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Mercado de trabalho para as mulheres depois dos 40 anos na Suécia

Mercado de trabalho para as mulheres depois dos 40 anos na Suécia.

Estava conversando com a minha irmã mais nova dias atrás e ela me lembrando do seu aniversário de 40 anos que está chegando. Conversa vai, conversa vem, ela se mostrou um tanto preocupada com o fato de estar justamente fazendo 40 anos. Quando perguntei o motivo ela me lembrou que as portas do mercado de trabalho para mulheres acima dos 40 no Brasil são quase sempre fechadas.

Depois que nos despedimos uma da outra, me peguei refletindo sobre esta realidade, que eu diria atinge a maioria das mulheres brasileiras. Realidade esta que é longe de ser a realidade das mulheres acima de 40 anos aqui na Suécia. Realidade que eu não precisei vivenciar, já que quando me mudei para Suécia eu tinha apenas 27 anos. No olhar do mercado de trabalho brasileiro eu estava ficando velha e desinteressante para o empregador; no olhar do mercado de trabalho sueco eu, aos 27 anos, estava dando os meus primeiros passos.

Depois de três anos na Suécia eu voltei para os bancos da universidade. O ano era 2003. Tinha quase 30 anos e me achava velha. Me surpreendi em constatar que a maioria das minhas colegas de faculdade já passavam dos 30 anos, muitas com filhos e família formada, uma diferença muito grande se comparado ao Brasil. Eu, por exemplo, tinha me formado no Brasil em jornalismo com 21 anos de idade. Mais surpresa fiquei quando constatei que em terras escandinavas não é exceção que as pessoas consigam seu primeiro emprego com carteira registrada justamente depois dos 30 anos. O que isso na prática significa é que as pessoas estão no auge da sua carreira quando chegam aos 40 anos. E ninguém fala em aposentadoria aos 50.

Costumo brincar com amigos e colegas de trabalho que a vida profissional na Suécia se começa mais ou menos aos 40 anos. E esta brincadeira tem um fundo de verdade. Eu abri meu consultório com 40 anos. Em 16 anos de Suécia, jamais me deparei com alguém, seja homem ou mulher, com preocupação de não conseguir um emprego novo por ter passado dos 40 anos. Esta preocupação se torna atual quando as pessoas estão chegando aos 60-65 anos, sabem por quê? Porque pela lei você pode se aposentar aos 65 anos. Repararam que eu escrevi “podem” e não “devem”? Sim, tem o time dos que preferem trabalhar até os 68-70 anos.

Mas talvez você, leitora, esteja pensando que este cenário é privilégio dos homens que vivem por aqui. Como já abordei em quase todos os meus artigos anteriores, a Suécia é um país feminista, onde a igualdade de direitos entre homens e mulheres, especialmente no que se refere ao mercado de trabalho, é levada a ferro e fogo. O que significa que não empregar uma mulher por ela estar acima dos 40 anos é algo que simplesmente não existe e que não se passa pela cabeça de qualquer empregador por aqui. Uma atitude como esta seria considerada discriminação, e discriminação contra a mulher é algo que o sueco vem tentando banir desde os anos 60.

E os próprios políticos tentam dar o exemplo. Entre os principais partidos políticos suecos, alguns têm como presidente do partido mulheres acima dos 40 anos. Em muitas empresas suecas, como por exemplo bancos e universidades, as mulheres estão na presidência e elas são obviamente mulheres acima dos 40 anos. A princesa Victoria, herdeira do trono real completa 40 anos este mês e só agora começa a se cogitar a possibilidade de ela substituir seu pai, o rei Carl Gustaf.

Há tempos se discute por aqui a lei do kvotering onde o empregador seria obrigado a ter o mesmo número de mulheres quanto de homens em cargos de chefia em empresas de grande porte, como por exemplos bancos, estatais e bolsas de valores. Quem não cumprisse a lei ficaria sujeito a pagar uma multa de 40%. O plano era que esta lei entrasse em vigor durante 2017, mas ela ainda não foi aprovada pelo parlamento sueco e está em discussão entre os partidos políticos. E claro, é uma ferramenta para se ganhar votos nas próximas eleições.

Enquanto a lei não é aprovada no parlamento, a sociedade e as empresas se empenham na conscientização da igualdade entre homens e mulheres. Posso dar como exemplo os classificados de emprego, onde o empregador muitas vezes faz questão de enfatizar que pensando na igualdade entre os sexos eles apreciam que a tal vaga seja preenchida por uma mulher. Mas se a empresa é representada por uma maioridade de mulheres, a vaga então é oferecida a alguém do sexo masculino. Então, na verdade, no que se refere ao mercado de trabalho sueco a questão relevante não é a sua idade ou se você e do sexo masculino ou feminino. O que o empregador vai levar em conta é sua experiência, e se formos pensar de forma lógica um profissional acima dos 40 anos que está ativo no mercado de trabalho tem, no geral, mais experiência do que um de 25 anos.

Leia também: dicas para arrumar emprego na Suécia

Outro debate atual por aqui é a questão da igualdade entre salários. Mesmo a Suécia tendo o feminismo como bíblia, a desigualdade entre salários ainda se faz presente por aqui. Em algumas profissões o homem ainda ganha mais do que a mulher. O que é o tendão de Aquiles de todos os feministas por aqui. Mas se a Suécia continuar lutando pelos direitos das mulheres com empenho como vem fazendo desde os anos 60, a questão salarial logo será coisa do passado.

Se comparado ao nosso amado Brasil, vejo que a mulher na Suécia – e nesta reflexão incluo nós mulheres imigrantes – tem no geral apoio da sociedade e do Estado para tomar as rédeas de sua vida profissional, já que a idade não é um fantasma que está ali na esquina te lembrando que você não tem valor porque apareceram seus primeiros cabelos brancos ou aquela ruga no canto do olho esquerdo, ou porque você acabou de ter um filho. O que sempre vai contar é a sua experiência profissional.

É claro que nós, mulheres imigrantes, nos deparamos com outros tipos de
problemas quando estamos procurando por um lugar ao sol no mercado de trabalho sueco, e isso é algo que vou escrever no próximo post, mas a idade, não, a idade nunca vai ser a pedra no seu sapato.

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5 comentários

Blanca Agosto 18, 2017 at 4:44 pm

Oi! Ótimo post!

Mas como assim só depois dos 30 a população tem emprego com carteira assinada? Antes disso eles não trabalham? Não se formam na faculdade? O que o pessoal aí faz entre os 18 e os 30 anos? Fiquei sem entender! kkkk

Beijinhos

Resposta
Blanca Agosto 18, 2017 at 4:44 pm

Oi! Ótimo post! =)

Mas como assim só depois dos 30 a população tem emprego com carteira assinada? Antes disso eles não trabalham? Não se formam na faculdade? O que o pessoal aí faz entre os 18 e os 30 anos? Fiquei sem entender! kkkk

Beijinhos

Resposta
Verônica Ferreira Iwarson Agosto 19, 2017 at 1:00 pm

Oi Blanca, obrigada pela sua pergunta,
aqui na Suecia – principalmente nas cidades grandes – as pessoas não comecam na faculdade depois de terminar o colegial.. eles costumam tirar umas férias dos estudos e fazer outras coisas, por exemplo, viajar para o exterior e trabalhar com voluntariado. aqui se termina o colegial com 19-20 anos.. a faculdade, no geral, e coisa que se faz entre os 20-25 anos, mas claro, se tem excecoes. durante este tempo muitos trabalham para juntar uma grana legal para nao precisar pegar emprestimo do governo qdo resolverem fazer a faculdade. muitos trabalham como substitutos de alguem que esta de licenca, o que nao da o direito de ter a carteira assinada, como diriamos no Brasil. carteira assinada aqui significa que o empregador nao pode demitir o empregado, salvo algo muito grave. espero ter respondido sua pergunta. um abraco

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Cristiane Leme Agosto 21, 2017 at 8:51 pm

Adorei o texto, é bem parecido com o que vivemos na Dinamarca. Na minha equipe somos todas mulheres, onde a mais jovem tem 32 anos e a mais experiente tem 52. É ótimo poder saber que uma mulher tem o direito de envelhecer e continuar a ser valorizada por sua competência profissional e experiência!

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Verônica Ferreira Iwarson Agosto 26, 2017 at 3:30 pm

obrigada Cristiane, bom saber que a dinamarca e a Suecia andam de maos dadas para valorizar a mulher no mercado de trabalho.
um abraco

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