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Mulheres estrangeiras e o mercado de trabalho sueco

Com uma taxa de desemprego em torno de 4% você como estrangeira vai encontrar um emprego por aqui sim, mas talvez ele não será o emprego dos seus sonhos. Na Suécia, o importante é estar empregado.

Quem leu meu texto de agosto (segue o link aqui) percebeu que as portas de trabalho para as mulheres acima dos 40 anos estão longe de se fechar aqui na Suécia. Positivo? Sim, claro. Mas será que a realidade é a mesma para as mulheres estrangeiras? Uma mulher estrangeira terá a mesmas chances de uma mulher nativa para se colocar no mercado de trabalho? Estas duas perguntas vou tentar responder neste artigo.

No meu consultório sempre atendo mulheres que querem ajuda através do coaching para entrar no mercado de trabalho. Quando encontrei a Antônia* a primeira vez notei nela um olhar de frustação e desânimo. Já morava na Suécia há quase 9 anos. Veio acompanhar a namorada que foi transferida para cá. Antônia aprendeu rápido o sueco (e, diga-se de passagem, fala bem o idioma) fez vários cursos de aperfeiçoamento, e no mais, estudou em uma faculdade renomada no Brasil, tem mestrado na Europa, mas a cada entrevista que fazia logo que chegou aqui recebia o tão temido “não”. A vaga tinha sido preenchida por outro candidato. E ela claro, não entendia o porquê. Era jovem, tinha garra e muita flexibilidade.

Olivia*, que era dentista em São Paulo, resolveu dar uma chance ao amor e se mudou para Gotemburgo com “malas e cuias” e com o sonho de abrir seu próprio consultório. Hoje, passado-se 5 anos, o sonho de atuar como dentista ficou para trás. As pedras encontradas no caminho (como por exemplo a validação do diploma e a necessidade de precisar voltar aos bancos da universidade) foram grandes e a fez desistir da carreira que ela tanto amava.

Já Maria Clara* era advogada. Desembarcou nas terras vikings por ter se apaixonado por um sueco e sem muita experiência do mercado de trabalho no exterior achou que seria possível continuar exercendo sua profissão assim que aprendesse o sueco.

Os exemplos acima representam muitas mulheres estrangeiras que por algum motivo se mudam para a Suécia e aos poucos vão se deparando com as dificuldades de aceitação no mercado de trabalho. Sim, eu escrevi dificuldades, pois mesmo a Suécia sendo um país onde a igualdade de gêneros e a questão de a inclusão do imigrante sempre estarem no centro das discussões políticas, a realidade pode decepcionar quem chega por aqui. Lembrando que para todas as situações tem uma exceção e os exemplos citados não se referem a imigrantes que se mudam para cá já com um emprego garantido.

Pesquisas realizadas pelo Arbetsförmedling – uma espécie de agência nacional de empregos sueca – apontam que o estrangeiro necessita de em média de 7 anos para se estabelecer profissionalmente por aqui. O estrangeiro que chegou aqui sem emprego, é claro. Sete anos nos parecem muito tempo, não é mesmo? Sim. E para quem acabou de chegar e precisa ajudar na economia da casa sete anos soa como uma eternidade. Quando olho para a minha jornada profissional por aqui, vejo que precisei de mais de 7 anos: Dois anos para aprender o sueco fluente, mais 5 anos de faculdade, mais os estágios obrigatórios. E lá se foram quase 10 anos.

Outra pesquisa feita também pelo Arbetsförmedling aponta que 57 % das pessoas desempregadas são estrangeiros e deste total 32% são mulheres. E o que tem por trás dessa realidade? Muitas mulheres chegam aqui com filhos pequenos e por uma série de motivos assumem automaticamente o papel de dona de casa. Outras esbarram na questão do idioma, já que não dominam o sueco ou inglês e se sentem limitadas a correr atrás de um lugar ao sol. Mas os maiores inimigos da mulher estrangeira que quer se colocar no mercado de trabalho são – ao meu ponto de vista – a burocracia sueca e as exigências local do mercado de trabalho.

O que quero dizer com burocracia? A validação de um diploma por aqui demora no mínimo um ano, dependendo da área que a pessoa procura emprego. Na área de saúde – por exemplo – a demora ainda pode ser mais longa, já que a necessidade de voltar aos bancos da universidade é obrigatória. Muitas matérias que são imprescindíveis aqui não são no Brasil e vice-versa. Com a necessidade de ajudar no sustento da casa muitas acabam desistindo e começando em uma nova profissão. Isto e muito comum entre profissionais da área de advocacia, já que com um diploma brasileiro, é quase impossível atuar como advogada.

E o que quero dizer com exigências do mercado de trabalho? Neste caso estou falando da exigência de ter experiência na área que se quer atuar. Para o sueco é importante que você tenha experiência de no mínimo alguns anos para a vaga que se está aplicando. Ou seja, não adianta se fui secretária durante 10 anos no Brasil. Se eu nunca trabalhei como secretária aqui a vaga de emprego provavelmente irá para outra candidata que adquiriu a tal experiência por aqui. Geralmente uma sueca. Esta é uma situação que frustra muitas estrangeiras, já que sem experiência não tem emprego, e sem emprego não há como adquirir experiência.

O que muitas mulheres imigrantes fazem por aqui é começar de novo, foi o meu caso. Como as portas de emprego como jornalista (profissão que tinha no Brasil) não se abriam decidi recomeçar. Escolhi a psicologia e hoje vejo que a escolha foi mais do que certa.

O importante quando se muda para cá e saber que emprego existe, mas talvez não será exatamente o que você fazia no Brasil. Outro fator importante a ter em mente quando se procura emprego por aqui é assimilar o fato de que na Suécia não existe emprego melhor que o outro. A faxineira tem o mesmo valor do dentista e do professor. O importante é o trabalho em equipe e não o título que você carrega. Na Suécia o importante é estar empregado. Os exemplos que citei acima, são provas de que as vezes é necessário um recomeço.

Leia também: dicas para arrumar emprego na Suécia

Querem saber como está a vida profissional da Antônia, da Olivia e da Maria Clara? As três estão inseridas no mercado de trabalho sueco, mas fizeram novas escolhas. Antônia trabalha como pedagoga em uma creche, Olivia como auxiliar de dentista e Maria Clara trabalha com refugiados de guerra.

Com este texto não estou afirmando que você nunca conseguirá atuar na área que você escolheu no Brasil. Existem pessoas que conseguem sim, mas elas representam a minoria por aqui.

Minhas dicas para quem quer entrar no mercado de trabalho aqui:

  • Estude o sueco. As portas se abrirão mais rápido;
  •  Tente fazer contatos. Eles te ajudarão a conseguir o primeiro emprego;
  •  Se você tiver oportunidade faça uma faculdade ou cursos aleatórios. O sueco valoriza muito quem se atualiza profissionalmente.
  • Seja curiosa, persistente e tenha a mente aberta a novos desafios. O seu dia vai chegar!
  •  E se você não abre mão de exerceu a função que já tinha no Brasil, não desista e procure meios de se chegar lá.

*os nomes citados no artigo são fictícios para evitar a identificação das pessoas.

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5 comentários

Thaís Setembro 20, 2017 at 9:21 am

Verônica,
Muito legal seu texto. Cheguei na Suécia em janeiro desse ano, senti na pele cada uma dessas situações que você descreveu. Acho importante que compartilhe esse tipo de informação porque quando estamos lá no Brasil e chega uma oportunidade para nossos companheiros de virem para cá, não temos essa percepção, pensamos “A eu faço qualquer coisa, posso ter qualquer trabalho, quero apenas começar a trabalhar e depois vou seguindo”, mas achamos que esse “qualquer coisa” vai ser rápido, que aqui como em outros países a mão de obra estrangeira é desrespeitada e como dizem, apenas para “subempregos”. Porém não é assim, aqui não se cogita isso, um profissional é um profissional, é respeitado independentemente da função que ele tenha.
Por muita sorte eu entro na minoria, consegui trabalho agora. Mas foi exatamente como em suas dicas, procurei a agencia de empregos do governo, fui fazer coaching, cursos e comecei a estudar sueco (demorou uma vida pois tenho filho e só para conseguir escola se foram quase 4 meses). Sou de área administrativa, o que facilita um pouco também.
O que não pode é desistir, tem que correr atrás de cada detalhe.

Obrigada.
Um abraço,
Thaís

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Verônica Ferreira Iwarson Setembro 20, 2017 at 10:30 am

Oi Thais, muito obrigada pelo feedback. espero que vc consiga entrar no mercado de trabalho rapidinho por aqui.. se vc já não conseguiu ? 🙂
um abraco pra voce…

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Verônica Ferreira Iwarson Setembro 20, 2017 at 10:41 am

oi de novo thais.. so agora que vi que nao tinha lido todo o seu post.. mil desculpas.. que bom que vc ja está inserida no mercado de trabalho.. isto é super importante para integracao e o bem estar psicologico. um abraco

Resposta
Semida Silveira Setembro 21, 2017 at 2:00 pm

Verônica, seu texto reflete bem a experiencia de mulheres e homens recém chegados na Suécia. Também foca na importância de uma atitude aberta e positiva. Concordo. Gostaria de complementar, salientando que é possível se inserir no mercado de trabalho qualificado de maneira rápida em algumas áreas. No setor de informática e programacão, a procura de mão de obra é internacional. Uma boa maneira de entrar no mercado de trabalho é, como você mesma indica, investir em uma formacão acadêmica complementar, por exemplo, um mestrado. A Suécia valoriza a interdisciplinaridade e há mestrados profissionais dos mais variados tipos. Com um diploma sueco, você é vista de outra maneira pois aprende sobre o contexto sueco. Muitos empregadores não se sentem capazes de julgar a formacão que você traz consigo. Cidades como Estocolmo e Gotemburgo, tem cerca de 30% de habitantes estrangeiros ou filhos de estrangeiros. O mercado de trabalho já não discrimina tanto como acontecia há poucas décadas. Concordo com sua lista de dicas, onde o aprendizado da língua é condicão absolutamente número 1.

Resposta
Verônica Ferreira Iwarson Setembro 21, 2017 at 3:56 pm

Oi Semida, muito obrigada pelas suas observacões. Sei que a área de TI e a área cientifica são áreas onde a dificuldade nao sao tao grandes. talvez mais pra frente escreva um artigo falando sobre profissões onde a facilidade de atuacão é maior. como o texto nao pode ser tao grande foquei no que é mais geral e no que encontro todos os dias no meu trabalho, ou seja, mulheres tendo dificuldade de se recolocar no mercado. como vc mesma escreveu, muitos empregadores nao tem a capacidade de avaliar a formacao que o estrangeiro traz do seu país de origem. me lembro de uma pessoa que trabalhei junta há um tempo atrás. no seu país de origem era uma psícologa bem renomada, aqui trabalha na psiquiatria como cuidadora.
obirgada pelo feedback!

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