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Itália

Funeral na Itália

Neste mês que passou a minha vida virou uma loucura tão grande que 90% do meu tempo tenho vontade de deitar em posição fetal e chamar pela minha vó. Muito trabalho, mas muito mesmo e muita correria acompanhada de uma batalha louca para encontrar a casa certa para poder mudar e nessa correria fui a uma funeral na Itália e vou dividir a experiência.

E para ajudar a auto-estima cheguei na tão temida idade dos 30 anos. Cá estou no meio de um turbilhão de rotina e compromissos, me sentindo visita dentro da minha própria casa, comendo sentada nas estações de metrô, quase sem roupa limpa para vestir e a vida vem e papuft me da um tapão bem grande na cara dizendo: Pode correr, pode se descabelar, ganhar dinheiro e tudo mais mas não se esqueça que tudo um dia se acaba. E foi assim neste cenário que acabei recebendo a notícia de um falecimento na família.

No norte da Itália (bem diferente do centro/sul como não me canso de enfatizar) os núcleos familiares são bem pequenos. Nada de muitos irmão, tios, primos e afins. Na família que também chamo de minha o núcleo é bem pequeno, composto de 10 pessoas contando comigo como membro agregado. Então na morte de um ente dá para imaginar que sobra para todos. Aqui também não foi diferente e assim, hoje relato a minha experiência por dentro de um funeral no norte da Itália.

Primeiro de tudo um médico precisa vir atestar a morte antes de chegar a casa funerária para preparar o corpo. A família teve que esperar um dia inteiro para o bendito aparecer para assinar os papéis, enquanto o corpo repousava lindamente da mesma forma que estava em vida em cima do sofá. Após a chegada do médico a funerária pode vir retirar e preparar o corpo. Enquanto isto os membros da família estão já na correria, cancelando documentos, abrindo seguros, procurando um contador, o tabelião e tudo mais enquanto rezam para o banco não bloquear a conta bancária do morto antes de dar baixas nas contas a pagar. Não fiz parte de todos os processos então vou me abster de dar detalhes mais profundos da parte burocrática, peço apenas que imaginem muita burocracia e muita coisa para pagar e a vida do morto literalmente revirada de pernas para o ar.

O velório acontece apenas durante o dia, após as 19:30 a sala se fecha e os familiares devem ir para a casa e o corpo permanece sozinho até a manhã seguinte, na qual pode-se discorrer outras horas para o velório em casos mais dramáticos ou partir para a missa com o corpo presente e depois em seguida o enterro, como foi o caso.

A missa de corpo presente foi de uma tristeza e pesanteza absoluta e durou longas duas horas. Como o falecido era uma pessoa idosa o público presente também era e posso afirmar que a mais jovem era eu.

Em seguida seguiu-se para o enterro, e qual não foi a minha surpresa que muitos daqueles que estavam na missa simplesmente não seguiram no cortejo. Chegavam ao lado da viúva davam um abraço balbuciavam qualquer palavra e tchau, seguiam para a suas vidas. Posso afirmar que foi o enterro mais solitário que já vi, sem lágrimas. Apenas a família e olhe lá, pois entre os familiares muitos se recusaram a entrar no cemitério e olhe que o morto era uma boa e gentil pessoa. Mas a coisa que mais me espantou é que a viúva e todos ali presentes estavam bem tranquilos com esta tremenda falta de respeito e falta de educação com quem se foi, como se fosse algo completamente normal se recusar e deixar a pobre coitada sozinha.

Estou tão acostumada com aquele nosso cenário brasileiro e acolhedor que todos te envolvem com palavras de conforto que tudo me pareceu de uma frieza e indelicadeza total e absoluta. Como boa brasileira me neguei a fazer parte da insensibilidade geral e acompanhei a senhora até os últimos segundos.

O cemitério aparentemente era igual aos nossos; porém por uma questão de espaço as pessoas há muitos anos vem sendo enterrada nos subsolos. Descemos uma longa escada e ali uma cidade fantasma se abriu diante dos meus olhos. Colunas e colunas de paredes altíssimas como se fossem prédios de dois andares cheias de gavetas mortuárias repletas de velas artificiais acesas e fotos acompanhadas de nomes e datas.

Curiosamente vi fotos e datas de pessoas idosas, muito raríssimo encontrar falecidos que em vida eram jovens ou crianças, ou seja a expectativa de vida por estas bandas é muito alta e alguém que morre antes dos 60 é alguém muito, mas muito jovem! Mas no geral posso dizer que o lugar em disparada foi a coisa mais macabra que vi na vida.

O enterro acompanhou o tom frio e rotineiro, um elevador chegou e levantou o caixão, colocou na gaveta e em seguida com todos ali presentes um pedreiro fechou tudo em questão de minutos e pregou uma folha A4 com o nome do morto. As pouquíssimas pessoas ali presentes não derrubavam nenhuma lágrima e inclusive falavam sobre outros assuntos em tom de murmúrio.

Em 15 minutos estávamos livres para retornamos ao “andar” – literalmente, da vida normal no qual cada um foi para o seu canto e ponto final. Ninguém estava muito interessado na pobre coitada da viúva e inclusive estavam ali discutindo questões práticas e financeiras como se o que tivesse acontecido não fosse nada de importante e sim apenas mais uma chatisse que alguém ia ter que resolver.

Nos dias seguintes pude ver pela cidades cartazes que são bem comuns por aqui anunciando a morte e os agradecimentos dos familiares. Estes cartazes ficam dispostos por toda a cidade em murais da prefeitura e sempre são mudados e vira e mexe vejo as pessoas paradas lendo e se “atualizando” das mortes locais.

Se teve missa dos 7° dias ou qualquer coisa depois não fiquei sabendo, acredite, eles são muito reservados e não gostam de incomodar com problemas pessoais. Inclusive a pobre senhora ficou completamente abismada quando eu liguei para saber se ela estava precisando de algo e me ofereci para levar algo para ela comer. Na ligação eu não sabia quem estava mais chocada, ela por receber oferta de ajuda ou eu por ela estar espantada por receber este tipo de ligação.

O que posso dizer desta experiência? Calor humano é fundamental, amor também e que este nosso jeitinho brasileiro de dar afeto sempre não quero perder nunca!

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6 comentários

vera Maio 24, 2016 at 3:55 pm

Interessante sua experiencia, nao e o que a gente imagina dos italianos. No entanto, recentemente fui a um enterro aqui no Brasil que foi muito parecido. Tudo bem que a pessoa nao era local, mas ainda assim, foi desse jeito.
Na Inglaterra geralmente se vai para um pub ou para a casa da pessoa e tem buffet e bebida e muita risada relembrando fatos engracados do defunto etc.

Resposta
Bruna Roland Maio 27, 2016 at 7:43 pm

Olá Vera, obrigada por ler o texto!
Eu fico pensando na minha cara se eu fosse convidada para um buffet para relembrar fatos engraçados de um defunto! Realmente é um estilo bem diferente.

Resposta
adriana silva Maio 25, 2016 at 12:43 am

Esta eh uma visao muito brasileira do que voce presenciou.
A verdade eh que o enterro em si eh considerado como algo muito particular e privado da familia e, quem nao eh parente muito proximo, nao vai pois eh considerado intrusao. Nao eh insensatez. A parte celebratoria e de lembranca do morto eh a missa, que eh bem comprida.
A mesma coisa acontece em muitos outros paises, aqui nos EUA tambem, onde o “memorial service” eh aberto a todos e fica bem cheio mas o local do enterro nem eh comunicado, so para os familiares mais proximos. Ninguem aqui vai onde nao eh convidado. A ‘festa’ eh uma celebracao da vida da pessoa e uma oportunidade para que as pessoas lembrem bons momentos.

Resposta
Bruna Roland Maio 27, 2016 at 7:44 pm

Oi Adriana, boa noite! Pois é, mas ainda prefiro ficar com a minha visão brasileira.
Obrigada por ler o texto! Aqui no BPM temos sempre novidades, seja sempre bem vinda! 🙂 🙂 🙂

Resposta
Fred Salviato Março 23, 2018 at 3:04 pm

Boa tarde Bruna.
Me chamo Fred, moro no Brasil, e sou neto de italiano, meu avô era do Norte da Itália, província de Padova.
Gostei muito de você contar sua experiência.
Meu bisavô morreu na Itália no inicio do século 20, em 1907 na verdade…
Você sabe aonde eram enterrados as pessoas naquele tempo?

Grazie.

Resposta
Liliane Oliveira Março 24, 2018 at 3:14 pm

Olá Fred,
A Bruna Roland parou de colaborar conosco, mas temos outras colunistas na Itália que talvez possam te ajudar.
Você pode entrar em contato com elas deixando um comentário em um dos textos publicados mais recentemente no site.
Obrigada,
Edição BPM

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