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Hong Kong

Morar em Hong Kong sem saber chinês

Você já passou por uma situação em que não conseguiu se comunicar? Imagine morar em um lugar em que os desafios diários envolvem pegar um táxi ou pedir comida. Morar em Hong Kong sem falar chinês é a aventura que compartilho com vocês neste artigo.

As línguas oficiais de Hong Kong são o inglês e o chinês. O inglês deve-se ao fato de que Hong Kong pertenceu à Inglaterra por mais de 100 anos (até 1997). No entanto, menos de 5% da população fala como língua nativa. Quase 90% fala cantonês, uma das línguas chinesas, que é diferente do mandarim, a língua oficial da China continental (ou mainland, como dizem aqui). O cantonês é uma língua tonal, ou seja, uma mesma palavra tem significados completamente diferentes dependendo da maneira como se pronuncia. Eu até tentei aprender o básico, mas é muito difícil distinguir os tons, para quem não cresceu escutando a língua. Eu sei dizer o vocabulário de sobrevivência: “obrigada”, “bom dia”, os números e as coisas que eu não posso comer. Então, como é viver aqui sem falar o chinês?

Em primeiro lugar, é importante dizer que toda comunicação pública e sinalização está em chinês e inglês. Eu fui a lugares como China ou Japão, onde tudo é escrito somente na língua local e fica difícil até de entender as estações do metrô, devido ao alfabeto diferente. Nesses lugares senti-me como analfabeta.

Em Hong Kong, dentre as pessoas que não têm o inglês como língua nativa, algumas dominam o inglês bem, mas eu diria que é minoria. Alguns falam com um nível intermediário. Outras falam com sotaque tão forte, pausando entre as sílabas como se fala chinês, que no início até meu esposo, britânico, tinha dificuldade de entender as pessoas. Passei vários apertos ao dar aula e não entender as perguntas dos alunos, por conta da pronúncia. Após 1 ano e meio, posso dizer que, como a tudo na vida, a gente se acostuma.

O nível de inglês depende de onde se está: a Ilha de Hong Kong é a região mais internacional e é mais fácil encontrar alguém que fale inglês. Quanto mais perto da China (região dos Novos Territórios), mais baixo fica o custo da moradia, mas menos gente fala inglês. O nível também varia com o nível de escolaridade. Todo farmacêutico com que conversei, falava muito bem o inglês. Por outro lado, entrar em uma loja é uma loteria, pois pode ser que ninguém fale inglês.

Em negócios costuma-se ter pelo menos uma pessoa que fala inglês. Ao buscar apartamento, quando meu esposo e eu (ambos estampados na cara que éramos estrangeiros) entrávamos em uma imobiliária, primeiro os atendentes faziam cara de pânico e, em seguida, todos olhavam para uma mesma pessoa e até faziam ela desligar o telefone, para poder conversar com a gente.

Os restaurantes mais simples não têm cardápio em inglês e muitas vezes nenhum garçom se comunica nessa língua. Quem come de tudo pode apontar para o que alguém está comendo ou apontar qualquer coisa no cardápio. Mesmo os cardápios em inglês, não necessariamente traduzem todos os ingredientes. Como tenho restrições alimentares, tenho escrito em chinês no celular o que não posso comer para evitar que venha alguma surpresa. Os restaurantes ocidentais, que têm cardápio em inglês e garçons estrangeiros, são em geral mais caros. Em outras situações também pagamos mais caro por um serviço por não falar chinês. Eu precisava fazer cartões de visita e o lugar mais em conta tem um formulário online só em chinês. Eu tinha que pedir ajuda para preencher, mas achei melhor pagar um pouco mais e ter mais controle do que estava fazendo.

Outras situações que eu vivi aqui ajudam a entender o dia-a-dia:

O sistema de transporte público é tão eficiente que não é preciso pegar táxi quase nunca. Eu só tive que fazê-lo quando precisava transportar algo também. Difícil achar um taxista que fale inglês. Logo que cheguei, tinha malas e queria ir para o hotel. Parei cinco táxis falando o nome da rua, que estava bem perto, mas nenhum entendia. Tive que procurar um lugar com internet para poder baixar o endereço em chinês, ou seja, para pegar táxi, deve-se ter o endereço escrito em chinês.

Na portaria do meu prédio nenhum dos porteiros fala inglês. Quando toca o interfone e não estamos esperando ninguém (provavelmente é uma encomenda), é sempre um estresse. Isso porque o porteiro fala algo em cantonês e eu nunca sei se a pessoa vai subir ou se devo descer. Se eu descer e a pessoa subir e a gente se desencontrar? Mas se eu não descer e a pessoa não subir? Dos técnicos que vieram consertar ou instalar algo em casa, nenhum falava inglês. Alguns ligavam para alguém que ficava traduzindo a conversa.

Eu queria comprar crédito para o celular em um supermercado. Geralmente, dou o dinheiro e só digo o nome da companhia telefônica que uso. Uma vez, ninguém que trabalhava ali entendia o que eu dizia. Comecei a perguntar para os clientes: alguém fala inglês? Ninguém falava, mas alguém buscou uma pessoa no restaurante ao lado. A pobrezinha estava comendo, veio com os palitinhos na mão e eu pedi para que ela dissesse o nome da companhia em cantonês. Problema resolvido com insistência minha e boa vontade de estranhos.

Toda essa situação pode ser frustrante, mas não impede ninguém de morar aqui pois há maneiras de contornar. A tecnologia ajuda até certo ponto. Aplicativos como Way go (que não precisa de internet) e o próprio Google tradutor, permitem que se aponte a câmera do telefone para algo escrito em chinês e aparece a tradução. No entanto, não funcionam 100% porque o chinês é uma língua contextualizada, uma mesma palavra tem significado diferente de acordo com as outras palavras que vêm antes ou depois. Tem hora que a tradução em inglês não faz sentido algum. Portanto, as amizades locais aqui valem ouro. Eu tenho 3 amigas que me ajudam na hora do aperto. Eu ligo ou envio mensagem e elas traduzem para mim. Tudo tem solução e basta preparação e paciência.

Vendo pelo lado positivo, não saber chinês tem uma vantagem: todo dia recebemos ligação de telemarketing no celular (não é exagero, nunca vi isso antes nos outros países em que morei). Eu atendo e as pessoas começam a falar em cantonês. Eu as interrompo perguntando se falam inglês. Aí elas dizem “sorry” e desligam. Maneira mais fácil de encerrar um telemarketing não há.

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4 comentários

Ana Paula Macklin Maio 10, 2017 at 7:50 am

interessante sua experiência. Eu moro em HK ha 4 anos e NUNCA passei por nenhuma ou qualquer dificuldade de comunicação por aqui. Acho que o inglês aqui e muito bom e ate as pessoas mais velhas conseguem falar o básico de comunicação. Algumas pessoas talvez não consigam falar alguma coisa mas também não interfere muito no meu dia a dia porque são coisas e situações simples. No meu prédio TODOS os porteiros falam inglês, mercados e etc… eu vou muito a restaurantes locais e todos tem menu em inglês (ate mesmo o wet market). Mas realmente, como você citou, eu moro na Ilha e talvez seja por isso. Adorei seu texto… temos que marcar um cafe qualquer dia desse e você precisa ir em algum dos nossos eventos da comunidade brasileira aqui em HK. 🙂

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Ana Clara Oliveira Garner Maio 11, 2017 at 5:55 am

Oi xará. Obrigada pela visita. Nossa, que sorte você tem de poder morar na Ilha! Realmente, é outra realidade bem diferente dos Novos Territórios por isso fiz questão de ressaltar. Vamos marcar sim, pelo Face. Abraços

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Daniel Maio 11, 2018 at 11:08 pm

Quanto custa um apartamento em Hong Kong? Tanto pra alugar quanto pra comprar.
Melhorando a pergunta
Quanto custa a moradia no geral? Carissimo? Absurdamente alto? E como vcs conseguiram?

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Ana Clara Oliveira Garner Maio 19, 2018 at 1:43 pm

Oi Daniel. Hong Kong sempre fica entre os lugares mais caros do mundo para se mudar. Há um sério problema de espaco aqui (explico aqui no meu blog: https://abordodomundo.com/2016/07/24/moradia-em-hong-kong/). Alugar é super caro e comprar então penso que é realidade só para ricos. Detalhe: paga-se muito para um lugar ridiculamente pequeno. O valor vai depender muito da regiao e do tamanho do apartamento. Como regra geral, quanto mais perto da China ou nas ilhas periféricas, mais barato. A ilha de Hong Kong é mais cara. Predios sem elevador também custam menos. Para valores exatos, deixo alguns links: http://www.aponthemap.com/aluguelemhongkng/ (em portugues, otimo post para ter uma nocao detalhada da realiadade), http://www.scmp.com/news/hong-kong/economy/article/1905374/what-you-can-buy-price-hong-kong-flat-italian-castle-sydney e https://www.squarefoot.com.hk/transactions/

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