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O trânsito na Cidade do Panamá

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O trânsito na Cidade do Panamá.

Além do clima quente e úmido, algo que me impressionou quando viemos morar aqui na América Central foi o trânsito (ou o tranque, como se diz na gíria local) que, em combinação com a quantidade absurda de carros na rua resulta na maior fonte de estresse da minha vida aqui. Por isso, sempre que tenho qualquer compromisso fora do bairro onde eu moro (que é um pouco afastado da área central), saio de casa com bastante (às vezes horas) de antecedência.

Costumo aconselhar aos amigos e conhecidos que estão indo para o Caribe ou para os Estados Unidos e têm uma conexão de poucas horas aqui a nem sair do aeroporto. Mesmo a cidade não sendo tão grande, em questão de meia hora a aparente normalidade pode se transformar numa linha infinita de carros que não se moverá por muito tempo. Não vale o risco.

Quem é daqui ou veio para cá há mais tempo que eu conta que, nos últimos anos, a sensação é que o número de carros nas ruas mais que duplicou. Os dados mais recentes sobre compra e venda de veículos no país, regulado pela Autoridad del Tránsito y Transporte Terrestre (ATTT) não estão atualizados, mas o que eu pude acessar (de 2014) revelam que havia então 998,5 mil automóveis na capital, ou seja, cerca de 1,2 para cada família, levando-se em conta a população de quatro anos atrás, que era de 800 mil habitantes.

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Não duvido que esta informação sobre a duplicação dos veículos em uso seja correta, já que aqui, como no Brasil, é bem comum que haja quatro, até cinco carros por família. E como na nossa terrinha e Américas afora, o automóvel é um forte símbolo de status. Devido aos preços deste tipo de carro serem bem mais baixos aqui que em outros países, a cidade é lotada de SUV’s, aqueles carros altos e grandões, e pouca gente opta por veículos mais simples e ainda mais econômicos.

Os donos da rua

Mas não é só o excesso de veículos particulares nas avenidas e ruas da cidade o causador de congestionamentos inacreditáveis (já levei 2h para ir do centro antigo à minha casa, um percurso de, no máximo, 15 quilômetros). É a ausência de obras viárias que estimulem o crescimento dos modais públicos (metrô e ônibus, o primeiro em lenta expansão, e o segundo, sem corredores de circulação exclusiva).

Modais particulares alternativos, como ciclovias ou serviço de bicicletas públicas integradas ao metrô, por exemplo, nem passam pela cabeça do governo e da população local. São “coisa para europeu que não sua”, dizem jocosamente os locais. Concordo que o calor é um elemento a ser considerado, mas não deveria ser sempre usado como desculpa para a não realização de várias melhorias.

Outro fator complicado nesta equação é a educação no trânsito, tanto no que se relaciona à formação de novos condutores quanto à cortesia ao volante. Tirar carta aqui é muito mais fácil que no Brasil, porque o futuro motorista não terá de aprender todas as regras de trânsito, decorar o significado das placas e nem tampouco estudar direção defensiva.

A prova prática é também mais fácil do que a brasileira, e também existem muitos rumores de cartas “compradas”, o famoso jeitinho que não é só brasileiro, é latino-americano e de muitos outros países mundo afora. Por meio deste processo mais simples e rápido (os valores pagos são semelhantes), mais pessoas saem às ruas pouco preparadas para enfrentar o difícil trânsito panamenho. Aqui ninguém cede passagem e a preferencial nas rotatórias é sempre de quem tiver a sorte de entrar na frente antes, para se ter uma ideia.

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E as pessoas?

Contrariando o que Jan Ghel, arquiteto, urbanista e estudioso de mobilidade urbana dinamarquês que defende a ideia de que as cidades devam ser adaptadas às necessidades das pessoas (recomendo muito a leitura deste livro dele para quem se interesse pelo tema), Panamá foi totalmente pensada para e em torno dos carros.

Para além do urbanismo, isto se nota também na arquitetura: existem vários edifícios aqui que tampouco têm entrada para os pedestres. Sabe aquela clássica entrada de hotel, em que o carro te deixa na porta, você tira as malas e vai embora? Muitos são assim, como em várias cidades norte-americanas também. Mesmo depois de tanto tempo vivendo aqui, ainda acho isso muito estranho.

E há o polêmico tema do caminhar: muita gente não o faz por conta do calor, cuja sensação se amplia muito pela falta de arborização e, consequentemente, de sombra em grande parte da cidade, principalmente nos bairros ditos mais nobres. É diferente de, por exemplo, andar em Copacabana numa temperatura de 30 graus (a que temos no dia de hoje), quando sempre há alguma brisa e áreas sombreadas para dar uma amenizada. Como aqui não é assim, o jeito é fazer tudo de carro, o que eu particularmente acho péssimo.

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Para completar o quadro, há a falta de calçadas ou o estado muito precário de conservação delas, em vários bairros. Neste último caso, além de coragem (os motoristas não estão nem aí para os pedestres, e eu mesma já quase fui atropelada algumas vezes) é necessário um pouco de preparo físico e cuidado para uma simples ida à farmácia.

É tanta pedra, entulho, piso escorregadio, cocô de cachorro, terra e lixo – inclusive em trechos aqui em Costa del Este, bairro onde eu moro e é considerado “nobre” – que o cidadão terá de ter estar atento e ter boas pernas para evitar escorregões, além de subir, descer e desviar disso tudo.

Opções para quem não quer dirigir

Meu marido e eu optamos por não ter carro aqui logo ao chegar. Como o escritório da empresa onde ele trabalha fica a exatas três quadras de casa, nós não temos filhos e, para completar, eu odeio guiar (em São Paulo eu já não dirigia e usava só ônibus, metrô, Uber e Cabify), concentramos a maior parte das nossas atividades aqui aqui no bairro, saímos nos horários em que o calor é menor, e vamos ao supermercado sempre à noite, de bicicleta (coisa pouco comum aqui) ou a pé.

Pra deslocar-me para outras partes das cidade, utilizo ônibus (quando o compromisso não tem hora marcada, porque eles sempre atrasam muito, conforme comentei no meu texto anterior sobre o transporte aqui) e os nossos companheiros apps de transporte, que aqui funcionam bem melhor que os táxis, além de serem bem mais econômicos.

Comentei brevemente sobre o serviço de táxi no meu texto anterior. Os “amarillos”, como são chamados aqui por imitarem a cor deste tipo de veículo em Nova York, são motivo de queixa de toda a população, seja local ou estrangeira. Apesar de legalizado, o serviço prestado por eles não é regulamentado e nem fiscalizado com rigor.

Com isso, há nas ruas muitos carros caindo aos pedaços, negando-se a levar passageiros a distâncias muito curtas ou muito longas, e outros ainda que levam muitos passageiros ao mesmo tempo, numa espécie de Uber Pool bem mais cara e desconfortável. Como não há taxímetro, os valores têm de ser negociados com o motorista logo ao entrar no carro, e flutuam de acordo com o humor dele ou o sotaque do passageiro.

Eu evito os táxis aqui ao máximo. Quando o fiz, foi em caso de emergência, como quando acabou a bateria do meu celular e não tinha como usar os aplicativos, ou outra vez que estava atrasada para uma aula. Por isso, se vier para cá, use o Uber ou Cabify desde o aeroporto, que oferecem um serviço bem melhor. E o melhor, sem surpresas no valor final.

 

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