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Malásia

Malásia – Trabalho voluntário com refugiados do Myanmar

Vou falar sobre minha experiência trabalhando como voluntária e dividir com vocês algumas informações e curiosidades que ate então também não sabia que existiam aqui em Kuala Lumpur.

Como não estou trabalhando, resolvi procurar algo de útil para fazer e nessa procura acabei conhecendo uma escola para crianças e adolescentes refugiados do Myanmar (antigo Burma), país bem próximo a Malásia e que faz fronteira com a Tailândia, Laos e Índia, que por muitos anos esteve sob um regime politico e econômico muito ruim. O país sofreu um regime opressivo desde a década de 60, considerada a mais longa ditadura militar e que o isolou do resto do mundo, onde os vistos de turismo eram limitados para 24 h e a entrada de publicações no país era controlada. A ditadura começou há 49 anos, quando os militares isolaram o país e lançaram o que chamaram de ‘um caminho próprio rumo ao socialismo’, e só terminou em 2011. No fim de 2010 ocorreu a primeira eleição aberta após a ditadura. Sucederam-se golpes dentro do golpe, destruindo sua economia que, apesar de pequena, era capaz de colocar o país entre os maiores exportadores de arroz do mundo. Fora da África, atualmente é o recordista de pobreza. Além disso, estava frequentemente em guerras religiosas. Com tudo isso muitas famílias fugiram e vieram para a Malásia, país que recebe diversos outros refugiados vindos da Somália, Síria, Iraque, Paquistão, Irã, entre outros.

Myanmar é o país com o maior número de refugiados na Malásia, com cerca de 150 mil pessoas. Como a Malásia é um país que vive em harmonia com diversas religiões – principalmente em Kuala Lumpur – e geograficamente está perto de muitos outros países, é um ponto estratégico para refugiados da África e Ásia, e de certa forma de fácil acesso em questões de visto. Para entrar na Malásia não precisa de visto e você pode ficar até 3 meses por aqui, então entrar não é um problema. Assim, muçulmanos da Somália, católicos e budistas de Myanmar, entre outros, acabam vindo para Kuala Lumpur.

Todos esses refugiados vivem como imigrantes ilegais, ou seja, correndo o risco de serem deportados ou presos. A Malásia não tem nenhum programa oficial de ajuda a refugiados e muitos estão na fila para receber asilo político. Cerca de 70% do refugiados são homens e 30% são mulheres, e crianças abaixo dos 18 anos somam até 32 mil, isso só de Myanmar. O país ainda é considerado uma das piores economias do mundo e onde atualmente continuam a ocorrer conflitos religiosos, o que faz com que os refugiados não queiram voltar.

As crianças que estão aqui só conseguem estudar com ajuda de organizações não governamentais e de voluntários. Muitas delas estão sem os pais e ficam sob o cuidados de famílias “adotivas”. Para saber um pouco mais sobre a situação dos refugiados na Malásia, clique aqui.

Sobre as escolas que ajudam as crianças refugiadas na Malásia

Uma dessas escolas se chama Kachin Refugee School Bukit Bintang. Kachin é nome do estado de Myanmar e Bukit Bintang é o bairro de KL onde ela se localiza. A escola ocupa o segundo andar de uma igreja batista e é tocada por voluntários de Myanmar e também com a ajuda de estrangeiros que moram aqui. Para arrecadar recursos, a escola promove eventos como feiras de artesanato e comidas típicas, e também apresentação das crianças. Lá as crianças aprendem um pouco das principais matérias escolares como Matemática, Ciências, Inglês, Estudos Sociais, Música e Catolicismo, além dos conhecimentos gerais que os estrangeiros levam para eles. Utilizam livros de ensino básico, têm material escolar (cadernos e lápis) e fazem algumas das refeições na escola. A escola segue o calendário escolar local e fecha nos principais feriados católicos, já que funciona dentro duma igreja batista.

Como essas crianças tiveram pouco ou nada de estudo em seu país, qualquer informação é válida e elas têm muita vontade de aprender. Muitas não entendem inglês, então sempre tem algum voluntário local que ajuda na comunicação.

Conheci essa escola através de outra esposa de expatriado que está em Kuala Lumpur acompanhando o marido e que já estava ajudando na escola e me convidou. Como sou veterinária de formação, comecei dando aula de ciências e está sendo muito legal. Dou aula para crianças de 10 a 14 anos e também para uma turma de jovens de 17 a 18 anos que começaram há menos de 1 ano na escola e estavam precisando de professores. Nunca tinha feito trabalho voluntário no Brasil. Acho que quando estamos nas nossas vidas corridas acabamos não dando importância para essas atividades extras. Essa experiência me mostrou como somos privilegiados em poder ter tanto acesso a informação e educação. A maioria das crianças que lá estudam nunca saíram de suas cidades antes e claro, não fazem a mínima ideia de onde fica o Brasil no mapa. Aliás, elas não sabem quase nada e tudo que falamos e mostramos é novidade. Sobre o Brasil, a maioria sabe sobre a última copa do mundo, mas não conhecem muito mais que isso, até porque os que têm idade para saber, passaram a maior parte da vida sem informações a respeito do resto do mundo. Apesar de estarem fora de casa e passando por essa situação, os refugiados estão sempre dispostos e com sorriso no rosto. A maioria veio de navio/barco ou como um aluno me disse, de trem ate a Tailândia e de lá, num caminhão com muitas outras pessoas, no estilo dos” boias frias”. A escola não tem site, então para se comunicar com eles é através do e-mail: [email protected] ou indo lá e falando com Ms Sam.

Kachin Classroom (foto: arquivo pessoal)
Crianças durante aula (foto: arquivo pessoal)

A situação de Myanmar atualmente é ainda ruim, porém estão tentando caminhar para uma democracia: em 2011 a principal opositora ao governo militar, Aung San Suu Kyi, conquistou um lugar no parlamento, junto com mais 11 de seu partido. Desde então lutam para conseguir que a líder entre para a próxima eleição para presidente, marcada para ocorrer em novembro de 2015.

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9 comentários

Omara Damasceno Maio 17, 2015 at 1:22 pm

Párabes Fernanda!Trabalho lindo esse!

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Vitor Maio 18, 2015 at 1:45 pm

show! parabens!

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Gisele Maio 19, 2015 at 3:20 pm

Que legal Fernanda! Muito interessante esse trabalho que vocês fazem. Não sabia que havia tantos refugiados em KL. Parabéns!

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Fernanda Froimtchuk Maio 24, 2015 at 12:15 pm

Obrigada!!

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sandra marengo Maio 19, 2015 at 3:58 pm

Parabens Fernanda, linda iniciativa!! no trabalho voluntário sempre quem acaba ganhando somos nós, não é mesmo? bjs

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Fernanda Froimtchuk Maio 24, 2015 at 12:14 pm

Com certeza! Obrigada!

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Danielle Maio 19, 2015 at 4:25 pm

Bom proveito do tempo,e sempre admirei essa igreja a batista. Parabéns.

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Fernanda Froimtchuk Maio 24, 2015 at 12:14 pm

Obrigada!!

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Daniel Setembro 21, 2017 at 6:31 pm

A escola ainda existem? Eles aceitam voluntarios por um curto periodo de tempo (cerca de 2 semanas)?
Eu e minha esposa estamos indo viajar pelo sudeste asiatico no inicio de ano que vem (entre janeiro e março).
Fazer trabalhos voluntarios esta em nossos planos.

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