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Irlanda

Os desafios da transição de estudante para residente na Irlanda

Neste texto vou compartilhar com você os desafios, dificuldades, as dores e as delícias da minha fase de transição de estudante para residente na Irlanda e de readaptação à vida no País, mais especificamente em Dublin.

A primeira vez que saí do Brasil foi com destino à famosa Ilha da Esmeralda, terra de “San Patrick”, em agosto de 2015. Embarquei como estudante em busca de aprimorar o inglês, conhecer um novo país e experimentar uma nova cultura, mas também na esperança de poder explorar a Europa e, por último e inconscientemente mais importante, pela primeira vez no auge dos meus 29 anos, viver a minha vida longe de tudo e de todos, à minha maneira.

As expectativas eram muitas e a vontade de viver essa aventura era tão grande que não deixava brechas para o medo. “E se não der certo?” – Eu me perguntava, mas logo parava para pensar e me respondia: “Quem decide o que é ‘dar certo’ sou eu e então, já deu tudo certo”. Essa confiança era o entusiasmo de alguém que ainda não sabia ao certo o que esperar.

Chegando na Irlanda, senti na pele a primeira dificuldade de todo estudante: encontrar acomodação. Eu que nunca havia dividido casa nem em época de faculdade, passei a desesperadamente caçar uma vaga em alguma casa para dividir um quarto com pessoas que eu nunca havia visto na vida. Que luta! Procura anúncio, agenda visita e se gostar da casa enfrenta a entrevista com os atuais moradores. Processo exaustivo física e psicologicamente, uma vez que você normalmente só recebe o resultado da entrevista um ou dois dias depois.

Depois de conseguir a casa, se adaptar à rotina de estudos e terminar o processo de obtenção do visto de estudante – sim, o visto de estudante é concedido aqui e não antes do embarque –, chega um outro momento de busca: a caça ao emprego.

Viver como estudante na Irlanda, salvo pequenas exceções, é sinônimo de trabalho em áreas que você ou nunca tenha trabalhado no Brasil ou talvez tenha feito no início de sua carreira. São funções mais simples, e não menos honrosas, que exigem mais do físico do que do intelecto em si, e por aqui entre a comunidade brasileira são chamados de subempregos. Para os meninos, os cargos mais comuns são kitchen porter, rickshaw e bartender. Para as meninas, os mais comuns são childminder/au pair, cleaner e waitress. E sim, eu passei pelas três profissões durante o meu visto de estudante de intercâmbio.

A rotina corrida e o trabalho árduo foram compensados com viagens para Barcelona e Roma, por exemplo, o que me deixava orgulhosa de mim mesma, das minhas lutas e conquistas. Mas chega uma hora que cansa. O desgaste físico muitas vezes era mais fácil de recuperar do que o psicológico, e cada vez que eu desanimava, bastava pensar que era uma fase. Afinal, o que aquele trabalho estava me proporcionando eu não tinha recebido nem mesmo com título de pós-graduada no Brasil. E tendo ciência de que isso fazia parte da experiência de crescer e amadurecer, eu apenas aceitei e agradeci.

Um ano depois, voltei para São Paulo e consegui rapidamente me recolocar no mercado de trabalho em uma ótima empresa mesmo em meio à crise. A cara de surpresa de alguns colegas ao me ouvir contar sobre minhas experiências profissionais na Europa era de se esperar. Em um país onde a desigualdade social e salarial é tão grande, fica difícil de acreditar que uma garçonete tenha viajado tanto.

Um casamento e oito meses depois, volto à Dublin. Como é bom estar de volta à cidade que te acolheu e que te faz sentir em casa. Agora já não mais como estudante e sim como esposa de cidadão europeu, possuidora do “stamp 4”. Este visto que na cabeça de muitas pessoas é sinônimo de vida melhor com mais oportunidades de emprego, tornando muito grande as chances de continuar sua carreira original. E ele realmente possibilita alguma vantagem, mas não é garantia.

Fazendo um paralelo entre a minha fase anterior e a fase atual, posso dizer que: as dificuldades não desaparecem magicamente ao mudar de estudante para residente. Você continua a não ser um irlandês! Certas dificuldades persistem. Se antes era difícil conseguir um quarto para dividir com desconhecidos, imagina conseguir um quarto exclusivo para casal? E alugar um apartamento só para vocês, então? Conseguimos essa façanha, mas não foi fácil e o preço que se paga por esta exclusividade não é nem de longe justo. Vale informar que Dublin vem sofrendo com uma crise imobiliária, o que torna difícil conseguir moradia até para cidadãos locais.

Enfim, seguindo o paralelo: o processo de obtenção do visto de residente (como esposa de europeu) não é mais fácil ou menos complicado do que o de estudante. A burocracia persiste e a reunião de todos os documentos requisitados pode levar um tempo, principalmente o registro de inquilinos no órgão responsável, documento que deve ser enviado junto com o contrato de locação. Conseguir um agendamento na imigração para datas próximas também é quase impossível, mesmo sabendo que você só está autorizada a trabalhar depois de conseguir o visto.

Depois da saga do visto, eis que chega a hora da busca pelo emprego. Agora sem a limitação de poder trabalhar somente 20 horas por semana como estudante, as opções de emprego realmente são em maior quantidade e melhor em salários e benefícios. Ter um perfil no LinkedIn com boas conexões e fazer uma cover letter para cada currículo enviado, passa a ser crucial. A maneira de aplicar para as vagas de emprego já não é tão simples como quando na fase de estudante. Os desafios são maiores devido à língua, que mesmo em um bom nível, não é a nossa nativa e isso gera uma certa insegurança tanto por parte do candidato quanto do recrutador.

A vontade de voltar para o subemprego bate, mas a pressão de carregar consigo o título de “portadora de visto estampa 4”, o detalhe que impede muitas brasileiras de brilhar em suas carreiras originais por aqui, me faz persistir na busca. Casos de brasileiras bem-sucedidas na Ilha da Esmeralda já virou evento e rede de networking, e essa troca de experiências é a minha esperança de que a minha hora vai chegar.

Assim, concluo que viver como estudante ou como residente na Irlanda é maravilhoso. Não é fácil em nenhum dos casos, mas cada um tem as suas vantagens. Ainda sinto saudades dos descontos em lojas, cinemas e transporte com a carteirinha de estudante, mas a preocupação com a renovação do visto a cada oito meses passou a fazer parte do meu passado. E é assim como em tudo na vida que tem seus altos e baixos, basta você decidir que já deu tudo certo e assim será. Eu continuo acreditando nisso!

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6 comentários

Cris Fernandes Dezembro 7, 2017 at 1:07 am

Annaline, estou muito feliz por você, e tenho orgulho das suas conquistas! Parabéns e saudades!
Cris/ Esmeralda, ex- HSM.

Resposta
Annaline Stepien Janeiro 4, 2018 at 9:46 pm

Olá, Cris! =D
Muitíssimo obrigada, de coração mesmo! Muito me alegra saber que você dedicou uns minutos do seu tempo pra ler meu texto. Agora vou até caprichar mais. rsrs Ah! Se puder, por favor, confira os outros também e deixe sua opinião. Ela é muito válida.
Saudade dos tempos de HSM também.E claro, da Esmeralda! rsrs
Bjs

Resposta
Camila B. Dezembro 11, 2017 at 3:30 pm

Lindo texto!

Resposta
Annaline Stepien Janeiro 4, 2018 at 9:47 pm

Muito obrigada!
Já conferiu os outros depois desse? 😉
Ajuda aí, amiga. rsrs
Bjs

Resposta
Isabela Agosto 28, 2018 at 2:49 am

Muito bom o texto ! Obrigada por compartilhar sua história e experiência nessa plataforma ! Gostaria de perguntar uma coisa sobre esse visto. Meu noivo é britânico e vai mudar para a Irlanda, para trabalhar e residir. Depois do nosso casamento, pretendo aplicar para o stamp 4. Existe exigência financeira ? Um valor mínimo que ele precisa ganhar como sponsor para eu poder aplicar ? Obrigada pela atenção.

Resposta
Liliane Oliveira Agosto 28, 2018 at 2:25 pm

Olá Isabela,
A Annaline Stepien parou de colaborar conosco e, infelizmente, não temos outra colunista morando no país.
Obrigada,
Edição BPM

Resposta

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