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Mindfulness na Índia

Mindfulness na Índia

Meu primeiro contato com o mindfulness ocorreu no Brasil, durante um congresso de terapia familiar, ocasião em que tomei conhecimento de tal técnica, sobre a qual, aliás, tive uma percepção muito positiva em vista do dinamismo e da assertividade da introspecção silenciosa proposta.

Recordo-me que, para abordar o assunto, o palestrante distribuiu à plateia uvas passas, orientando os participantes a brincar com a uva passa na boca, inicialmente, jogando-a de um lado ao outro; depois, fazer um pequeno furo e sugar a uva até onde conseguíssemos e, somente depois dessa etapa, finalmente engolirmos a uva passa. Descobri que se tratava de algo direcionado a treinar nossa atenção para nos mantermos centrados e focados em nossas sensações. A partir de então, meu interesse pelo assunto aumentou.

A definição de mindfulness é “atenção plena”, cuja premissa é olhar para nosso corpo, sentimentos e sensações do momento “aqui e agora”, sem julgamentos sobre certo ou errado ou bom ou ruim e, principalmente, estar atenta ao processo e não ao resultado. Sabe-se que muitas de nossas angústias e inquietações estão relacionadas ao sofrimento com situações passadas e aos medos do futuro, estando, consequentemente, pouco conectados ao presente; daí a importância dessa prática para desenvolver a concentração buscando estar totalmente com a “cabeça no presente”.

O mindfulness é uma técnica de meditação originada na filosofia e religião budista, que a considera como um dos caminhos para o nirvana __ estado de libertação ou de cessação do sofrimento atingido pelo ser humano ao percorrer sua busca espiritual.     Já o universo ocidental, por sua vez, valida cientificamente a prática do mindfulness para reduzir ansiedade, melhorar concentração e o desempenho profissional e aumentar a eficácia em dietas e tratamentos aditivos, conforme afirma pesquisa realizada pela Universidade de Harvard, liderada pela psicóloga Doutora Ellen Langer.

Morando na Índia e sendo psicóloga não poderia de deixar de aproveitar a singular oportunidade de vivenciar tal técnica dentro de suas origens e, para tanto, participei de um workshop intitulado “Mindfulness: The Neurosciencia of Leadership”, realizado na escola Sabedoria Antiga, uma espécie de “ashram”, ambientes naturais propícios à instrução espiritual e à meditação.

A condutora iniciou o curso ressaltando a sua satisfação de discorrer sobre Mindfulness a um público cujo foco principal foco não era religião e, sim, aprender sobre tal método. A turma estava composta por oito pessoas de áreas de atuações bem diferentes, entre os quais um piloto de avião, um empresário sul-africano, uma orientadora hindu e eu, como psicóloga, cuja diversidade de vivências e de conceitos culturais contribuiu para enriquecer nossa experiência nesse sentido.

Rachel Tardin

No decorrer do curso, teorias foram mescladas a atividades meditativas para que pudéssemos vivenciar a proposta como, por exemplo, foco aos movimentos das pernas ao caminhar, atenção aos sons que nos rodeavam e, principalmente, ao ritmo da respiração.

Na ocasião, também nos foram apresentados os passos diários para a prática do mindfulness e que facilmente podem ser incluídas no nosso dia a dia. Confira:

  • ao acordar, antes de se levantar, preste a atenção na respiração por alguns minutos;
  • fique atento à postura do seu corpo e aos primeiros movimentos do dia;
  • esteja conectado a qualquer som externo que funcione como um despertador, quando você realmente se sente acordado;
  • no decorrer do dia, pare por alguns minutos e preste atenção na sua respiração;
  • antes de iniciar qualquer refeição preste atenção na sua respiração. Fique   atento ao alimento que você está comendo e à importância desse ato para o seu organismo. Concentre sua atenção nos seus sentidos __ olfato, tato, paladar, visão e audição __ durante o consumo do alimento. Comer consciente significa prestar atenção a cada mordida, devagar, sendo seletivo na escolha da refeição;
  • preste atenção no seu corpo, seja enquanto caminha ou quando estiver parado;
  • preste atenção no que você fala ou escuta, em como sente sua emoção durante determinadas situações, o que o agrada e o que o desagrada, o que você compreende e o que não compreende, como seu corpo sente-se confortável ou desconfortável;
  • sempre que possível, use alguns minutos do seu tempo para prestar atenção na sua respiração e na sua postura;
  • pratique o mindfullnes a cada atividade, como escovar os dentes, pentear cabelos, tomar banho, colocar os sapatos e enquanto executa suas atividades profissionais;
  • antes de dormir, pratique o mindfulness prestando atenção na sua respiração durante cinco minutos.

Enfim, para a prática da técnica deve-se focar em pontos chaves como fechar os olhos, relaxar o corpo, escutar os sons em volta, sentir naturalmente a respiração saindo e entrando no corpo.

Apesar de serem ações simples, há certa “resistência inconsciente” em agregarmos novos hábitos no nosso cotidiano, principalmente num estilo de vida cosmopolita.

Contudo, para o ser humano, seu bem-estar é prioritário e, nesse contexto, o mindfulness ganha importância por se constituir numa “chave” que pode ser encontrada em nós mesmos para adotarmos um comportamento mais cuidadoso conosco.

Nada mais natural do que mindfulness ter surgido no território indiano, cuja sabedoria ancestral exalta a essência do ser humano com delicadeza e atenção, mesmo num ambiente que reúne tantas desigualdades e contradições sociais.

Viver na India é isso! A cada momento há uma oportunidade de aprender a aprender sobre a vida e sobre nós mesmos. Essa é a magia deste lugar.

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