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O Brasil visto de fora

O Brasil visto de fora.

Já faz quase um ano que estou vivendo aqui em Atenas, na Grécia. E após esse período, acho que já posso fazer uma avaliação clara sobre as diferenças de morar dentro e fora do Brasil.

Não vou abordar a imagem que os gringos tem do Brasil. Isso a gente já sabe. Vou compartilhar a minha opinião – ou talvez um desabafo – de quem está vendo a atual situação do Brasil de outra perspectiva.

Uma das perguntas mais recorrentes que recebo, principalmente de família e amigos é: “e aí, quando volta pro Brasil?” E a resposta cheia de lucidez, mas também cheia de tristeza é: enquanto pudermos manter uma vida digna e feliz fora do Brasil, não, eu não volto.

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Escrevo esse artigo com o coração apertado e lágrimas nos olhos, mas é impossível não fazer essa escolha quando percebemos que dá pra viver melhor em outro país.

E olha que eu estou comparando o Brasil com a Grécia, que não é realmente uma nação com indicadores de primeiro mundo. É um país que vive há uma década numa crise seríssima, onde a aposentadoria do cidadão comum foi cortada pela metade e na qual um quinto de sua população está desempregada. Ainda assim, prefiro viver aqui.

Com certeza, os gregos vão discordar de mim, mas eu acho que eles não têm noção que o buraco no Brasil e na América Latina como um todo é muito mais embaixo. Isso porque eu estou falando de dentro da bolha da classe média alta em que eu vivia, com bom emprego, plano de saúde privado, apartamento em condomínio fechado e muitos privilégios.

Quando morava no Rio de Janeiro, eu achava que a situação não era assim tão séria. Quando a gente está dentro do problema, raramente consegue entender o tamanho que ele tem. “Ah mas aqui é tão lindo, a energia é tão boa, temos tantos amigos, a cidade é maravilhosa…”. Não mais.

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Viver com medo ou alienado, pré julgar qualquer estranho que passa na rua, se sentir lesado ao receber a conta no final de um jantar, perder tempo num trânsito infernal são pequenos – ou mesmo grandes – exemplos do dia a dia que fazem dar-me conta de que estou melhor por aqui.

E agora, vendo tudo de fora, entendo que o problema não é a mídia ou o Facebook, que tendem a superlativizar tudo. O problema são as nossas referências ou mesmo a falta delas. Como exigir algo se não sabemos que existe?

A grama do vizinho é mais verde

Até a gente ter a oportunidade de viajar mais ou levar a vida em outra sociedade, não temos realmente como saber se “a grama do vizinho é mais verde”. A verdade é que atualmente a situação brasileira é tão absurda que qualquer terreno com mato queimado está melhor que a gente.

Antes de me mudar de país, cheguei a pensar que talvez mudar de cidade ou mesmo de estado fosse a solução. Mas “menos pior” ou “ainda dá pra viver lá” definitivamente não são maneiras que eu gostaria de levar a única vida que eu tenho. Ao contrário do está parecendo ultimamente, a nossa vida não é descartável.

Voltando à Grécia, aqui existe cidadania. Existe a tranquilidade de ir e vir. Existe uma infraestrutura pública básica que funciona para todos. Existe mais igualdade e equilíbrio social. Vai tentar explicar o que é um arrastão para um grego. O gringo pira, não consegue entender de tão inacreditável que é!

Quem tem emprego, trabalha e junta dinheiro para crescer, conquistar, viver melhor. E mesmo quem não tem, consegue viver de forma razoável, pois sabe que a escola dos filhos está garantida e que o hospital público tem condições de atender em uma emergência.

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Já no Brasil, trabalha-se para sobreviver. Para ter o plano de saúde particular, para pagar a escola particular, para comprar o meio de transporte particular. Para tentar ao máximo viver alheio aos serviços públicos, que nos são de direito mas, de tão ruins, é melhor negar.

Sem dúvidas, há muita coisa para melhorar por aqui. Qualquer grego vai elencar facilmente inúmeros problemas e oportunidades. Mas, como já disse antes, o básico para se viver existe e funciona. Isso e somente isso já é um salto gigantesco comparado à realidade negligente que temos no Brasil hoje.

Enquanto museu pegar fogo, ciclovia desabar, bandido mandar na cidade, criança vender bala no sinal e político ficar milionário às custas do cidadão, o Brasil estará sobrevivendo.

Viver fora do Brasil por um tempo nos ensina que sobreviver não é suficiente. É preciso saber viver.

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3 comentários

Cássia Souza Outubro 9, 2018 at 4:00 pm

Marina, super de acordo com todo seu texto! Tenho o mesmo sentimento! Ano passado tentei voltar pro Brasil… não deu… desemprego, medo, crianças todo tempo com alguma virose, os produtos no supermercado pra quem busca alternativas mais saudáveis são super caras (tipo: não tomo leite de vaca)… foi um período onde gastei toda reserva de dinheiro que tínhamos, literalmente, pra sobreviver… Hoje estou na Costa Rica… tenho saudade do Brasil, mas viver é preciso!

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Marina Lemgruber Outubro 9, 2018 at 4:38 pm

É de partir o coração, né? Talvez daqui uns anos seja possível darmos uma nova chance. Boa sorte pra você e sua família na Costa Rica!

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marilia Outubro 10, 2018 at 10:53 am

Concordo, olha que eu moro na Africa do Sul, pais com serios problemas de desemprego, seguranca etc..mas mesmo assim aqui ainda temos vida e nao sobrevivencia..voltei para o Brasil, fiquei um ano e nao consegui mais me adaptar com a mentalidade brasileira..dificil..acho que esta e a parte mais dificil..

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