BrasileirasPeloMundo.com
Dicas para viajar sozinha Turismo Pelo Mundo

Mochilar aos 35, sim ou talvez?

Mochilar aos 35, sim ou talvez?

Ainda com o coração acelerado e sem saber direito onde estava, mais uma vez ela acordou com a batida da porta, risadas baixinhas e claridade nos olhos. Irritada, vai reclamar e lembra que não está em casa. No albergue divide o quarto com mais cinco, às vezes sete, que provavelmente nasceram no fim dos anos 90. Logo pensa: “Não tenho mais idade para isso.”

Depois de tomar um banho rápido calçando o par de chinelos velhos no banheiro pequeno e não tão limpo, botou aquela legging e camiseta já vistos em várias fotos, pegou as mochilas e com passos largos e passaporte em mãos, dirigiu-se ao ônibus que a levaria até o próximo destino. Os jogos e brincadeiras no decorrer da viagem, lembrando-a dos tempos de escola, já não têm tanta graça quanto a parte onde o guia conta sobre a história local e ela nem pisca.

Foto: arquivo pessoal

 

Faz 5 meses que ela não sabe o que é fazer as unhas e já desconhece termos como salão de beleza, luzes, escova e hidratação. Mochileiros não têm tempo nem dinheiro para essas coisas, geralmente preferem gastar cada centavo num passeio, passagem de ônibus, trem ou tuk-tuk e em cerveja. Nos bares vai de chinelo ou sapatilha, com aquele vestidinho já desbotado ou com a única saia jeans que está sempre enroladinha dentro da mochila. E a maquiagem não passa de um rímel e lápis nos  olhos.

Leia também: A culpa de não sermos perfeitas

”Meu Deus!”, “Eu não acredito!”, “Essa juventude está perdida!”, “Nossa, ele tem quase idade para ser meu filho.”, “Que saia tão curta, pior que eu também saía assim.” Tudo isso ela pensa, tentando manter uma expressão facial neutra ao deparar-se com certas situações. Já tinham a avisado que mochilar pela Europa no verão seria assim, hostels, bares e pontos turísticos lotados de adolescentes que acabaram de terminar o Ensino Médio e/ou estão em férias do primeiro ano de faculdade e decidem tirar um ano para pensar se é isso que querem. E, mesmo assim,  não se importou e quis conferir.

Deve ser a centésima vez que ela vê a cara de surpresa dos outros ao responder “tenho 35, e você?”.

A maioria acha que ela tem cara de 26/27, o que a deixa contente. O “e você?” pergunta só por educação, pois já sabe que é difícil algum deles passar dos 25. Mochilar aos 35 é uma experiência e tanto. O livro “A Sutil Arte de Ligar o F*da-se” fez com que ela deixasse de pensar tanto no que os outros estão ou vão pensar para aproveitar mais o momento e os lugares por onde passa.

Leia também: Uma lição para qualquer aspirante a cidadão do mundo

Recuperar-se daquelas cervejinhas a mais da noite anterior já leva um pouco mais de tempo. Antes era fácil beber a noite toda na balada e sair para passear no dia seguinte, hoje não.  De vez em quando as costas doem por causa da mochila pesada. E incertezas do tipo “Será que não deveria ter investido esse dinheiro no futuro ou comprado um carro?” e “ Meus amigos e colegas de escola já estão quase todos casados e com filhos e eu por aí viajando” vêm e vão. Mas é assim, leve e de mente aberta, com uma boa dose de paciência que essa gaúcha de 35 vem explorando o mundo.

Mochilar é valorizar as coisas simples da vida. É conhecer alguém com histórias de viagens para contar e ter a sensação de ser um velho amigo. É comer lasanha na Itália, bacalhau em Portugal, beber muita cerveja na Alemanha, ou muitas vezes ir ao mercado e pegar o que está mais barato, ou até mesmo ir dormir sem comer. Mochilar é respeitar o outro como um indivíduo que faz parte de uma cultura. É entender que o diferente faz bem. Mochilar é aprender, é crescer.

Foto: arquivo pessoal

 

Olhando para baixo de um dos pontos mais altos da Europa, na Suíça, cai no chão uma lágrima. Assim como na sala de um cinema antigo, flashes dos momentos mais especiais dessa viagem vêm à sua mente: quando vestiu sari  no Nepal, o banho no Rio Ganges na Índia, o passeio de camelo pelo deserto do Saara, a vista do pôr do sol em Santorini na Grécia, aquela selfie na Torre Eiffel em Paris, o tanto de massa e pizza regadas a vinho que comeu em Roma e todas as pessoas especiais por quem cruzou e teve a oportunidade de conviver por algumas horas, dias ou só uma noite, e ela percebe que fez a melhor escolha. Agradece olhando as montanhas ainda cobertas de neve e segue feliz.

Mochilando ela consegue ser ela mesma. Mochilando fez as pazes consigo mesma.

Related posts

Sete lugares para visitar na Costa Rica

Franciane Reis

A Bolívia além do Salar de Uyuni

Mirella Arruda

A melhor estação para visitar Estocolmo

Monique Garcia

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Este site ou suas ferramentas de terceiros usam cookies Aceitar Consulte Mais Informação