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Bélgica

“Ne me quitte pas”: o ilustre belga Jacques Brel

“Ne me quite pas. Je ne vais plus pleurer.

Je ne vais plus parler. Je me cacherai là

À te regarder”. (Ne me quitte mas – Brel)

(“Não me deixe.Não vou mais chorar

 Não vou mais falar. Me esconderei aqui. Para te contemplar”.)

A primeira vez que ouvi a canção “Ne me quitte pas” foi na intrigante série global “Presença de Anita” em 2001, na voz de Maysa, uma das inúmeras cantoras a interpretar este, que é considerada uma das mais belas (e dramáticas) canções. Aliás, nesta minissérie brasileira, havia uma coletânea de músicas francesas espetacular.

“Ne me quitte pas” é uma das canções mais versionadas da música moderna, cantada em diversas línguas por centenas de intérpretes ao redor do mundo. No Brasil, além de Maysa, também podemos ouví-la nas vozes de Angela Ro Ro, Alcione, Cassia Eller e Maria Gadú.

Agora o que nem todos conhecem é que o sucesso foi composto, escrito e interpretado pela primeira vez pelo cantor belga Jacques Brel, em 1959. Apesar de Brel ser francófono, decidiu também cantá-la, 13 anos depois, em neerlandês, outra língua oficial na Bélgica, porém sem  muito êxito.

C’est comme ça: foi assim que tudo começou

Mesmo não sendo uma celebridade mundial, Brel é um ícone da música francesa e um ilustre belga, inclusive com uma Fundação dedicada à sua vida e obra em Bruxelas, cidade natal do cantor. Como muitos músicos da época, Brel foi um Bon Vivant, com uma história comum neste meio. Filho de empresários, decidiu abdicar de sua segurança financeira e tentar carreira na França.

Leia também: cheguei na Bélgica, e agora?

Jacques Brel foi conhecido pelo seu espírito livre onde pronunciou em uma entrevista, em 1971, a sua ideologia vital: “O que importa na vida não é a sua duração, mas sim a sua intensidade”.

Ainda na Bélgica, aos 21 anos, se casou com Thérèse Michielsen (Miche), mas após triunfar com seu primeiro disco resolveu deixar a esposa e os filhos e partir para Paris, iniciando a carreira nos cabarés até chegar ao maestral Olympia, aos 29 anos, com sucesso absoluto. Um pouco antes, sua família também se mudou a Paris.

Estátua de Jacques Brel em Bruxelas
Les amants de coeur: a história dos amantes

A história da dramática “Ne me quitte pas” se enreda quando Brel conhece a atriz Zizou e se apaixonam loucamente. Foram 5 anos de um amor de veemente entrega, intrigas, encontros e desencontros. Uma relação proibida e pouco racional.

O final, óbvio, se deu pela covardia do cantor em deixar a esposa e assumir seu relação com a amante que encontrava-se grávida. Jacques se escondeu na comodidade de seu lar e da sua família e se negou a reconhecer a paternidade do filho de “sua” Zizou. 

Embriagada em uma ira de amante preterida, Zizou ameaçou levar Brel aos tribunais e a opinião pública. A história acabou mal, porém dela resultou a mais terrível canção de amor de toda a história.

Leia também: a ópera e a tradição musical armênia.

O antagonismo do estrondoso sucesso é que o artista odiava a música que a definia como uma história de um homem fracassado e frouxo.

“Ne me quitte pas” sofreu muitas transformações antes que Brel a gravasse  definitivamente, em 11 de setembro de 1959, apenas 5 meses que havia perdido Zizou e o seu “possível” filho. No mesmo álbum encontra-se a linda declaração de amor de Jacques a amante: “Je t”aime”. 

La mort: o fim de um ícone

Inicio da década de 70, Jacques então decide mudar a sua vida, compra um veleiro e inicia uma longa viagem que se finaliza nas Ilhas Canárias, Espanha, onde se manifestam os sintomas de um câncer pulmonar. Assim que regressa a Bruxelas, poucas semanas depois de uma cirurgia para a retirada do tumor, decide embarcar novamente e cruzar o Atlântico.

Se instala nas Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa, junto com a sua nova amante, compra um avião e começa a trabalhar com transportes de correspondências entre os habitantes dos arquipélagos. 

Em 1977, Brel volta clandestinamente a Paris para gravar o que foi o seu último álbum. Com uma pré venda de mais de um milhão, teve um êxito sem precedentes.

Jacques Brel morreu aos 49 anos de embolia pulmonar, castigado por ser um ardente fumador. Abdicou de ser enterrado em Bruxelas ou Paris e preferiu estar ao lado de seu pintor favorito, Paul Gauguin, na ilha de Hiva – Polinésia Francesa.

“Pour la porte qui s’ouvre, pour le cri qui jaillit

Ensemble de deux cœurs et ressemble à ce cri

Je t’aime”  (Je t’aime – Brel)

(“Para a porta que se abre, para o choro que nasce

Conjunto de dois corações e parece com este grito

Eu te amo”. )

 

  • os subtítulos em francês são letras de música de Brel

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