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Hong Kong, 20 anos da reunificação com a China

Em julho de 2017 faz 20 anos da reunificação com a China, ou seja: que a soberania sobre Hong Kong foi transferida do Reino Unido para a China. Para entender o que isso significa, um breve contexto histórico: a China perdeu duas guerras do Ópio contra o Reino Unido (a primeira guerra do ópio começou em 1839). Por causa disso, foi obrigada a ceder para o país europeu a ilha de Hong Kong e Kowloon, a parte da península em frente à ela. Posteriormente, a região conhecida como “Novos Territórios” foi incorporada no acordo. Essas áreas ficavam na região do Cantão chinês e tinham importância por seu porto e posição estratégica. Pelo tratado pós-guerra, o Reino Unido assumia o controle de Hong Kong por 155 anos. Durante esse período, muita coisa aconteceu, inclusive a revolução cultural que tornou a China um país socialista.

Assim, em 1 de julho de 1997, Hong Kong foi “devolvida” (ou reunificada, como preferem os chineses) à China. No entanto, nas negociações entre o Reino Unido e a China, algumas condições foram estabelecidas. A principal é de que nos seguintes 50 anos após a reunificação- ou seja, até 2047- não haveria mudanças no sistema capitalista. Hong Kong também permaneceria possuindo um sistema judiciário próprio e as leis continuariam sendo as que foram criadas baseadas na Lei Inglesa. Foi dessa forma que Hong Kong, assim como Macau, tornou-se uma Região Administrativa Especial da China, sob o lema: um país, dois sistemas.

Isso significa que Hong Kong tem certa autonomia em relação ao governo chinês.

Além do sistema econômico não ser o mesmo, a moeda é diferente; chineses precisam de visto pra entrar em Hong Kong e residentes de Hong Kong para entrar na China; quando cruza-se a fronteira entre Hong Kong e China, há controle de imigração e o passaporte de Hong Kong é diferente do chinês (inclusive alguns países não exigem visto para portadores do passaporte de Hong Kong, mas sim para os de passaporte chinês). Há ainda liberdade de imprensa e internet sem bloqueio, ao contrário da censura em ambos setores praticada na China. O idioma oficial na China é o mandarim (ainda que coexistam várias línguas) e em Hong Kong é o cantonês e o inglês.

Diferenças culturais e políticas

Desde a reunificação, muitos chineses estão vindo para Hong Kong e especulo que o governo esteja até incentivando, numa tentativa de povoar o território com pessoas que amam a China e o “partido”. De maneira geral, os moradores de Hong Kong (que têm etnia chinesa), consideram os chineses mal educados ou menos “civilizados”. O preconceito e desprezo são visíveis aos olhos mais atentos. Na universidade os estudantes originários de Hong Kong não se misturam com os da China. Há leis que multam quem cospe no chão, por exemplo, prática comum na China. Se alguém atravessa a rua com sinal de pedestre vermelho, entra no metrô sem esperar os de dentro saírem ou algo do gênero, o pessoal diz: esses chineses… Já presenciei uma briga acalorada por uma questão de fila, que terminou com um grito: “volte para China!”

Além dessas questões culturais, a situação política também é tensa. Ainda que tenha assinado o acordo que dá autonomia a Hong Kong, o governo chinês vem fazendo algumas interferências que não são bem vistas. A revolução dos guarda-chuvas amarelos, em 2014, foram protestos contra uma tentativa chinesa de interferir nas eleições locais.

Recentemente, três legisladores eleitos por Hong Kong, quando foram assumir, mudaram as palavras do juramento, prometendo defender a nação de Hong Kong (ao invés da nação da China). Eles foram, então, detidos e impedidos de assumir, o que causou um rebuliço político.

A censura começa a aparecer discretamente por aqui e por ali. Dois exemplos que foram pouco noticiados e só sei devido a contatos pessoais: O Museu 4 de Junho, em Hong Kong, sobre o massacre da praça da Paz Celestial (assunto tabu e censurado na China), foi permanentemente fechado em julho de 2016.

Além disso, houve uma seleção de projetos artísticos para serem projetados na fachada de um arranha-céu em Hong Kong. O primeiro artista projetou então um relógio com contagem regressiva para 2047. Após essa primeira noite, todo o projeto foi cancelado porque isso foi considerado um ato de afronta e os donos do arranha-céu não queriam problemas com o governo.

Preocupações sobre o futuro

Conversei com alguns jovens de Hong Kong que estarão com cerca de 50 anos em 2047, e eles estão aterrorizados com a possibilidade Hong Kong passar totalmente ao sistema chinês. Eles não se imaginam perdendo liberdades e direitos, inclusive tendo o acesso à internet restrito. No entanto, se sentem impotentes, pois não desejam conflito armado e não sabem o que podem fazer em relação a essa situação.

Hong Zeng, uma chinesa que mora há dois anos e meio em Hong Kong, acredita que nos próximos 30 anos a China vai acelerar o controle sobre Hong Kong. Ela resume a situação: “Como chinesa em Hong Kong, tenho sentimentos paradoxais em relação a isto. Por um lado, gostaria que Hong Kong não mudasse. Por outro, ainda que eu não experimente as emoções das pessoas locais sobre seu futuro, receio que o desespero possa levá-las a um regionalismo radical que as faça negar suas raízes culturais chinesas”.

Em 1 de julho de 2017, o presidente chinês Xi Jiping pretende fazer sua primeira visita a Hong Kong desde que assumiu o poder em 2012, para presidir as cerimônias de comemoração dos 20 anos da reunificação. Os protestos também estão marcados por grupos pró-independência. No final de abril, 9 pessoas foram presas acusadas de organizar protestos pró-democracia a serem realizados durante a visita do presidente chinês. Preocupada com as manifestações, a polícia local está fazendo treinamentos e montando uma verdadeira operação de guerra para a ocasião.

Ninguém sabe o que vai acontecer em 2047. Será que os moradores de Hong Kong vão aceitar o domínio chinês e viver sem democracia, sem liberdade, sem Google? Será que haverá guerra pela independência? Será que a China vai manter o sistema capitalista em Hong Kong para evitar perder a cidade? Será que até lá os “infiltrados” chineses vão ser maioria? Mais, do jeito que as coisas estão no mundo, será que ainda vai existir China, planeta terra e humanidade em 2047? O tempo dirá.

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