O peso de não ser mãe no Panamá

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Casais sem filhos são mal vistos no Panamá. Foto: Pixabay
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De forma geral, o Panamá trata bem as atuais e futuras mães, sejam elas locais ou estrangeiras. O sistema de saúde público (Caja de Seguridad Social) assegura atendimento pré-natal e partos seguros para a maior parte da população feminina (exceto em algumas comunidades indígenas ou províncias mais afastadas, nas quais infelizmente ainda há problemas nesta e em muitas outras áreas).

Para quem possui um bom plano de saúde, a capital panamenha não difere de outras grandes cidades da América Latina ou dos Estados Unidos. Os hospitais e maternidades “de alto nível” são bem parecidos com os do Brasil, e há bons profissionais da área de obstetrícia e reprodução assistida na capital. Por isso, muitas expatriadas e imigrantes começam ou aumentam a prole por aqui.

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Agora, para quem não tem filhos, como é o meu caso, o país não é dos lugares mais acolhedores. “Mas como você não quer mãe? Isso não é natural: seu corpo foi feito para isso”. Estas foram as primeiras frases desta natureza que eu ouvi aqui, há quase dois anos. E elas vieram da boca de um médico, que nem sequer era ginecologista, diga-se de passagem.

Depois desta “opinião que eu não pedi”, elas nunca mais pararam de chegar, de todos os lados. Mas a minha reação diante delas mudou bastante, com o passar do tempo.

Em média, as mulheres panamenhas têm 2,5 filhos (dois ou três, numa conta mais realista), de acordo com o último censo realizado no país. Ser boa mãe, esposa e profissional, além de estar sempre impecável é a receita de ouro para elas, como eu contei aqui. Poucas se atrevem a fugir dela.

Quanto às estrangeiras residentes, não há número oficial que trate de filhos. Mas basta dar uma volta por qualquer bairro aqui na cidade para constatar-se que sou uma grande exceção, e que nem sempre ser diferente é tão simples quanto deveria ser.

O Panamá é um país muito conservador quando se fala de moral, liberdades individuais, direitos das mulheres (sobre seus corpos, inclusive), modelos de família e orientação sexual, muito pelo seu histórico católico. De fato, 8 em cada 10 panamenhos se declaram seguidores desta religião, ainda que não sejam praticantes. O número de cristãos de outras linhas também é grande.

Por outro lado, existe uma grande discussão entre setores mais progressistas (e menos respeitados) da sociedade panamenha a respeito do estado laico (separação de estado e igreja, o que aqui na prática não acontece, porque o presidente faz parte da Opus Dei, corrente mais radical do catolicismo), união entre pessoas do mesmo sexo e ensino de educação sexual nas escolas.

Estes são temas tabu para a maior parte da população, como em outros países da América Latina (no Brasil, no rumo que o nosso país vem tomando, então, é melhor nem me aprofundar muito).

Dito isso, espera-se aqui que a fórmula de família tradicional (marido, mulher e pelo menos um filho) seja seguida à risca. Casos de pessoas do sexo feminino na minha faixa etária (40 e poucos anos) que não sejam mães não são apenas raros, como também muita vezes são mal vistos ou interpretados.

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Minha vida, minhas escolhas

Há um tempo fui fazer uma ressonância magnética e o enfermeiro puxou assunto, perguntando-me sobre o meu trabalho (à época eu ainda não tinha voltado a trabalhar), meu marido e meus filhos.

Ao ouvir que eu não era mãe, ele me encarou sério e disse “ah, então você não faz nada”. Achei melhor mudar de assunto, falar de futebol (era época da Copa), do trânsito ou qualquer coisa trivial que desse menos trabalho de explicar e argumentar.

Cada um tem sua história, sua trajetória e, por consequência, suas escolhas. Posso mudar de ideia ou me arrepender? Claro que sim: a vida é feita de mudanças de rota, a maior parte delas inesperadas. Só que na cabeça da maior parte das pessoas aqui há algo de inaceitável em não se ter esse plano de vida.

Já perdi as contas de quantas vezes já tive de responder se eu tinha algum problema de saúde, se eu não acreditava em Deus, se não gostava de crianças ou se meu marido era estéril.

Se a isso fosse acrescentada a quantidade de médicos especialistas em fertilidade que me foram indicados sem que eu houvesse pedido, certamente este texto seria bem mais longo.

Sozinha sim, mal acompanhada nunca

Além dos julgamentos anônimos, há também a questão social. Fazer amizades é extremamente difícil num meio em que você destoa da maioria na forma de pensar e na forma de viver.

Eu tenho várias amigas com ou sem filhos no Brasil e em outros países, e isso não é um ponto de fragmentação. É só marcar programas em horários possíveis para todas, organizar tudo e pronto. Se os pequenos forem também, a festa segue.

Mas aqui a coisa é mais complicada e bem polarizada: há a turma das mães e a das solteiras sem filhos. Por ser casada e não ter crianças, estou fora de ambas. Tenho poucas amigas (mães e não mães) aqui (brasileiras, colombianas e espanholas). As panamenhas não se misturam com quem destoe muito do estilo de vida delas.

Faz sentido: casais casados e com filhos andam com seus iguais (até pela logística de deixar as crianças brincando juntas, enquanto os pais conversam (o que pode acontecer também com gente que não tem filhos, mas deixa pra lá); os que são sozinhos por opção ou não casaram ainda, idem. Mas o pessoal da “zona cinza”, este limbo no qual eu e meu marido estamos, acaba tendo menos conexões.

Nada mais natural na vida que buscar a sua turma, o que infelizmente aqui no Panamá não é nem um pouco fácil. Tenho muitos conhecidos, mas pouquíssimos amigos por aqui, o que na verdade nunca foi um problema para mim (sempre fui bem independente e jamais deixei de fazer nada por estar sozinha). Mas tem dias que faz falta ter com quem conversar, dar risada e encontrar alguma forma de acolhimento.

E como de tudo a gente sempre tira um lado bom, venho me concentrando mais no meu trabalho, nos meus estudos, nas minhas questões pessoais e aprendendo a apreciar mais a minha própria companhia.

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Muito julgamento, pouca sororidade

Depois de responder às perguntas mais absurdas (como “para quem eu e o meu marido iríamos deixar as nossas coisas quando morrermos”, por exemplo) nas mais diferentes situações e ambientes possíveis, fui mudando e ficando menos irritada com esse tipo de coisa.

Tornei-me bem mais tolerante e mais paciente diante das olhadas desconfiadas, dos questionamentos invasivos (e muitas vezes desrespeitosos) a respeito de uma coisa tão pessoal.

Vejo a beleza da maternidade, admiro e respeito muito quem tenha escolhido a missão de criar um ser humano novinho em folha, educá-lo e conduzi-lo vida afora. Adoro crianças e sou uma tia apaixonada e dedicada aos meus pequenos sobrinhos.

Mas me incomoda muito sentir que a recíproca não é verdadeira não apenas entre os locais, mas também entre os latinos (brasileiros inclusive) que vivem aqui. Enquanto eu morar no Panamá, serei sempre “aquela esquisita que não quis ter filhos”.

Sobra julgamento, falta sororidade, esta empatia feminina tão antiga, mas que virou palavra da moda só agora. Há ainda muitas mulheres que me olham torto quando comento que não quis ser mãe, como se eu tivesse acabado de confessar um crime.

A meu entender, ter ou não ter filhos não confere a ninguém poderes e virtudes especiais, nem tampouco defeitos. Somos apenas seres humanos tentando viver da melhor forma possível, crescer e aprender, da maneira que escolhemos.

E por ter isso tão claro, minha reação diante desta enxurrada de questões hoje é evitar conflitos, mas se eles surgirem, manter-me calma e deixar para lá.

Este vem sendo um dos grandes aprendizados da minha vida aqui, no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo onde eu venha a viver: ser sempre gentil sempre, mas me importar muito pouco com o que pensam ou esperam de mim.

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