Motivos para não morar no Japão

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Fonte: Pixabay
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Motivos para não morar no Japão.

Sempre deixo claro o quanto amo o país que me acolheu, que escolhi morar e que me deu oportunidade de ter uma vida bem confortável. Sou muito grata a tudo que o Japão me proporcionou. Sempre que alguém está em dúvida sobre vir para cá e pergunta a minha opinião, a resposta é sempre a mesma: venha! Se organize, arrume as malas e venha! Vale muito a pena.

Eu, que não sou descendente de japonês (mas sou casada com um) e sou muito apegada à família que deixei no Brasil, tenho convicção de que se tivesse que escolher novamente se me mudaria ou não, o faria mil vezes! É claro que de vez em quando as saudades doem, o arrependimento bate, aparece uma sensação de impotência de ver o meu país se prejudicando e eu não estar lá para tentar fazer alguma coisa. Mas não me arrependo, a experiência de morar aqui é muito enriquecedora.

Porém, ultimamente tenho visto que muita gente acredita que ser estrangeiro em um país é fácil e confortável – na maioria das vezes usando de argumento como qualquer país é melhor que o Brasil –, e como a vida anda bem no resto do mundo; e acredito que é missão de todo expatriado desmistificar esse tipo de coisa. Eu entendo que ultimamente a nossa pátria não está dando muito orgulho aos seus conterrâneos. Mas saiba que, no caso do Japão, o Brasil está anos-luz mais avançado em uma série de fatores. É preciso considerá-los se você pretende morar aqui ou se só tem vergonha de ser brasileiro mesmo.

Já falei no BPM sobre a perspectiva de ser mulher no Japão, mas eis aqui alguns outros motivos:

Solidão

O Japão é um país muito solitário. Não é questão de gostar ou não de ficar sozinho, é estar sozinho o tempo todo. É você conviver com bastante japoneses, mas não ter intimidade com quase nenhum, ou participar de redes de apoio ao estrangeiro mas, mesmo assim, se sentir sozinho no mundo. Mesmo entre os brasileiros residentes no Japão, seu círculo de amizades será bem rotativo (porque brasileiro se muda bastante, sempre buscando melhores oportunidades – o que eu acho certo, mas a parte ruim é que criar raízes é bem difícil). É você sentir que falta algo quando vai conhecer alguém, porque ao se apresentar não há aperto de mão, beijinho no rosto, toque no braço. Você se curva e ponto. E é possível que esse seja o máximo de intimidade que você terá com um japonês.

É claro que há exceções: tem muitos japoneses que gostam de brasileiros justamente por causa do nosso calor, mas via de regra, a frieza japonesa é bem difícil para os brasileiros se acostumarem.

E a população japonesa está acostumada a fazer tudo sozinha mesmo. Sem intimidade, sem se abrir, sem conversar. Triste realidade. A solidão, ainda mais quando alinhada ao bullying (que é super comum aqui!) nos faz perceber que não é à toa que há tantos suicídios.

Leia também: Por que há tantos suicídios entre os jovens no Japão?

Fonte: Pixabay

Racismo

Sim, é um país de primeiro mundo e a educação japonesa é mesmo maravilhosa. Mas ainda há muita descriminação. Neste texto, a Ana contou sobre como ela foi discriminada por ser brasileira quando foi alugar um apartamento. Não se engane pensando que foi um caso isolado: aconteceu o mesmo comigo e com mais um monte de brasileiros que tentou alugar apartamento por conta.

Não é fácil lidar com os olhares, mas você se acostuma. Porém, é complicado entender quando você é proibido de entrar em uma casa noturna porque é estrangeiro. Ou quando você começa um serviço novo onde a maioria dos funcionários é japonesa e, por não dominar o idioma, sofrer bullying dentro do trabalho. Quando eu digo bullying, não estou falando de pegarem no pé, não. Um amigo meu sofreu tanto a ponto de jogarem lixo nele, além de não esperá-lo para ir trabalhar e sair mais cedo de carro (e consequentemente fazê-lo perder um dia de trabalho). Chegou ao caso extremo da pessoa que praticava o bullying mandá-lo trabalhar em um lugar onde havia radiação, sem roupa especial nem nada. Claro que quando isso chegou nos donos da empresa, o rapaz foi demitido e ofereceram assistência para meu amigo entrar com um processo, mas pode ser que a saúde dele esteja prejudicada e a discriminação foi a razão disso acontecer.

Assim, deixo aqui o meu conselho: se você estiver envolvido em qualquer tipo de incidente, tenha em mãos o contato do Consulado Brasileiro e até de um advogado, porque já houve casos em que uma pessoa inocente foi incriminada porque era estrangeira.

Desastres naturais

Está aí um privilégio do Brasil. O Japão sofre com todo tipo de desastre natural: terremotos, tufões, tsunamis, vulcões… O país é preparado para esse tipo de desastre, mas não deixa de ser preocupante. Ainda mais para quem mora em zonas de risco, como Fukushima, onde aconteceu a tsunami de 2011 – e onde há inclusive uma usina. Muito perigoso!

Excesso de trabalho

Hoje a lei trabalhista mudou bastante no Japão, mas é o único lugar do mundo onde há registros de morte por excesso de trabalho. Para estrangeiro então, piorou! Nós estamos sempre buscando uma nova oportunidade e, de maneira geral, brasileiros não têm preguiça de trabalhar. Imagine só um trabalho que se ganhe bem, mas que você precisa sacrificar suas folgas e saúde para conseguir se manter.

Sem contar que muitas vezes o tipo de trabalho é repetitivo, pesado e sujo. O estresse por excesso de trabalho é uma realidade no Japão.

Leia também: Trabalho em fábrica japonesa

Crimes bizarros

É verdade que o Japão é um país muito seguro, mas quando há registros de crimes aqui, são de sociopatas. O último que ficou famoso no país foi o caso de um homem que tinha nove cabeças humanas decepadas em casa. Sim, nesse nível.

Como em todo lugar do mundo, nem tudo são flores em terras nipônicas. O que você acha? Se mudaria sem problemas?

2 Comentários

  1. Excelentes conselhos. De fato, morar no Japão deve ser uma experiência muito enriquecedora. Também sou casado com uma descendente e já passou pela nossa cabeça arriscar por aí. Os problemas relatados por você são exatamente aqueles que, mesmo sem ponderar as boas coisas, já nos impediria de arriscar, principalmente a cultura nipônica do bullying e racismo e como isso é aceito socialmente, principalmente contra estrangeiros, e entre crianças e adolescentes. Isso, se fosse somente contra nós seria difícil de aceitar, mas, contra nossa filha torna-se intransponível. Só acho que poderia ser acrescido como grande entrave à ida ao Japão a questão da escrita japonesa. Nem tanto a língua, já um impedimento natural, mas a aprendizagem da escrita sendo adulto, é algo desanimador. Parabéns por sua escolha e sucesso sempre.

    • Olha em qualquer país é possível ter experiências enriquecedoras, até mesmo em outros Estados no Brasil. Não é preciso ir ao Japão e viver lá. O preconceito e o bullying existe em qualquer parte do mundo e o Japão não é exceção. As escolas japonesas parece como uma selva onde a lei do mais forte prevalece, por isto crianças e jovens vulneráveis psicológicamente são as vitimas favoritas do ijime. A mesma situação ocorre também nas fábricas contra estrangeiros, principalmente os que não dominam o idioma, que recebem apelidos imundos como “baka”, “bakarayo” até ofensas piores, mesmo estes estrangeiros tendo conduta exemplar e demonstrando produtividade no trabalho, falo por experiência própria. Já tentei a vida no Japão mas por não dominar a língua fui vítima de assédio no trabalho. A discriminação contra estrangeiros é sutil, não explícita no Japão. É importante saber falar o idioma para se comunicar com os superiores no serviço ou realizar serviços na prefeitura, correios e no banco sem necessitar de um interprete(tantosha). A escrita também é necessário para você poder realizar todos os serviços burocráticos por conta própria. O salário pago pela mão de obra estrangeira esta desvalorizada e congelada em torno dos 950 – 1300 ienes/hora trabalhada. O salário aumenta de acordo com o tempo de serviço prestado numa mesma empresa, algumas pagam +1900/hra para funcionários de longa data. No Japão é difícil um estrangeiro mesmo que domine o Nihongo obter uma colocação com remuneração em dias de folga fora de empreiteiras, geralmente Norte-americanos e europeus são os que tem maiores chances. O custo de vida é elevado, contando sakai hoken e aluguel, tb há as despesas com veiculo próprio que é uma necessidade, fora isto tem alimentação, água, luz, gás e opcionais como telefone e internet. É possível acumular um bom valor mensal para emergências e enviar uma quantia para o Brasil. Enfim, prefiro viver neste país louco e errado que é o Brasil, firmar minhas raízes aqui do que voltar para o Japão e ficar longe de todos que amo. Os brasileiros que pensam em ir ao Japão precisam avaliar se vale a pena esta mudança drástica de vida, no Brasil a preguiça de estudar é o que tira o sustento de muitos brasileiros pois as empresas já exigem especialização e ensino superior para diversos cargos. Hoje penso desta forma, não adianta querer fugir para outro país e vencer se isto não aconteceu no Brasil. Todo o dinheiro ganho lá fora, acaba assim que você retorna ao Brasil e logo já esta fazendo os planos para outra viagem à trabalho no exterior, é um ciclo vicioso. O ideal é vencer no Brasil, se empenhar nos estudos, mostrar seu diferencial no mercado de trabalho para ter sua estabilidade do que jogar tudo para o alto e tentar a sorte em outro país.

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