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Mestrado em Educação e Globalização na Finlândia

Quando comecei a contar aos amigos que iria morar na Finlândia para fazer mestrado na área de educação, eles respondiam de imediato com um sorriso no rosto e a frase, quase clichê, “o país com a melhor educação do mundo, parabéns”. Sim, de fato, a Finlândia é sempre lembrada como o país da revolução da educação e as pessoas sempre associam isso com meu mestrado. Via de regra, todos acreditam que estudar educação no paraíso de tal será um excelente negócio para minha vida profissional.

Mas como são as aulas de um mestrado? O que eu faço?

Primeiro, vale lembrar que meu mestrado é stricto sensu, ou seja, eu preciso desenvolver pesquisa e entregar uma tese ao me formar. No Brasil é comum o mestrado lato sensu, que são os cursos de especialização – e isso não me parece algo europeu.

O curso é integral, mas isso não significa que eu tenha aulas todos os dias o dia todo, mas que as aulas podem ser distribuídas entre segunda a sexta, das 8h às 16h – não há cursos no período noturno. Algumas semanas são mais cheias que outras e as aulas não ocorrem em horários regulares. O semestre é dividido em dois termos, assim, o fall term é dividido em setembro-outubro e novembro-dezembro, por exemplo.

Há cursos que podem começar em setembro e terminar já em outubro, enquanto outros podem começar só em meados de outubro e terminar em dezembro. Há ainda cursos que podem se estender por dois semestres e começarem em outubro e terminarem em março do ano seguinte.

Alguns cursos tem uma aula de 1h30 toda semana, outros têm duas aulas por semana e às vezes, há semanas que pulamos aquela aula. Além disso, é muito comum termos professores convidados e a aula pode mudar de dia e horário para se encaixar na agenda de determinado professor. Agora você deve estar pensando como eu consigo me organizar no meio desta “bagunça” de horários.

A universidade tem algumas plataformas, como o lukkari, que é um calendário online, mas eu uso mesmo o Aapo, um aplicativo que foi lançado no último semestre e, entre outras coisas, mostra minhas aulas da semana. Todo domingo eu checo o aplicativo para saber como será a semana.

 

O mestrado tem duração ideal de 2 anos ou 4 semestres e exige que cursemos 120 créditos, dos quais 30 são apenas para escrever a tese. Outros 50 créditos são para cursar o major, as matérias principais do curso, 25 são para o minor, que no caso é em Educação, mas podemos mudar – o que não é tão fácil, pois nem todos os minors oferecidos são em inglês. Como eu já tenho formação na área de Educação (sou licenciada em Letras e professora), eu gostaria de mudá-lo, mas infelizmente, o minor que me interessei é ministrado apenas em finlandês! Finalmente, 5 créditos são para cursos de língua (como finlandês) e 10 para disciplinas eletivas.

As aulas se parecem muito com minhas aulas do curso de Letras da USP: normalmente temos algum artigo para ler (o artigo ou é previamente enviado por e-mail pelo professor ou recebemos a cópia em papel – nunca precisamos tirar cópia de nada) e há uma discussão sobre o tema, assim, professores e alunos juntos constroem conhecimento e discutem ideias, afinal, nem sempre há uma resposta certa para tudo.

A maioria dos meus colegas de classe parecem surpresos com este formato de aula, já que estão acostumados com o tipo de aula que o professor fala e o aluno ouve, mas eu realmente não vejo muita diferença entre as aulas do mestrado e minhas aulas do bacharelado, apesar de aqui haver muito mais discussão. Temos aulas mais técnicas também para ajudar na elaboração da tese, como Pesquisa Qualitativa e Pesquisa Quantitativa.

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Sendo assim, no primeiro semestre de mestrado, temos muitas aulas e pouco focamos em nossa tese. Na verdade, no fim do primeiro semestre é que conversamos sobre ela com a coordenação do curso e um orientador é indicado. Nos dois semestres seguintes ainda precisamos dividir o tempo entre as aulas e a elaboração da tese e apenas no quarto e último semestre, se tudo der certo, que nos dedicamos integralmente à tese. Por conta disso, alguns mestrandos decidem voltar a seu país de origem e terminar a tese de lá, fazendo reuniões com seus orientadores via Skype. Não temos uma “defesa” de tese, então não é necessário estar na Finlândia quando entregá-la.

O sistema de notas é de 0 a 5 ou aprovado/reprovado. No primeiro, qualquer nota de que se tire a partir de 1, o aluno é aprovado e no segundo, se fizer tudo que foi solicitado, o aluno é aprovado, mas não há uma nota. Outra curiosidade é que se o aluno não estiver satisfeito com sua nota final, pode refazer o trabalho/prova até duas vezes.

De modo geral, as coisas me parecem mais flexíveis por aqui – prazos finais de entrega de trabalho podem ser negociados, se necessário, alunos que precisem fazer estágio durante o semestre podem terminar o curso depois, e ainda é possível fazer intercâmbio!

Apesar de se pregar a revolução da educação finlandesa, o sistema obviamente não é perfeito e os próprios finlandeses são muito críticos tanto para aceitar o título quanto para avaliar seu próprio sistema. Contudo, é sempre um aprendizado morar e estudar fora e a bagagem cultural e de conhecimento que este mestrado está me proporcionando é sem dúvida inquestionável.

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6 comentários

Adriana Alves Abril 21, 2016 at 5:35 am

Beatriz Boa tarde. Gostei do seu post. Tenho muito interesse em conhecer melhor o sistema de educação da Finlândia. Qual Universidade você escolheu para cursar o mestrado? Existem programas de bolsas de estudo? Sobre a revalidação do diploma no Brasil você pesquisou possíveis universidades que realizam o processo?

Obrigada

Resposta
Beatriz Guedes Abril 21, 2016 at 7:50 am

Oi, Adriana.
Eu faço mestrado na Universidade de Oulu, no norte do país.
2016 é o último ano que o ensino universitário será gratuito para estudantes não-europeus e a partir de 2017, será cobrada uma taxa anual. Os valores ainda não foram decididos nem as bolsas, então ninguém tem essa informação ainda. Até 2016 não havia nenhuma bolsa justamente por o ensino ser gratuito.
A revalidação do diploma depende da sua área e normalmente é feito em qualquer universidade pública do Brasil. Valores e procedimentos variam de acordo com sua área e o currículo do curso no exterior.

Resposta
Adriana Alves Julho 3, 2016 at 3:28 am

Obrigada pela resposta. Você sabe me dizer se em agosto desse ano terá algum evento na área de educação? Congresso ou seminário? Estou com dificuldades de encontrar essas informações.
Gostaria de ir para ao menos realizar algum curso de verão ou evento acadêmico.
Poderia me indicar ou na ajudar com isso?
Obrigada

Resposta
Beatriz Guedes Julho 7, 2016 at 1:05 am

Adriana,
Posso falar apenas sobre a Universidade de Oulu e não há nenhum grande evento, seminário ou congresso que eu tenha conhecimento nos próximos meses. Talvez você possa entrar em contato com a Faculdade de Educação de Helsinki e checar se há algum evento programado ou cursos de verão.

Resposta
Bruno Romao Setembro 19, 2016 at 1:15 pm

Olá Beatriz.
Já faz algum tempo que conheço esse mestrado, e portanto, tenho interesse em fazê-lo, mas várias dúvidas acabam me “paralisando”. A sua publicação foi a mais completa a qual já tive acesso até hoje. No entanto, ainda restam algumas dúvidas. Vamos lá.
1- No seu texto é afirmado que não há defesa da tese. Você poderia explicar mais precisamente o que isso significa.
2- Aqui no mestrados do Brasil, segundo relatos das pessoas que conheço, há muitos seminários, o aluno lê um texto/artigo/livro e apresenta para a turma em forma de “palestra”, gostaria de saber se isso acontece muito também por aí.
3- Meu nível de fluência em inglês é alto, gostaria de saber a sua impressão quanto à fluência dos outros estudantes, e se isso é um problema para aqueles que não apresentam um nível tão alto.
4- Você poderia citar as formas de avaliação mais comuns ao fim de cada matéria?

Obrigado pela atenção. Sorte e força por aí.

Resposta
Bruno Romao Setembro 21, 2016 at 3:32 pm

Olá Beatriz.
Já faz algum tempo que conheço esse mestrado, e portanto, tenho interesse em fazê-lo, mas várias dúvidas acabam me “paralisando”. A sua publicação foi a mais completa a qual já tive acesso até hoje. No entanto, ainda restam algumas dúvidas. Vamos lá.
1- No seu texto é afirmado que não há defesa da tese. Você poderia explicar mais precisamente o que isso significa.
2- Aqui no mestrados do Brasil, segundo relatos das pessoas que conheço, há muitos seminários, o aluno lê um texto/artigo/livro e apresenta para a turma em forma de “palestra”, gostaria de saber se isso acontece muito também por aí.
3- Meu nível de fluência em inglês é alto, gostaria de saber a sua impressão quanto à fluência dos outros estudantes, e se isso é um problema para aqueles que não apresentam um nível tão alto.
4- Você poderia citar as formas de avaliação mais comuns ao fim de cada matéria?

Obrigado pela atenção. Parabéns pelo artigo e Sorte e Força por aí.

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