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China

O primeiro ano em Xangai

O primeiro ano em Xangai

Recém-chegada de um intenso e ensolarado dezembro no Brasil, regada a um bom arroz com feijão, extremamente mimada pela mamãe, churrascos com os amigos e conversas em língua nativa (como é delicioso, às vezes, falar APENAS o nosso bom e velho português), pouso em Xangai com minha filha após dois longos voos e uma olheira daquelas que só quem está há dois dias sem dormir consegue ter tão profunda.

O frio estava de doer e o tempo, tão cinza que mal dava para ver os gigantes arranha-céus que têm por aqui, – e olha que são muitos!

No caminho de volta para casa, no carro, entre meu marido contando as novidades enquanto eu estava fora e minha filha brincando no tablet, veio a lembrança de como tudo isso começou e vim parar em solo chinês.

“Sabe aquela oportunidade de morar fora do Brasil que a gente tá esperando há tanto tempo? Vai rolar e vamos ser expatriados por, no mínimo, três anos na China”, avisa meu marido, na mais pura tranquilidade e paz, que só um pisciano nato possui.

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Oi? Em primeiro lugar, dá pra me explicar exatamente o que é esse tal de expatriado e em segundo, China? Não tinha um lugar mais longe pra gente ir não?! E agora? Incrível como a mente humana pode pensar tanto em um décimo de segundo! Acho que tive uns 300 mil insights e inseguranças naquele momento.

Eu, mãe, jornalista e aspirante a psicóloga (estava no segundo ano do curso), pensei MUITO a respeito. Uma coisa é ter a vontade de morar fora do país, outra é se concretizar e você ter que arrumar suas coisas e ir para o outro lado do mundo em 3 meses!

Na minha mais absurda e vergonhosa ignorância achei que ia me deparar com espetinhos de grilo e escorpiões a cada esquina e pobres cachorrinhos sendo vendidos como carne moída no mercado. O que vou fazer? O que vou comer? Como vou viver? Será que minha filha terá um ensino decente?

Depois de 300 mil “googladas” em China, Xangai, costumes chineses, mandarim, escolas, etc, diversas ligações com as perguntas mais malucas e idiotas para as esposas que já estavam morando aqui (obrigada pela paciência, meninas!), milhares de opiniões de pessoas queridas e outras nem tanto e trocentos vídeos no YouTube, decidimos – com um pouquinho de dor no coração – deixar a família, mas com uma vontade enorme de sair da nossa zona de conforto, pois aquela era a oportunidade certa na hora certa: filha pequena, marido em ascensão na carreira e mamãe disposta a encarar a mudança radical de vida.

E, assim, iniciamos essa louca jornada no dia quatro de janeiro de 2018, um frio horroroso, assim como hoje, no dia em que escrevo este texto.

O inicio foi fácil? Óbvio que não. Tive muitos problemas com a adaptação da minha filha no colégio que chorava ininterruptamente três meses na porta do ônibus escolar. Como boa brasileira que sou, também não sabia colocar do jeito correto as roupas de frio nela (a coitada saía de casa como um robô), não tive paciência para aprender o mandarim no início e nem a curiosidade para entender a cultura dos chineses. Generalizava que todos eram mal-educados e grossos, então, optei, durante um tempo, por não sair de casa (péssima escolha para quem tem rodinhas no pé e não aguenta ficar parada) e comecei a viver numa “bolha”.

Minha cabeça estava focada no Brasil e eu não conseguia perceber que estava vivendo uma outra realidade um “pouquinho” diferente da nossa.

Certo dia, com a cara da derrota estampada no rosto, fazia compras no mercado perto de casa. Encontrei uma conhecida que mora há anos aqui, e, que talvez por dó, ou quem sabe estava passando pelo mesmo, ao me ver tão pra baixo me disse algo que levei a ferro e fogo: “Não estamos acostumadas com esse frio e isso, realmente, deixa a gente bem mau-humorada. O verão vai chegar e é libertador, você vai ver”.

Os meses passaram, e levaram consigo aquele frio depressivo que tanto me incomodava. Junto, também foi um pouco da minha angústia. Ganhei um sentimento de empatia e um pouco de serenidade, algo que eu realmente estava precisando de doses extras.

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E lá estava o mês de abril. As roupas já não eram tão pesadas, o calor e o sol começavam a dar as caras, o povo decidiu sair da toca e os restaurantes e barzinhos começaram a encher, dando um colorido novo e animado à metrópole que eu, até então, não conhecia. Os chineses mal-educados tornaram-se amigáveis, minha filha começou a adorar a escola. O mandarim? Continua complicado.

O que aconteceu com o bicho da insegurança que me picou quando cheguei?

Clichês a parte, realmente o tempo é o melhor remédio para tudo. Esse mês, completando meu primeiro ano de China, brinco que: como todo bebê, estou na fase do explorar e quero ver e saber tudo o que esse lugar surpreendente tem a me oferecer. Sei que enfrentei apenas mais um obstáculo nessa jornada, mas garanto que tudo se tornou bem mais leve e divertido com o passar dos dias.

Frio deprê de janeiro? Ainda temos. Assim como todos que moram fora do seu país, a tal montanha-russa de emoções é constante, mas também temos muito amor dos que vivem na mesma situação que a nossa. Além disso, há chineses muito prestativos que se entregam como melhores amigos depois que têm mais intimidade com você. Existe segurança ao andar na rua 24 horas por dia, o transporte público é maravilhoso! Há atrações para todos os gostos, restaurantes deliciosos, museus interessantíssimos, ensino de primeira qualidade e lugares incríveis em cada canto da metrópole só esperando para serem explorados.

Espero, a partir de hoje, poder dividir com vocês um pouco da minha experiência e mostrar para aqueles que estão passando por essa situação que eu estive um ano atrás, que… calma! Vai dar tudo certo, no final tudo se ajeita e o tempo, sem dúvida é sempre o nosso melhor amigo.

Até a próxima!

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