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Machismo e violência doméstica no México

Quando eu tinha 12 anos de idade, meu irmão era locutor de rádio e a cada dia 08 de março ele homenageava as mulheres!

Investigando, descobri que existem várias versões para o dia internacional da mulher. Tendo essa bagagem na mochila e a honra de ser celebrada como mulher todos os anos, quando mudei para o México foi aquele baque.

Chegou o dia 08 de março e ninguém festejou. Felicitei minhas amigas pelo seu dia e elas me perguntavam: “o que você está comemorando?”. Por aí comecei a entender como as mulheres são tratadas no México.

Como falar sobre este tema tão delicado sem ofender as partes literalmente? Talvez começar dizendo que as mulheres recebem salários mais baixos que os homens pelo mesmo trabalho, ou falar que em vários lugares, as mulheres ainda são submetidas ao assédio sexual como critério de contratação nos empregos? Ah, claro que isso não acontece em 100% dos lugares, porem é super comum.

Eu particularmente mudei minha maneira de me vestir aqui, porque não suporto os comentários nauseantes que escuto na rua se decido usar uma roupa ‘feminina’.  Ignoremos o dia da mulher, as cantadas, o assédio sexual e vamos para atos mais graves, como a violência doméstica. Relato os casos de três mulheres muito próximas a mim. Confesso que foi muito desafiante escrever esta coluna. O machismo no México é uma triste e vergonhosa realidade.

Relatos de vítimas de violência doméstica e machismo

Primeiro caso: “Anos atrás eu terminei um namoro. O cara ficou tão brabo porque eu estava terminando que me imobilizou pelo braço, e fui colocada de cara contra uma grade. Ele gritava que nenhuma mulher o largava, que era ele quem largava as mulheres. Eu pensei que ele ia quebrar meu braço. Foi incrível que outro homem que estava perto olhava tudo e não fazia nada. Quem me ajudou foi uma mulher, uma senhora que até hoje eu agradeço. Meu estado de choque e submissão me fizeram experimentar a frustração e o medo.”

Segundo caso: “Há treze anos, o pai do meu filho me bateu muito. Primeiro na cara, depois me derrubou no chão e me chutou. Eu o denunciei, mas ele é advogado e atua na linha da corrupção mexicana… Para o divórcio ele falsificou minha assinatura num documento dizendo que eu não queria pensão alimentícia porque eu era uma mulher independente economicamente. Reclamei com a juíza e ela me disse: não te convém fazer nada, arrume as coisas de boa”.

Terceiro caso: “Nós estávamos casados no civil fazia um ano, e eu tinha meu primeiro filho. No começo de dezembro foi minha cerimônia religiosa, e no dia de Natal eu ganhei a minha primeira surra. Em um dos golpes que recebi, bati as costas contra o trinco da porta e desmaiei. A família do meu esposo chegou na minha casa e me levou para a casa dos meus sogros com o meu filho. Meu sogro nos recebeu e saiu com a sua família, deixando-nos trancados dizendo: deixa ela aí trancada, para passar a raiva.

No dia seguinte eu queria ir para a casa da minha mãe, mas tive que ir antes almoçar na casa de uma tia do meu esposo. Quando chegamos ela me disse: ué, vocês me disseram que ela tinha apanhado, cadê o olho roxo que eu não estou vendo?… Na segunda vez que eu tentei sair de casa, meu sogro me disse: se você não voltar para casa agora comigo, esqueça que você voltará a ver seu filho.”

“-Ah, você está brabinha? Vem aqui que eu sei o que fazer para você se acalmar… Você é minha mulher e tem obrigação a cumprir como minha mulher. – Estas eram as frases que eu escutava antes que ele me obrigasse a ter relações sexuais à força com ele.
As agressões diminuíram de quatro anos para cá, quando meu terceiro filho, que tinha oito anos de idade, depois de ver uma discussão e cenas de violência, me abraçou chorando e disse: – Mãezinha, por favor, não permita mais que meu pai te faça sofrer.”

Perguntei à minha amiga o que a faz continuar nesta relação e ela me respondeu: “medo de perder meus filhos, pensar que não receberia apoio e, sobretudo, por conhecer as minhas obrigações e desconhecer os meus direitos como mulher, esposa e mãe.”

O México é um país onde a violência doméstica e desigualdade de gênero fazem parte de uma cultura machista, muitas vezes sustentada pelo consumo do álcool.

Quando foram institucionalizar o 8 de março em 1920 como Dia Internacional da Mulher, uma das reivindicações era o direito ao voto, e Clara Zetkin afirmava que “o direito ao voto não alteraria a condição feminina se a mulher não modificasse sua própria consciência.”
Praticamente um século depois me pergunto se nós, mulheres, conseguimos mudar nossa consciência em relação a quem somos, quais são os nossos direitos e ao que nos estamos submetendo.

Das minhas três amigas, uma delas conhecia em partes, e as outras duas não conheciam um recurso desenvolvido e chamado de violentometro. Apesar do espanhol ser parecido com o português, deixo aqui para vocês a tradução:

Tenha cuidado, a violência pode aumentar:

  1. Brincadeiras de mau gosto
  2. Chantagear
  3. Mentir/enganar
  4. Ignorar/dar gelo
  5. Ciúmes
  6. Culpar
  7. Desqualificar
  8. Ridicularizar/ofender
  9. Humilhar em público
  10. Intimidar/ameaçar

Reaja, não deixe que te destruam:

  1. Controlar/Proibir
  2. Destruir artigos pessoais
  3. Passar a mão
  4. Acariciar agressivamente
  5. Bater “sem querer ou brincando”
  6. Beliscar/arranhar
  7. Empurrar/ puxar

Você precisa de ajuda profissional:

  1. Bater na cara
  2. Ameaçar com objetos ou armas
  3. Ameaçar de morte
  4. Forcar a ter relação sexual
  5. Abusar sexualmente
  6. Estuprar
  7. Mutilar
  8. Assassinar

Queridas mulheres do mundo: abram seus lindos olhos ao mínimo sinal. Saiba que você não veio ao mundo para receber agressões, sejam elas físicas ou emocionais. Nenhum ser humano, nenhum ser vivo merece ser vítima de violência. Vocês estão acompanhadas!

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2 comentários

Vanessa Outubro 2, 2017 at 12:08 am

Oi Simone, sou brasileira, paulistana, estudava para o doutorado e trabalhava quando mudei para o México. Conheci um mexicano e terminei deixando tudo o que conhecia e que era familiar para ir atrás de um sonho. Terminei me casando com ele e morei nove anos na Cidade do México. Não são somente as mulheres mexicanas que sofrem a violência e também não são somente as mulheres que não têm ensino superior. Eu sofri muito na pele, não só privações econômicas, fome, mas também e principalmente a violência psicológica e moral, exceto a violência física posso dizer que todas as demais. É muito difícil, pois como é silenciosa e ocorre longe dos demais, é muito difícil você provar a verdade. Sei porque estou sofrendo com isso até agora, para provar o que falo, o que vivi e poder estar com meus filhos e protegê-los. Atualmente estou no Brasil, mas numa situação muito difícil tanto como a que vivi lá, com a diferença de que é meu país e aqui tenho família e amigos e lá estava sozinha, não tinha ninguém. Tenho fé em Deus de que tudo dará certo e poderei seguir aqui com eles, mas não é fácil. É realmente complicado e o machismo existe sim lá, mesmo aqueles homens que dizem não serem machistas e usam o discurso de que estou protegendo você e por isso tenho que estar com você todo o tempo, etc… O machismo termina sendo “incoberto”, “mascarado” mas que existe, existe; como aqui também, talvez um pouco menos, dependendo da região. O dia das mulheres, 8 de março, nunca vi ser comemorado. Nunca vi uma mulher ser parabenizada nesse dia, nem eu!
O machismo ocorre também nos escritórios, não apenas nas ruas. Os ônibus e metrôs têm áreas reservadas as mulheres, claro que dependendo do horários os homens também entram, não respeitam, mas nos horários de pico costuma ter policiais que não os deixam passar. O melhor é entrar nesses locais. Um pouco melhor.
As mulheres na Cidade do México não usam roupas decotadas, justas ou curtas como nós aqui e os comentários se você as usa muitas vezes são grosseiros e mal educados. Não é comum ver loiros(as), negros(as), nem asiáticos(as) assim quando os(as) vemos sabemos que são estrangeiros(as) e já vi muito preconceito contra eles(as). É triste, porque aqui também existe, mas como somos mais misturados, acho que aceitamos mais a mistura de cores e raças, inclusive religiões. Muito fumam maconha, além de cigarro e também acham “normal” ter amantes… Sem comentários… E quando não foram criados dentro de uma religião ou com algum preceito religioso é mais complicado ainda, principalmente se têm familiares que se dizem “liberais”, “psicólogos” e tentam resolver ou analisar você ao invés de verem suas próprias vidas e problemas.
Um conselho, nem todas as pessoas são iguais, nem todos os homens são iguais. Existem sim homens bons lá no México, como aqui (Brasil) e em qualquer país, assim como também existem homens sem caráter em qualquer país. O importante é você não confiar totalmente. Tenha sempre seus documentos com você, um dinheiro extra, escondido com você e telefones de emergência. Se você trabalhar, não deixe ele saber quanto você ganha, tenha seus pequenos segredos em relação a conta e dinheiro principalmente se você têm filhos. É uma proteção. E saiba se você poderá contar com alguém em uma emergência. É melhor se prevenir, principalmente se você não conhece muito a pessoa, e por conhecer muito não me refiro somente a tempo, anos, me refiro a “comer muito sal junto”, como dizia minha avó, ou seja, passar muito problemas (inclusive financeiros) juntos e ver como ele se comporta, ou se vocês tiverem um filho com alguma deficiência, enfim, as atitudes e comportamentos dele demonstrarão como ele é. E existe outra coisa, depois dos filhos, as mulheres e os homens mudam. Nunca será igual. É necessário atenção também com o relacionamento…
E aquilo de que a maneira como ele trata a mãe dele é como ele vai tratar você, cuidado. No México não é muito assim. Já soube de muitos homens que tiravam ou não davam as suas esposas para dar as suas mães!
O México é um país lindo, tem uma cultura muito interessante, mas vale a pena ter cuidado. Como em qualquer país que você vá. Não confiar em ninguém totalmente, mas também não desconfiar de todos. Não se pode viver assim e não percam as oportunidades. A vida é maravilhosa, confie em Deus e em você.

Resposta
Simone Gonçalves Março 9, 2018 at 3:24 pm

Oi Vanessa! Sinto muito pelos problemas que você passou. Porem estou feliz por você estar no Brasil. E você está coberta de razão! Seu comentário é verdadeiro e forte, porém a verdade as vezes para alguns doi não é mesmo? Doa a quem doer a verdade tem que ser dita! As mulheres de qualquer lugar do mundo devem saber que não necessitam de violência para viver! Seja ela fisica, ou emocional!

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