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Arábia Saudita

Acampamento beduíno no deserto

Hoje eu vou contar pra vocês a história do dia em que tive a oportunidade de ir à um acampamento típico saudita no deserto e comer como um beduíno, no chão e com as mãos.

Os sauditas esperam ansiosamente o calor do verão amenizar e o inverno chegar, pra cultuar e manter viva suas tradições antigas. Os acampamentos no deserto são o programa de fim de semana da família inteira. Eles vão cedo e ficam até tarde da noite nas tendas montadas no deserto. Conversam, comem e passam o tempo do jeito que seus antepassados faziam.

Hoje em dia, esses acampamentos tem toda uma infraestrutura, banheiro, água, eletricidade. Só é montado mesmo como forma de lazer de fim de semana, mas mantendo a aparência de uma tenda rústica. E eis que chegamos, eu e meu marido num desses acampamentos, à convite de uma família saudita.

Saindo da rodovia e entrando por uma estrada pequena, fomos adentrando uma parte do deserto até chegar à um lugar todo preparado, iluminado, com duas grandes tendas montadas. Várias camionetes e SUVs estacionadas, podia ver uma fogueira na primeira tenda e muitos homens. A segunda delas, um pouco mais afastada, estava toda cercada por um tapume escuro. Era lá que eu tinha que ir… a tenda das mulheres. Era um acampamento saudita, então cada um na sua barraquinha correspondente.

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Dei um “até logo” para meu marido, e fui, meio nervosa com meu pratinho de brigadeiros que levei como agradecimento até a entrada da cerca. Mais uma vez lá ia eu com a cara e coragem me enveredar no meio de gente que eu não conhecia.

Como sempre, fui bem recebida por elas. Logo que atravessei a cerca, já fui convidada a retirar a abaya e ficar à vontade. Afinal, estávamos só entre mulheres, podíamos usar as roupas normais. Uma adolescente que falava inglês já ficou responsável por me escoltar durante a noite e outras que estavam aprendendo também ficavam à volta tentando trocar algumas palavras. Algumas meninas pequenas já vieram me abraçar por que eu era a novidade dali.

Era um grupo grande de mulheres que ia dos 9 aos 99. Não perguntei a idade, mas tinha uma senhora bem velhinha que tinha até uma cama dentro da tenda só para ela ficar deitadinha e participar também. E achei isso muito legal, ninguém fica de fora, toda família participa. Árabes são bem família.

A tenda das mulheres era grande, toda forrada em tapete, do chão às paredes, com aqueles desenhos e padrões bem tradicionais em vermelho, branco e preto. Muitas almofadas em volta da tenda improvisando uma espécie de sofá gigante, e vários encostos de repousar o braço que se parecem a pequenos banquinhos quadrados – tão parecidos que meu marido conta que antes de saber para que serviam, ele sentava em cima como se fossem banquinhos mesmo. Num canto da tenda, um fogão feito no chão esquentava os chás e o café árabe. E a comida rolava solta do momento que cheguei ao momento que fui embora. Mas, apenas alguns aperitivos, afinal, ninguém quer estragar o apetite para a janta.

Por conta do tapume em forma de muro que cobria os arredores da tenda, tinha uma espaço bem grande do lado de fora, protegido dos olhares de quem passasse por lá. Nesse pátio, as crianças pequenas brincavam em balanços e as adolescentes cantavam e dançavam músicas pop internacionais. Lá dentro as mulheres conversavam, bebericavam seus chás, e algumas delas, de tempos em tempos, iam retocar discretamente a maquiagem.

Em um certo momento, uma menina trouxe uma caixa de som portátil, conectou seu celular e então começou a parte da dança. Por mais de uma hora, ao som de diversos sucessos do cenário musical do oriente médio, da qual eu não conhecia nenhum, elas se alternavam no meio do salão dançando da forma tradicional daqui. Pequenos passinhos batendo os pés no chão, dançando em linha, às vezes em roda, e essa da roda é a que mais gosto, pois tem uma coreografia complexa de aprender. Vez ou outra arriscavam uns movimentos de dança do ventre.

É claro que me puxaram pra bagunça também, e eu, mesmo sendo uma péssima dançarina, tentei ensiná-las o samba, só pela obrigação de ser brasileira, mas também coloquei uma vaneira gaúcha de dançar de dois a dois só pra ver no que ia dar.  

Chegou a hora do jantar e o prato principal era o Kabsa, um prato feito de arroz, diversas especiarias e carne de cordeiro ou frango. Mas não é apenas um prato de arroz… é O prato de arroz. O prato pode ter o tamanho do tampo de uma mesa, e nesse dia em cima do arroz tinha um cordeiro inteiro, com bumbum e tudo.

E, como era um acampamento, o prato de Kabsa foi servido sobre uma toalha posta no chão, nos sentamos à volta deste prato, também no chão.

A forma tradicional de comer é com as mãos. Me ofereceram talheres, as adolescentes que estavam lá se sentaram em mesas e comeram da forma ocidental, mas eu quis a experiência completa de um acampamento beduíno. Lambuzei os dedos comendo como eles.

O curioso é que o prato gigante é compartilhado por todos, você não tem um pratinho individual no qual você vai se servir do grandão… não. O prato grande é de todos, e nesse prato grande você vai ter o seu “cantinho” onde você vai comer. E é feio você comer um pouco do seu cantinho e depois esticar a mão e comer de outro cantinho.

Existem regras de etiqueta também. Tudo que você quiser comer do prato, inclusive os pedaços da carne, nesse caso os pedaços do cordeiro inteiro que estava ali na minha frente, você “serve” o seu cantinho e come dali.

Por exemplo, eu não vou pegar um pedaço da carne (que eu arranquei com a mão, não foi cortadinho com faca) e levar direto à boca. Antes eu coloco o pedaço no meu cantinho do prato e então eu como.

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Para deixar essa experiência que estou compartilhando com vocês, visualmente mais apetitosa, uma das senhorinhas mais velhas do grupo, que não falava nadinha de inglês, ia pegando os melhores pedaços de carne, tirando as gorduras e colocando no meu cantinho… tudo com a mão, mas com tanto carinho que não tinha nem como ter nojo daquilo. Achei fofo.

E eu fechei essa experiência do acampamento com chave de ouro, comendo o olho do cordeiro, que me foi servido num misto de brincadeira e desafio, e eu não sou do tipo que abaixa a cabeça para desafios, e um pouquinho do cérebro, que me lembrou muito a textura de ricota. As adolescentes riam e torciam o nariz, mas no fim até recebi palmas por ter comido.

Foi uma experiência sem igual, sem preconceitos e sem nojinho, divertida inclusive. São momentos como esses que trazem um valor ainda maior à todo o pacote da vida de expatriado, era só um acampamento, que se repete tantas vezes, mas pra mim foi um momento e mais uma história para eu poder contar e passar adiante.

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