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Verão no Panamá – as dores e delícias de se morar num lugar “caliente”

Verão no Panamá – as dores e delícias de se morar num lugar “caliente”.

Ah, o verão! Como é bom poder usar rasteirinha, short, vestidos vaporosos, ir à praia, à piscina, tomar sorvete toda hora e até aquela cervejinha no final de semana, certo? Sim! Mas a minha relação com o verão – que nunca foi minha estação preferida, mas que sempre curti o quanto pude (de preferência, com o pé na areia) – mudou completamente desde que nos mudamos para o Panamá.

O principal motivo desta minha “birra veraneira” é o clima panamenho, quente o ano todo. Aqui há uma estação seca, que começa em finais de novembro e inícios de dezembro, e vai até o começo de abril, e outra, entre úmida a molhada (com muita chuva e inundações, em setembro e outubro) abarcando o restante do ano. A temperatura média anual é de 27 graus.

É uma situação climática muito semelhante à da Região Norte, de algumas cidades do Nordeste e outras do litoral de todo o Brasil: calor e umidade o tempo todo. Mas quem vem de um lugar com as estações melhor delimitadas (ainda que hoje em dia as coisas venham se embolando muito, devido ao aquecimento global) e que não seja um grande fã de calorão pode sentir um pouco – ou muitíssimo, como no meu caso.

Eu tenho uma amiga que mora em Dubai, que diz que eu reclamo de barriga cheia: no verão de lá pode-se ter a sensação térmica de 60 graus: acho que eu desmaiaria todo dia com essa temperatura, ou só sairia de casa à noite.

Antes de virmos morar no Panamá eu nunca havia estado aqui. O único lugar da América Central que conhecia era a Costa Rica, para onde havia vindo a trabalho há muitos anos, e lá as temperaturas são mais amenas.

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Mas pelos relatos do meu marido, que vinha frequentemente para cá por conta de reuniões de trabalho, este seria um dos pontos difíceis de lidar com a vida cotidiana aqui. E ele me conhece bem e sabe do meu pouco apreço pela umidade e por ficar suando litros ao se andar apenas uma quadra.

Clima quente, gente formal

Por conta do clima, a vida na cidade foi toda desenhada para os carros (pouquíssimas pessoas andam a pé, como já comentei neste texto aqui), ninguém pedala se não por exercício (também contei isso, no mesmo texto anterior) e em quase todos os lugares onde você entra, de supermercado a bares, a temperatura do ar-condicionado varia entre o polar e semi-ártico.

Por conta deste último ponto, a gente tem sempre que andar com uma jaquetinha ou casaquinho na bolsa pra não morrer de frio nos lugares fechados. E engana-se quem pensa que por ser um lugar caliente as pessoas usam roupas informais: mesmo com os 37 graus típicos da estação, os panamenhos usam calça com a camisa para dentro, cinto, sapato e camisa (que às vezes podem ser trocados por uma polo ou sapatênis nos pés). No cinema, até hoje só vi meu marido e outros estrangeiros desavisados de bermuda.

As mulheres estão sempre arrumadas, como eu contei aqui. Ai de quem prenda o cabelo, saia de chinelo, saia e camiseta para uma consulta médica (como eu já fiz, nos meus primeiros meses aqui). Ou, ainda, quem ouse sair de shorts ara buscar os filhos na escola, como uma amiga minha contou ter feito outro dia e, por isso, se tornado vítima de olhares fuzilantes por parte de outras mães e pais.

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Nunca vou me esquecer de uma vez em que eu fui a uma palestra sobre a obra de Juan Rulfo (um dos maiores escritores mexicanos da história, que teria feito 100 anos no ano passado). Isso aconteceu em um centro cultural no Casco Viejo, a parte antiga da cidade, e foi com certeza uma das situações mais nonsense da minha vida aqui até este momento.

Era fevereiro, mês fervoroso, para ficar num adjetivo leve. Estava acostumada a frequentar este tipo de ambiente no Brasil, sempre informal. Mas eis que entro no lugar e, imediatamente, me transformo naquelas crianças cujas mães esquecem que era o “dia da fantasia” e mandaram-nas de uniforme para a escola.

Todo mundo super arrumado, como se estivesse num casamento, com direito a paetês, saltos mil e gravatas borboleta (cujo nome em espanhol, pajarita, é muito mais simpático). Relembrando: era uma palestra, uma coisa que em qualquer cidade grande é frequentada por estudantes, artistas, profissionais liberais e gente normal e relaxada, e não um baile de gala.

E eu de sandálias de couro, saia comprida, cabelo preso num coque todo bagunçado, regata, colar e pulseira simples, e zero maquiagem. Para os meus padrões, estava normal e até arrumadinha para o clima infernal, digo, de verão eterno, mas para os locais eu estava claramente fora de lugar.

Não teve um que não me olhou com cara de interrogação. Hoje eu dou risada e não ligo mais para nada disso, mas no dia me senti bem mal e quase fui embora, depois da décima pessoa passar por mim olhando feio.

Até pouco tempo, eu só tinha usado calça aqui para viajar de avião, mas com a temporada de chuvas, as idas mais constantes a lugares em que o termostato estava no modo “ideal para pinguins” (como hospitais, lojas e supermercados) e um pouco de cansaço de usar as mesmas roupas, passei a incorporá-las de vez em quando à minha rotina. Mas meu marido continua resistente, e só usa calça para trabalhar e viajar. Raramente encara um jeans.

A ditadura do ar-condicionado

A onipresença do ar-condicionado causa outros dois problemas que quem mora em regiões frias também enfrenta: conta de luz altíssima (a da nossa casa sempre chega nos três dígitos, e olha que somos uma família de dois) e constantes ataques de rinite, sinusite e gripes fortes.

Quem tem a sorte de morar em um apartamento que tenha ventilação cruzada (janelas em lados opostos da casa) não sente isso, mas quem, como eu, vive em lugares onde bata sol o dia inteiro vira refém do tal do aparelho. Como eu trabalho em casa, não tenho escapatória.

Nem tudo são espinhos

Muitos dos leitores devem estar pensando que eu sou uma chata reclamona. Quem não ia querer morar num paraíso tropical (alerta de spoiler: aqui na cidade tem mar, mas não tem praia)?

Meus amigos e familiares que moram em lugares frios vivem brincando que queriam trocar de lugar comigo. Sei que encarar a neve, pagar a conta do aquecimento todo mês, sair encapotado todos os dias e ter de encarar vento frio queimando a cara é dose.

Mas viver num verão eterno rouba aquela expectativa gostosa dos dias mais longos, de comprar biquíni (aliás, os daqui seguem a moda local, bem distante do meu gosto mais minimalista, e por isso deixo para comprar os meus no Brasil), ver o povo mais animado nas ruas, de combinar aquela cervejinha de fim de tarde com os amigos.

Parece que o ano tem um curso diferente, uma passagem estranha que, mesmo depois de quase dois anos vivendo aqui, ainda me incomoda muito. Quem vem da Europa, em que a mudança das estações é ainda mais festejada deve sentir isso ainda mais fortemente, ainda que eu conheça alguns que adoram o clima local.

Mesmo a cidade não tendo praia – o mar é rodeado por mangues tristemente cheios de lixo, em algumas partes, e aterrado em outras – ajuda o fato de quase todos os edifícios (dos mais simples aos supostos sofisticados) terem piscina e área social para se fazer um churrasco com a turma.

Não há botecos com mesa na calçada e nem se pode andar sem camisa tomando uma latinha de cerveja na rua (aliás, você pode ser preso se fizer isso aqui), mas há uma grande quantidade de bares em terraços (os famosos rooftops) em vários lugares da cidade.

Dá para tomar um drinque e, de quebra, admirar a vista, mas tendo-se em mente que os preços destes lugares são bem altos durante todo o ano, e especialmente estratosféricos no verão. Não rola passar a tarde bebendo e vendo a paisagem, a menos que você tenha ganho no jackpot nos muitos cassinos da cidade (beber na rua é proibido, mas o jogo é liberado).

Para os fãs da água salgada, há algumas praias razoáveis a pouco mais de 1h de carro da cidade, do lado do Oceano Pacífico, mas as mais bonitas estão do lado do Atlântico (o Mar do Caribe), como os lindos arquipélagos de San Blas (2h de carro e mais 1h de barco, em média) e Bocas del Toro (10h de ônibus, sete de carro ou 35 minutos de avião mais 1h de barco, também em média).

Mas um aviso: como falei lá em cima sobre os rooftops, viajar internamente no Panamá é caro, e muitas vezes vale mais a pena ir para outros pontos do Caribe que para alguns destes lugares que citei. Durante quase todo o ano, é mais barato ir para Curaçao ou Aruba que para Bocas del Toro, com hospedagem e passagem aérea incluída, por exemplo.

Vale ressaltar que a estrutura do turismo aqui também não é das melhores, mas encontra-se opções para diversos bolsos e gostos. Há que sempre se fazer vista grossa para o atendimento nem sempre cordial e muitas vezes demorado em bares, restaurantes, pousadas e hotéis. O jeito é achar uma forma de aproveitar o lado bom do verão, relaxar, abraçar o calor e se divertir.

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1 comentário

Amana Stringari Janeiro 22, 2019 at 7:28 pm

Ana, concordo 100% com tudo o que vc falou! Morei alguns meses no Panamá e o calor, dentro outros, foi um dos principais motivos para eu e meu marido decidirmos nos mudar pros EUA. A umidade faz com que suemos o tempo todo aí.
E também me impressionava muito como os panamenhos vivem bem vestidos, até estranhamente formais para qualquer ocasião.
Boa sorte pra vc! Abraço!

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