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Fiquei desempregada na Alemanha. E agora?

Fiquei desempregada na Alemanha. E agora?

Sim, aconteceu: eu fiquei desempregada – pela primeira vez – enquanto estava na Alemanha. E é com esse tema que eu estou voltando como colunista do Brasileiras Pelo Mundo.

Em meu último texto, de fevereiro de 2017, ainda estava em Munique. Como as oportunidades na Alemanha ocorrem em uma velocidade incrível, recebi uma proposta para mudar de empresa com um salário bastante atrativo. Eu realmente estava encantada com Munique, mas era uma oferta nova e tentadora, ainda que implicasse uma mudança para Colônia.

Foram dois meses até conseguir um apartamento em Colônia, e em julho mudamos de mala e cuia. Diferentemente do que estávamos acostumados no Brasil, na Alemanha os serviços são realmente muito caros, então optamos por fazer tudo sozinhos. Alugamos um sprinter, desmontamos os poucos móveis que tínhamos, carregamos no carro e encaramos as cinco horas de estrada entre uma cidade e outra.

Mudança superada, felizes com a nova casa, mas meu lado profissional não estava no mesmo ritmo. Infelizmente, por amadorismo da minha parte, troquei uma carreira sólida em uma multinacional altamente reconhecida no mercado, em uma das melhores cidades para se viver no mundo, Munique, por algo incerto. Logicamente, não deu certo. Após os três meses de experiência contratuais, estava desempregada.

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Já em solo alemão há quase dois anos, descobri que indivíduos que contribuem por pelo menos 12 meses para a seguridade social alemã são elegíveis ao seguro-desemprego, correspondente a até 60% do valor líquido da média salarial dos últimos doze meses. Após descobrir sobre o seguro, fui pesquisar saber a questão do visto: como imigrante, quais seriam meus direitos em permanecer no país, uma vez que meu visto está atrelado ao empregador. No departamento de imigração havia uma pessoa responsável pelo meu processo de visto, a quem me dirigi imediatamente após a perda do emprego. Como portadora do Blue Card visto específico concedido aos profissionais altamente qualificados ou que estejam em falta no mercado alemão – eu tinha o direito de permanecer na Alemanha em situação de procura de emprego por pelo menos seis meses. Superados os dois primeiros possíveis obstáculos para continuar no país, dei andamento ao processo prático de Arbeitsuchend (em tradução quase literal, procuradora de emprego).

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A Agência de Empregos alemã tem sistemas bastante automatizados, com processos eficientes e colaboradores prestativos. No site da agência, intuitivamente é possível identificar onde clicar (Arbeitslos und Arbeit finden) para ser redirecionado à página de busca de emprego, seguro-desemprego (Arbeitslosengeld) e passos para informar a condição de desemprego/procura de emprego.

Foto: Pixabay.com

A primeira e mais simples etapa é informar online à agência sobre a rescisão/demissão e sobre a nova condição (online Arbeitsuchend melden) preferivelmente até três meses antes do término do contrato (sim, como tudo na Alemanha, até a demissão/rescisão precisa ser organizada) ou em até três dias da comunicação feita pelo empregador – caso seja uma comunicação sem aviso-prévio. Aproximadamente três dias após o cadastro no site, eu recebi em casa uma carta com um pin para ativação do meu cadastro no sistema, com um número de registro do processo e com o telefone de contato para caso de dúvidas. Entrei no sistema em que havia feito meu cadastro, digitei o pin e ativei o cadastro; após mais alguns dias, recebi meu nome de usuária e, em outra carta, a senha de uso inicial a ser alterada posteriormente (sim, para tudo na Alemanha existe uma carta).

Após concluída essa etapa, finalizei meu cadastro online, anexando os documentos solicitados (sendo esta parte opcional de ser feita online) e preenchendo o formulário indicado. Um dia após o término oficial do contrato, ou seja, primeiro dia oficialmente desempregada, fui pessoalmente até a agência, preenchi mais um formulário e logo fui chamada para uma entrevista pessoal. A colaboradora analisou o cadastro online que eu havia preenchido, verificou se as informações estavam completas, corretas e atualizadas (esse cadastro será utilizado pela agência para divulgar o perfil do candidato no mercado de trabalho) e me entregou o formulário para dar entrada oficialmente ao pedido do seguro-desemprego.

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Após preenchido o formulário online de solicitação do seguro-desemprego, recebi após alguns dias uma carta-convite para uma reunião com a colaboradora que estaria oficialmente responsável pelo meu processo de recolocação a partir de então. No dia e hora marcados, tive a reunião com a colaboradora que me questionou formação, o que eu buscava, quais meus interesses e de que forma a agência poderia me assistir no processo.

Como eu já possuía currículo e documentos específicos encaminhados em inglês, mas ainda relativa insegurança com o processo alemão, identificamos que um coach de recolocação voltado para o mercado alemão poderia ser uma vantagem no processo. Com isso, recebi um cupom para este serviço, com reembolso dos deslocamentos e de eventuais gastos e despesas com entrevistas. Ela me entregou a lista de profissionais que atuavam em parceria com a agência para eu escolher e me pediu que agendasse um horário para o primeiro acompanhamento.

Na metade do mês de novembro, aproximadamente 15 dias após o cadastro online concluído, recebi uma carta com a confirmação do direito ao seguro-desemprego e dos valores que seriam efetivamente pagos, bem como o cálculo explicativo para resultar no valor. Na semana seguinte à reunião com a colaboradora da agência, dei início ao coach, onde trabalhamos basicamente em como montar a cover letter (carta de apresentação) voltada para os anúncios e mercado alemães. No final do mês, corretamente recebi o depósito do valor do seguro-desemprego na minha conta.

O mercado alemão é realmente muito aquecido, a quantidade de vagas disponíveis é impressionante, porém, os processos são muito, mas muito demorados. Vagas que foram postadas em janeiro, muitas vezes terão posições preenchidas 4/5 meses depois. Como tudo, na Alemanha processos de seleção também são feitos com planejamento e tempo. O que é ótimo para as empresas, mas péssimo para os candidatos.

O processo de acompanhamento da agência foi excepcional. Era possível notar que é organizado para recolocar profissionais no mercado com vagas sendo enviadas por e-mail e correio (muitas cartas….) sempre. Além disso, a agência cobre despesas de deslocamento com viagens para entrevistas, com roupas se necessário, com coach, enfim. Apesar de o processo todo ter sido impressionante pela eficiência, no final de novembro optei por me candidatar a uma posição muito semelhante a que eu tinha, na mesma empresa, porém em Luxemburgo.

Em dezembro, assinei o contrato e comprei passagem para o Brasil em janeiro. Antes da viagem, fui à agência informar e verificar próximos passos, quando descobri que férias de mais de três semanas implicavam corte no seguro-desemprego (no meu caso, cinco dias de corte). Quando retornei à Alemanha, imediatamente retornei à agência para comunicar o retorno e reabilitar o seguro. Já aproveitei e fiz o cadastro confirmando a saída da cidade e a assinatura do contrato com início para março. Apesar de alguns pequenos contratempos, recebi os valores corretamente, inclusive o reembolso dos valores de trem para o coaching e, após quatro meses, pararam automaticamente os depósitos.

Em 14.02 éramos oficialmente residentes em Luxemburgo, de onde manterei a escrever textos para o blog a partir de agora. Até o próximo mês!

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12 comentários

Clarissa Gaiarsa Junho 4, 2018 at 3:49 pm

Oi Patrícia! Tudo bem? Muito interessante sua história e fico feliz que tenha um final positivo! Espero que esteja gostando da vida nova! Abraços de Berlim! 🙂

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Patrícia Souza Junho 9, 2018 at 1:06 pm

Olá Clarissa, obrigada pelo feedback. Sim, como tudo tem um motivo, a história está tendo um recomço feliz 😉

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Raniela Junho 4, 2018 at 9:36 pm

Patricia, muito legal seu relato! Como tudo na Alemanha parece ser burocratico mas altamente organizado.
Eu me candidatei a uma vaga aberta em Janeiro na Henkel alemã e, até agora, não foi preenchida. Estou aguardando.
Desejo tudo de bom a você em Luxemburgo! Bis bald!

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Patrícia Souza Junho 9, 2018 at 1:04 pm

olá Raniela, que bacana seu feedback. Sim, bastante burocrático, mas efetivo. Não se preocupe, os processos alemães também seguem o mesmo padrão de burocracia, podem levar meses. Boa sorte no seu processo e bis bald! Avise quando der um pulo em Luxemburgo 🙂

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Juliana Maio 4, 2019 at 5:57 pm

Oi Patrícia, seu relato está igual a minha vida nesse momento. 2 semanas trabalhando na empresa e fui demitida, então nem seguro desemprego eu tenho. Quero saber mais sobre o processo de visto, como trocar para job seeker e tudo mais, pois a minha antiga empresa não está sendo de ajuda alguma!
Qualquer dica que você puder dar, agradeço!

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Patrícia Souza Maio 7, 2019 at 8:51 pm

Olá Juliana, tudo bem? Imagino o que você esteja passando. Para mim foi uma situação super difícil, pois nunca havia sido demitida antes na vida, ainda mais em um país estranho e com a situação de visto – ainda mais estando na situação confortável que eu tinha antes. No meu caso, eu tinha o blue card, o que facilita bastante o tratamento junto às autoridades, mas o meu process foi bem simples: fui até às autoridades, comentei a situação e automaticamente ela marcou uma reunião comigo para dali a 3 meses, pois eu estava recebendo seguro-desemprego, além disso, por ter acesso a todos os benefícios, o governo também estava me auxiliando na procura de outra oportunidade. Meu conselho, no seu caso, vá imediatamente às autoridades e verifique o que pode ser feito. Eles muito provavelmente vão te perguntar se você tem como comprovar uma situação financeira que permita você se manter aí por algum período sem emprego – principalmente a questão da seguridade social. Boa sorte e torço para que tudo dê certo!! E não esmoreça, pois eu fiz mais de 10 entrevistas, distribuí muitos curriculos, e dependendo da sua área, realmente não é fácil. Abraço carinhoso

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Ana Junho 9, 2018 at 6:02 pm

Patrícia, que bom que você compartilhou este relato. Certamente ajudará outras pessoas que passarem por uma situação semelhante!

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Patrícia Souza Junho 10, 2018 at 8:43 pm

Obrigada pelo feedback, Ana. Foi essa a intenção, pois quando me vi na situação, não havia muita coisa!

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Luís Felipe Julho 19, 2018 at 4:09 am

Oi Patrícia, você trabalha na EY ajudando expatriados com questões tributárias ou em relação ao estabelecimento de negócios no país?

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Patrícia Souza Julho 19, 2018 at 2:33 pm

Olá Luis Felipe, eu trabalho com expatriados relativamente à pessoa física e, desde fevereiro, estou em Luxemburgo. De qualquer forma, se você precisar de algum suporte na Alemanha, posso falar com meus contatos por lá. Deixe-me saber. Abraço

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Maria de Fatima Reinartz Agosto 21, 2018 at 7:46 pm

Amo a forma como funciona essa sociedade!! É muito bom trabalhar com a certeza que temos todos direitos reconhecidos e o estado esta presente caso necessite!!! Beijos Patricia e boa sorte em Luxemburgo!!

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Patrícia Souza Agosto 21, 2018 at 8:21 pm

Obrigada, Maria de Fátima! Realmente temos muito a aprender com eles 😉

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