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Voltando para o Brasil – Parte 2

Voltando para o Brasil.

Como escrevi no texto do mês passado, esses meses são textos de despedidas do BPM. Estou voltando pra casa, mas deixo aqui um pouco de tudo que vivi no México. Como o texto ficou grande, tive que dividi-lo em duas partes, a primeira você pode ler aqui.  Continuo com as minhas lembranças, abaixo.

Nos hospitais do México, vi pacientes chegando com a pressão e diabetes descompensada, mães chorando me mostrando fotos de seus filhos perguntando se eu os tinha visto dentro do hospital ou em algum lugar. Vi muitos soldados feridos chegando a urgências muito machucados pelo confronto com os narcos. Vi soldados chorando de tristeza, e outros prometendo vingança. Vi meu chefe de serviço ter que mudar de país injustamente para proteger sua família, e vi a família completa da minha amiga ser sequestrada por quase 24 horas. Graças a quem seja ao que devo agradecer, os narcos devolveram a família da minha amiga, alegando que “foi um erro”.

Em dezembro de 2012 senti que daria adeus a vida, quando os narcos entraram no hospital procurando uma paciente, e acabaram encontrando a sua irmã, a qual foi morta com tiro a queima roupa na cabeça, ela foi levada para a área que eu trabalhava, e pensei que iriam terminar de mata-la, e se isso acontecesse, provavelmente seríamos também vítimas. Outra vez, foi hora de agradecer, chegaram desta vez, o Exército e a Marinha no hospital.

E  com tanta violência, decidi que terminando o mestrado eu voltaria para o Brasil. Porém,  me ligaram da Cidade do México para fazer uma entrevista para a Coordenação de Transplantes de um hospital privado. Fiz a entrevista e fui contratada. Tive duas semanas para encaixotar tudo, contratar uma mudança que cobrou pelo serviço o que nunca realizou. Como tinha que entregar a casa de Tamaulipas, uma amiga minha levou os móveis e foi vendendo pouco a pouco.

Leia também: Brasil – Voltar

Como já disse anteriormente, a nossa meta nos impede de ver o tamanho da montanha a ser escalada. Nova cidade, novos amigos, nova família, novo hospital, novos problemas. Mesmo inferno com diabos diferentes. Cansei de chegar à área de UTI e escutar do chefe de área: “doutorazinha, o que você vem fazer aqui?” Porque óbvio, uma mulher estrangeira e nova, não teria capacidade para fazer alguma coisa. Até que um dia, minha paciência esgotou e respondi: “a mesma coisa que você, trabalhar, cacete”. Santo remédio.

Neste hospital era uma eterna briga de Titãs, parafraseando a um diretor de área. Disputa de poder e de interesses pessoais eram constantes, principalmente entre os sócios fundadores, alguns deles tinham uma visão humana da medicina. Afortunadamente meu maior contato era com a parte humana. Como todos tem limite de paciência e uma sabedoria incrível, essa sociedade se desfez, para surpresa de muitos.

Então a perseguição contra a minha área de trabalho foi constante por um ano e meio. Trocaram a direção de transplantes e colocaram uma médica, que de humana acho que só tinha o corpo, e olhe lá. Cada vez mais era óbvio que eu não me encaixava na política com visão econômica do hospital, até que chegou o dia que o diretor médico me disse: “Simone, essa é a pior conversa que eu tenho com um funcionário, mas não posso mais permitir que as coisas continuem assim. Não existe maneira de misturar a água, com o azeite, e sou obrigado a te dar as contas, para o teu próprio bem”.

Agradeci a conversa, e tudo o que é ruim pode ficar pior. Entregar a área que eu era coordenadora, foi a coisa mais desgastante e humilhante que eu passei no México. De uma entrega que estava programada para serem três horas, duraram quatro dias, tendo que explicar perguntas completamente ignorantes vinda da nova direção de transplantes, até escutar que eu não passava de uma “médica geral” porque na cabeça da nova chefe de transplantes, uma especialidade tem maior valor curricular que um mestrado e um doutorado.

Tudo isso terminou com a minha secretária também sendo despedida, porque era simplesmente isso: minha secretária, “e não tinha vaga para ela dentro do hospital”. Isso me deixou muito revoltada, até quando ela me disse: “doutora, eu ia pedir a conta, porque eu não trabalharei para este tipo de gente, jamais.” Então depois de tanto boicote vi o que realmente significa fidelidade.

Durante este tempo no hospital continuei com meu vicio sem tratamento: estudar. Terminei o doutorado em tanatologia, me certifiquei como Palhaça de Hospital, o que fez com eu conseguisse ressignificar a medicina. E é uma das coisas que eu descobri que mais amo na vida: servir ao próximo, nem que seja com um sorriso, um aperto de mão, um abraço ou enxugar as lágrimas quanto não tem mais o que fazer, a não ser acompanhar.

Eu nunca entendi o que significava ter medo, inveja, machismo, preconceito até morar no México.

Ir de férias e escutar da família e amigos: quando você volta? Era sempre o cotidiano das férias. Mas tinha alguém, um amigo ancião, que eu amava como meu pai, que quando eu vim para o México ele me prometeu: eu vou te visitar. E cumpriu. Todas as vezes que a gente se encontrava ele me dizia: volta logo, vem ficar mais perto da gente. Até que em dezembro do ano passado essa linda voz, acompanhada daquele olhar da cor do mar de Cancun se calou, e me fez entender que por agora, que é hora de voltar. Esse talvez seja o preço de ganhar o mundo. “Para sempre” é muito tempo, e é hora de voltar. Voltar para ficar até que a vida mude todas as perguntas outra vez, e me faça buscar outras respostas.

Retomando o tema México, óbvio que nem tudo no País são más experiências, por isso te convido a ler a próxima coluna, porque apesar dos pesares México continua sendo e sempre “mi México lindo y querido”. O México me deu muitas coisas, entre elas meu amor maior.

Estamos indo de volta para casa, Sufi e Tara irão comigo! Essa será mais uma nova aventura.

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