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Minha chegada a Roma

Minha chegada a Roma.

Ah, Roma! Dizem que é a cidade eterna, né? E pode ter certeza que é, não somente por sua história ou por ser um museu a céu aberto, é eterna também pelo perfume que exala e pelas imagens que proporciona aos nossos olhos. Sem sombra de dúvidas é uma cidade que se eterniza em nossos corações.

Vim como turista em 2012, logo depois de me formar em direito, pela PUC-RS. Depois disso, ainda no Brasil, me pós-graduei, advoguei por alguns anos no maior escritório de advocacia do Brasil e me casei.

O direito me desestimulava muito, não sentia mais nenhuma emoção em advogar e, para completar, acabei me jogando em um casamento furado, fruto de um relacionamento que não dava mais certo há tempo. Não sentia mais frio na barriga por nada. Foi então que caiu a ficha. Preciso mudar. Preciso buscar qualidade de vida e novas experiências.

A Itália sempre foi um sonho, sou neta de italianos, então já tinha a cidadania e com a língua já me virava bem. No início escolhi Perugia, capital da Umbria, e depois de um ano como garçonete em uma pizzaria, e um divórcio, senti que precisava mudar novamente, dessa vez para uma cidade maior e menos fria. Não precisei pensar muito para escolher Roma.

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Éramos eu e a minha cachorrinha vira-lata. Sem nenhum trabalho, mas com um pouco de dinheiro que tinha economizado, aluguei um quarto em um apartamento bem perto do Vaticano e pagava 460 euros por mês, já com as despesas inclusas. Dividia a casa com a proprietária, o filho dela e outros dois inquilinos. Um único banheiro para todos, de manhã era uma verdadeira maratona para ver quem chegava primeiro.

Depois de me instalar, era hora de conhecer melhor a cidade. Lembro que já no primeiro dia andei pelas ruas do Coliseu, Pantheon, Fontana Di Trevi e Piazza Navona, e foi fácil ver que Roma é caótica sob alguns aspectos. O trânsito pode ser definido como maluco. Atravessar a faixa de pedestre sem semáforo será um dos seus desafios diários, pois o cuidado com alguns motoristas desatentos deve ser contínuo.

Aqui não é como na Suíça que você coloca o pé na rua, o carro para, você atravessa e voltam todos felizes para casa. Em Roma você pode colocar um, dois pés, quantos quiser, um motorista para somente quando se sente coagido a isso, ou seja, quando a única escolha é não te atropelar. Ainda não entenderam para que serve o cinto de segurança. Ninguém usa, e se você colocar eles já sabem: não é italiano. Muitas buzinas, xingam-se, gritam, gesticulam, mas nunca vi ninguém realmente brigar no trânsito. É só o jeito deles, sabe aquela máxima “cão que ladra não morde”? Então!

Arquivo pessoal

Roma é sempre cheia de gente caminhando pelas ruas, além dos turistas, claro, temos o povo romano. O maior orgulho na vida de uma pessoa aqui é dizer que é de Roma. Inclusive vi várias pessoas com tatuagens do Coliseu ou com a imagem de um gladiador no braço. Como quem diz: “Lembra do pessoal do império romano? Aqueles que conquistaram mais da metade da Europa? Então, sou descendente.” Italiano tem dessas, quando tem muito orgulho de onde vem, passa a não ser mais italiano no momento em que alguém questiona e te responde: “Son de Roma” (como falam aqui, mas o certo em italiano é “Sono di Roma”).

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Outra coisa que se vê muito na cidade é o povo de Bangladesh vendendo pau de selfie nas ruas, lenços ou rosas, e o mais incrível é que basta cair um pingo de chuva que, como num toque de mágica, todos eles se carregam de guarda-chuva e capa, os quais antes custavam 3 euros e agora 10 euros. Nas calçadas também se pode ver muitos africanos vendendo bolsas falsas, mas é só chegar a polícia que saem todos correndo, o que me faz lembrar de quando eu ia a 25 de março, em São Paulo: “Olha o raaaaaaapa!”

Para distâncias um pouco maiores, dentro da cidade, constatei que o melhor jeito para me locomover seria o metrô, que passa a cada 4 minutos. Nos ônibus é melhor não confiar, pois em decorrência do trânsito muitas vezes atrasam e, quando chegam, entrar pode ser um pouco difícil, já que uma mania do romano, que me irrita muito, é se concentrar nas portas dos ônibus. Geralmente tem espaço no meio, mas a ansiedade de estar perto da porta é tanta que ficam todos lá, amontoados. Você entra, acha um espaço, se enfia, e faz de conta que não viu se alguém te olhou feio.

Já no primeiro dia em Roma, pude perceber também que passear pelo centro não é apenas passar por ruas com prédios do século XIX, ou por monumentos conhecidos em todo o mundo, é muito mais do que isso. Os artistas de rua são um toque a parte, pintam quadros, dançam, cantam, tocam violino, guitarra, músicas quase sempre italianas, é como caminhar com trilha sonora, te faz sentir como se estivesse em um filme. Pelas ruelas cheias de restaurantes, é respirar mais do que ar puro, é sentir o perfume de comida de verdade, de doces que apenas saíram do forno, é ter vontade de tomar um sorvete a cada 20 metros.

Agora imaginem-se aqui em Roma, no centro da cidade, caminhando do Pantheon até a Fontana Di Trevi. Vocês viram a rua e vem um bengalês vender um pau de selfie, que está ao lado de um rapaz que toca “O poderoso chefão” no violino. Passam por um restaurante e veem um casal comendo um belo prato de spaghetti alla carbonara, ao som de uma moça que canta “Ave Maria” de Gounod. Do outro lado da rua, avistam uma sorveteria. CUIDADO AO ATRAVESSAR. À esquerda, um prédio com a escrita “1888” logo acima do portão de entrada, à direita um senhor africano vendendo bolsas falsas… Enfim, conseguiram entender o motivo de ser caótica? Paradoxalmente essa é a beleza de Roma, esse tanto de informação totalmente junto e misturado.

Depois de todo esse passeio, lembro de ter sentido uma das maiores emoções da minha vida, quando cheguei à frente da Basílica de São Pedro, com o sol que se punha aos poucos. Com os pés doendo, de tanto andar, olhei fixamente aquela imagem, e me dei conta da grandeza daquele momento: estava morando em Roma. Realizei o sonho que tinha deixado no fundo da gaveta por tantos anos. Foi inevitável não chorar.

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