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Johannes e eu: uma história de amor

Sobre o amor há controvérsias, uns dizem que acontece de repente, sem ao menos se esperar, algo repentino e avassalador que nos carrega como em um redemoinho. Outros, que surge com o tempo, com a convivência, com o cotidiano. Não sei. Comigo aconteceu assim… de surpresa. Num levantar de cabeça me deparei com aquele olhar… límpido e ao mesmo tempo misterioso. Cativante e distante. Me prendeu. Me envolveu. Depois a pele, o brilho, a luz…. fascinante. Paralisei. E foi assim que me apaixonei pela obra do pintor holandês Johannes Vermeer (lê-se Iôrrãnês Vérmir) e a obra que me arrebatou foi “Moça com brinco de pérola” ( “Meisje met de parel ”no original).

Misterioso Vermeer…Gênio…O Mestre da Luz (seus quadros têm uma luminosidade ímpar) cercou de sombras sua vida pessoal. Dentre as poucas certezas que se tem é que nasceu em outubro de 1632, na cidade de Delft e casou-se com Catharina Bolenes, uma burguesa, em 1653. Tiveram 15 filhos, dos quais 4 morreram ainda na infância. Presidiu por um tempo a guilda de pintores São Lucas e trabalhava como comerciante de arte, porém vendia suas telas somente para um número limitado de clientes . Mal conseguia manter a família, pois ganhava muito pouco. Aliás, pintou muitas vezes em troca de comida. Morreu em 1675 paupérrimo e sua viúva teve que vender seus quadros para obter uma modesta pensão. E aqui acabam as únicas informações claras que se tem sobre a vida do pintor. Vermeer não deixou anotações, cartas, diários, nem mesmo desenhos rascunhados de seus quadros.

Então, quem foi o homem por trás do gênio? Um talento artístico fora do comum, uma vida de luta pela sobrevivência. Talvez o amor à arte deva ter falado mais alto que as necessidades do dia a dia. Nunca saberemos.  Entretanto, através de suas telas talvez consigamos vislumbrar um pouco de sua personalidade. Suas pinturas mostram um homem meticuloso nos detalhes, uma representação quase fotográfica da realidade e que conseguiu dar grandeza aos afazeres cotidianos. O tema de suas obras são de interiores com uma ou duas personagens e paisagens urbanas.

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Suas telas são luminosas. As cores (ahhh o azul..) parecem vivas  e o contraste de luz e sombra dá movimento e expressão às cenas.  Especialistas afirmam que tal plasticidade e efeitos óticos só poderiam ser obtidos através do uso da câmara obscura (uma precursora das máquinas fotográficas). O que parece ser uma possibilidade real, já que a Delft de então era um centro fervilhante de arte.

A captura dos sentimentos dos personagens em atividades tão prosaicas, supõe uma empatia natural de sua personalidade com os pequenos momentos que compõem uma vida. E um olhar inspirado e minucioso do dia a dia.

E quem eram as pessoas representadas em seus quadros? Mais mistérios e especulações. Quem era a “moça com  brinco de pérola”? Uma de suas filhas, como alguns pensam, ou a empregada da casa, como sugere o filme do mesmo nome do cineasta Peter Webber? Filme este, alias, cheio de sensibilidade e sutileza, de uma poesia única. Vermeer é primorosamente representado pelo ator Colin Firth, que consegue transmitir as possíveis emoções conflituosas, mas nem por isso destituídas de sensibilidade, que o homem real deve ter sentido. A escolha das cores, a concentração na obra e o chamado da realidade. Poéticas especulações sobre a vida obscura do Mestre da Luz.

Para entender sua obra e talvez um pouco de sua personalidade, é necessário voltar no tempo e tentar compreender a Holanda do século XVII, (a época de ouro do país) e todas as suas particularidades. É preciso lançar um olhar sobre a linda e vibrante Delft e a ligação intensa do pintor com sua cidade, também luminosamente representada em seus quadros.

Interessante é notar, que após sua morte, Vermeer foi esquecido por aproximadamente 200 anos até ser redescoberto em 1866, pelo historiador de arte Theóphile Thoré. E desde então, sua grandeza é reconhecida, ainda que  não se saiba exatamente o número de obras atribuídas a ele (algo em torno de 35 a 40 telas).

Em Delft é possível visitar o Vermeer Centrum Delft  que possui informações detalhadas sobre a obra do pintor e algumas sobre sua vida.

No Rijksmuseum em Amsterdam e na Mauritshuis em Den Haag pode-se conhecer algumas de suas obras. O restante está distribuído por museus em outros países e pelo menos duas em coleções particulares.

O livro “Moça com brinco de pérola” de Tracy Chevalier, inspirado na tela do mesmo nome, foi um dos mais sensíveis e delicados que já li e foi a base para o filme de Peter Weber mencionado anteriormente.

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Com os anos aprofundei o conhecimento sobre as obras de outros mestres holandeses da pintura mundialmente famosos e conheci outros, nem tão famosos, mas também impressionantes. Mas, minha admiração e amor pela obra de Johannes Vermeer continuou intacta.  Porque o amor é assim: constante.

Dedico este artigo à amiga Geana Leal que, como eu, é uma admiradora incondicional do pintor e quem generosamente me emprestou o livro de Tracy Chevalier.

Trailler do filme “Moça com brinco de pérola” .

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2 comentários

Gabriela Albuquerque Fevereiro 26, 2017 at 10:40 pm

Amei Cíntia! Também escrevo no BPM, da região de Washington DC, onde moro e fiquei sabendo que no próximo Fall a National Gallery daqui irá receber uma belíssima exposição dele que está em exibição no Louvre. Não posso perder e se vc tiver a chance dê um pulinho em Paris! 😉 ?

Resposta
Cintia Beatrice Fevereiro 27, 2017 at 1:29 pm

Ola Gabriela, muito obrigada. Acompanho seus textos, que aliÁs , gosto bastante. ☺️

Não perca mesmo a oportunidade da exposicao, vale a Peña ver de perto suas obras…

BJs

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