na conta de luz para a reconstrução da região de Tohoku atingida pelo terremoto seguido por um tsunami em 2011;
  • Abenomics, o plano de novas políticas econômicas do atual governo liderado pelo primeiro ministro Shinzo Abe. O plano, que tem como alguns dos pilares enriquecer o país e fortalecer as forças armadas, na prática, para nós pobres mortais, ainda não surtiu nem um efeito positivo;
  • Ecobags caso não leve a sua, terá que pagar em média 3 ienes por cada sacola para colocar suas compras na maioria dos grandes supermercados;
  • Uso de cartão de crédito. Diferente dos EUA, esse é outro comportamento novo para os japoneses acostumados com cash (dinheiro vivo);
  • My Number Card“. Agora todos têm um número com 12 dígitos com o qual o governo pretende controlar melhor os impostos e o seguro social, além de tornar mais eficaz as medidas preventivas em caso de desastres tais como terremotos e tsunamis.
  • Pagar pelo sinal de transmissão do canal aberto do governo a NHK , briga antiga onde você não tem escolha a não ser que retire a antena de transmissão da sua residência (ainda existem controvérsias sobre essa taxa).

Leia também: como é trabalhar numa fábrica japonesa

Lembrando que tanto o pagamento da NHK como o Seguro Social sempre foram obrigatórios no país mas, até hoje ainda grande parte dos trabalhadores latinos fazem questão de se esquivar ou as empresas contratantes evitam a inclusão no Seguro Social devido o aumento dos encargos gerados para ambos.

Concluindo, sim o Japão ainda tem uma enorme carência de mão de obra (direta e indireta) estrangeira, os descendentes ainda são a melhor opção para o país porém, se o objetivo é juntar dinheiro para um futuro melhor, resta saber se o objetivo traçado será alcançado com um salário bruto que varia entre 1.500 a 4 mil dólares em média dentro desse novo cenário.

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1 comentário

daniel funez dos santos Novembro 11, 2018 at 2:47 am

Gostei da reportagem
Bem informativo.

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