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Kerala: um pedacinho do paraíso na Índia

Kerala: um pedacinho do paraíso na Índia.

Kerala é conhecida como God’s own land, ou a própria terra de Deus. Antes mesmo de me mudar para a Índia, ouvi falar deste estado mais ao sul do subcontinente, através de um amigo que visitou o país e me comentou que, embora ele mesmo não tenha ido, este era o lugar para estar em terras indianas. Uma rápida busca no Google imagens me revelou uma terra selvática, cortada por deltas e casas-barco de junco, além de aveludadas montanhas cobertas de plantações de chá: um cenário de beleza quase surrealista.

Com poucos meses de mudança, eu já estava com as passagens para Kerala em mãos, sem saber muito o que esperar. Em Mumbai conheci diversas pessoas que vieram de Kerala. Me falavam com orgulho da particular culinária do estado, em que muitos pratos são feitos à base de coco. Minha resposta frisava que no Brasil também adotamos a fruta em nossos pratos costeiros, em especial, a moqueca.

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Minhas primeiras impressões ao abordar o táxi na capital em direção à praia de Varkala foi uma paisagem familiar: pensei em Goa, lugar que havia visitado poucos meses antes. Com o tempo fui entendendo que havia algo mais. As igrejas católicas estão lá como em Goa. Aqui também há grande influência portuguesa, afinal, foi um dos primeiros pontos de contato com comércio europeu. De fato, Vasco da Gama está enterrado em Kerala. A explosão de coqueiros, ademais, me faz pensar em Goa. Mas os homens keralites usam sarongue e a paisagem é interrompida com curiosos cartazes comunistas. Num outdoor sobre uma cooperativa de táxis, uma imagem de Fidel Castro. Che Guevara e Lenin também estão presentes. Há espaço inclusive para reivindicar a memória de Stalin. Foices e martelos estão por todo lado.

Quando lembramos que ao Norte, no Rajastão, ainda sobrevive em palácios, uma família real, o comunismo em Kerala acrescenta um ingrediente a mais na impressionante diversidade do país. O legado comunista inclui o maior índice de alfabetização da Índia, 95%, e indicadores sociais de países desenvolvidos. Nesse aspecto o comunismo keralite foi mais bem sucedido que aquele implementado em Calcutá.

Embora muito curiosa a experiência comunista de Kerala, não é o comunismo que atrai turistas ao estado, e sim, a ayurvédica, a tradicional medicina indiana. Kerala conserva a tradição da ayurvédica que por centenas de anos foi a principal forma de tratamento na região e hoje atrai turistas entusiasmados com os retiros que incluem massagens e dieta baseada nos princípios terapêuticos dos alimentos.

Na avenida sobre o penhasco que dá para a deslumbrante praia de Varkala, casas de massagem se multiplicam, turistas desfilam com suas calças saruel, restaurantes oferecem a autêntica comida tibetana e mantas de cashmere e pashminas são oferecidas a preços suspeitos. É possível comprar cerveja, afinal para tudo se dá um jeitinho. Como esta é uma região sagrada, o álcool não é lá muito bem visto. O truque é colocar a garrafa embaixo da mesa e entrar para a confraria semiclandestina dos apreciadores da cerveja na própria terra de Deus.

Os não consumidores da bebida fermentada se distinguem facilmente: ostentam corpos sarados na praia em poses impossíveis de yoga. No mar, surfistas de primeira, segunda e terceira viagem arriscam algumas manobras. Indianos mais ousados ultrapassam a arrebentação. Os estrangeiros relaxados depois da massagem flutuam nas amnióticas águas do Arábico. Os salva-vidas estão ali impondo o toque de recolher. Ao cair da tarde todos são convidados gentilmente a se retirar. A noite está apenas começando no Cliff, mas não irá durar muito. Todos ali, yoguis ou não, seguem as leis da yoga: restaurantes e bares fecham cedo. É preciso dormir para saudar o sol que nasce para todos a cada manhã.

Casa barco em Kerala. Fonte: pixabay.com

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Mas nem só de massagens, saudações ao sol, cervejas semiclandestinas vive Kerala. Uma escapada de até duas noites numa casa barco é uma das principais atrações turísticas que povoa as fantasias especialmente dos casais. Além dos pombinhos, o capitão e um cozinheiro particular viajam no barco pelos deltas de Kollam ou Allepey. A casa conta com um deck, cozinha, banheiro e quarto. A paisagem selvática impressiona. Num determinado momento, o barco atraca. É o momento de percorrer numa canoa os pequenos canais e conhecer um pouco o povoado, o que inclui tomar chai com os locais, e visitar uma pequena produção de óleo de coco.  Dali o capitão procura um lugar tranquilo para atracar a casa barco durante a noite. O pôr do sol alaranjado em contraste com a explosão verde dos coqueiros na beira do rio é dessas imagens que as câmeras, mesmo as mais profissionais não captam em sua total beleza. Poucas coisas são mais românticas que compartilhar essa memória.

Kerala é desses lugares que só existem e só poderiam existir mesmo na incrível Índia: a exuberante paisagem, do mar à água doce, é cenário para a prática da yoga, do surf e também para aqueles que se entregam às mãos e aos óleos mágicos de massagistas de fala mansa e toque firme. É ainda organismo vivo que se abre à contemplação silenciosa e à meditação. Homens de saia e camisa de alfaiataria se dedicam à pesca. Igrejas católicas, mesquitas e templos hinduístas não só coexistem, como despontam entre os coqueiros e o mar num estado comunista. Logo ali, nas estradas, outdoors com figuras de Che, Fidel e Lenin indicam que Kerala talvez seja um dos poucos lugares onde o comunismo ainda é sonho possível.

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