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Passeio pela Calea Victoriei, em Bucareste

Passeio pela Calea Victoriei, em Bucareste

Uma lufada de ar fresco da primavera recém-acordada acolhe o turbilhão de passageiros saídos do metrô, estação Victoriei. À sombra fria dos prédios, fecho a gola da parca, andando em direção oposta ao tradicional quiosque de flores. É quando volto a encontrar o sol, acobertada que estou por um céu de azul límpido, iluminando as calçadas movimentadas da famosa Calea.

Calea, em português, equivale a caminho e, sendo assim, trata-se de uma rota urbana secular. Em 1692, a Uliţa Mare, ou grande rua, foi pavimentada em madeira por Constantin Brâncoveanu, soberano da região, abrindo passagem da Velha Bucareste em direção ao seu palácio, o Palatul Mogoșoaia. Rebatizada “Victoriei” após a Guerra da Independência de 1878, a longa avenida é coração e símbolo da cidade, misturando o antigo com o moderno e o sofisticado com o simples.

É pela sua ciclovia que se pedala em direção aos seus parques e museus, nos momentos de lazer. É também nas suas igrejas onde se celebram boa parte dos batizados da estação, seguidos por calorosos almoços nos pátios convidativos dos seus muitos restaurantes. Já o miolo do seu Centro Antigo, abre espaço para bares e festas até o sol raiar. Foi em seu asfalto que se travou a Revolução de 1989 e, atualmente, a sua praça, a Piața Victoriei, convoca os romenos para se reunirem em importantes protestos. A impressão é correta: a cidade tem comemorado alegrias e debatido ideais às margens de uma mesma avenida.

Museu a céu aberto, a Calea Victoriei embeleza Bucareste, abrigando palácios, igrejas  e monumentos que marcaram épocas. Em meio a tantas singularidades, convido-os a conhecerem quatro de minhas construções e cantinhos preferidos, por coincidência (ou gosto), todas de uma mesma era, aquela que, a meu ver, mais orgulha os romenos: o entre séculos XIX e XX, tempo associado à riqueza e à esperança do nascimento de um país. Sigam-me!

Muzeul Național George Enescu

Muzeul Național George Enescu – Foto: acervo pessoal

Alocado no antigo Palatul Cantacuzino, o prédio que hoje abriga o Museu George Enescu ganhou, aos meus olhos, o título de mais belo da cidade. Construído em estilo art nouveau, ao cruzar seus portões somos recebidos por conchas gigantes que nos transportam aos primeiros anos do século passado. O palácio marca a prosperidade de um pais recém-unificado, cuja capital foi enfeitada ao ponto de ser conhecida como a “Paris do leste”.

Pelas salas do museu, uma estória de amor. George Enescu foi um importante compositor clássico que se casou com a princesa Maria Cantacuzino, carinhosamente conhecida como Maruca. George e Maruca abriram mão dos aposentos pomposos para se instalarem, com mais aconchego, em um mimo de casa, localizada aos fundos. A visita tem gosto de sinfonias, paixões e ostentações de tempos outros.

Ateneul Român e Strada Nicolae Golescu

Strada Nicolae Golescu – Foto: acervo pessoal

Continuando o passeio, a próxima parada é o Ateneu Romeno, sala de concertos para apresentações como as da Filarmônica George Enescu, de quem falamos há pouco (na Romênia, George Enescu é uma figura respeitada e popular, existindo ruas, praças e monumentos em homenagem à sua memória).

Construído no final do séc. XIX, a casa está aberta à visitação, mas o melhor mesmo é conhecê-la assistindo a algum espetáculo. De inegável estilo neoclássico, o saguão oval em mármore rosado nos leva por uma de suas escadas à sala principal. É lá que encontramos o colorido do seu famoso afresco que, ao contornar o teto da grande câmara, conta-nos passagens da história romena.

Visitamos o Ateneul durante a apresentação de um coral. Acomodados nas cadeiras de veludo vermelho, sentimos um pouco do amor pela música cultivado por muitos romenos. Ao final da apresentação, o público foi convocado a cantar uma canção popular em uníssono com os cantores, deixando a sensação estrangeira de pertencer descabendo, uma vez que a letra era desconhecida, mas o sentimento de se reunir enquanto nação em torno de uma música, sempre familiar.

Atrás do Ateneul, situa-se uma das ruas mais encantadoras de Bucareste, a Strada Nicolae Golescu. São quarteirões entre o despojado e o elegante, com boas opções de restaurantes, bares e cafés. Aproveitando a simpatia do ambiente, aqui a gente faz uma pausa para tomar um cafezinho acompanhado por Pavlova, sentados em uma das mesinhas dispostas na calçada do Mara Mura, ou, quem sabe, bebericar um Moscow Mule, no balcão do Salon Golescu.

Palatul Cesianu-Racoviță

Palatul Cesianu-Racoviță – Foto: acervo pessoal

Seguindo o nosso passeio, peço licença para sair um pouquinho da Calea Victoriei e virar à esquerda, na Strada Rosetti. Em poucos passos, encontramos a Galeria Artmark, cuja sede funciona nas salas do Palácio Cesianu-Racoviță, uma dessas jóias bem guardadas pela cidade.

Igualmente em estilo neoclássico, o palácio nos impressiona, ainda mais, ao visitarmos o seu interior. Extremamente bem conservado, as salas continuam a exalar a opulência da época, com lustres, tapeçarias, vitrais e castiçais originais. Além do ambiente vistoso, não vamos esquecer de que ali funciona uma galeria, expondo em suas paredes obras de arte e peças antigas, geralmente vendidas em leilão. A entrada é gratuita, tornando a visita uma parada perfeita para aquele momento tranqüilo, apreciando coisas bonitas.

Grand Hôtel du Boulevard

Grand Hôtel du Boulevard – Foto: acervo pessoal

Situado no cruzamento da Calea Victoriei com o Bulevardul Regina Elisabeta, o Grand Hôtel du Boulevard enche os olhos de quem por ele passa. Hotel luxuoso do final do séc. XIX, serviu de quartel general para as tropas alemãs (1941 – 1944), sendo posteriormente utilizado como prédio público durante o regime comunista (1950 – 1974). Desativado de suas antigas funções, alguns escritórios funcionam em seus andares superiores, podendo-se alugar os salões para eventos e conferências.

Foi assim que tive a oportunidade de visitá-lo. A cada semestre, o V for Vintage promove um bazar de moda com designers romenos, além de, como o nome indica, uma feira de peças vintage. Na ocasião, o piso térreo do antigo hotel fica tomado por araras recheadas pelas criações dos estilistas locais mais interessantes, atraindo um público criativo que termina por fazer um contraste atraente entre as colunas de mármore e os lustres imensos de cristal. Havendo a chance, vale a visita.  

Bom, terminado o tour pelo mundo suntuoso dos palácios de outrora, já andamos mais de 2 km, desde a estação Victoriei, onde descemos do metrô, até as portas do Grand Hotel. Talvez, você queira continuar o passeio, entrando em meio às ruas de pedestre da Cidade Antiga. Como já fiz isso algumas vezes, prefiro pegar o metrô de volta para casa, ali perto, na estação Universitate. Mas, antes disso, sugiro pararmos para cachorro-quente e cerveja na Victoriei 18, afinal, depois da caminhada e de tanto tempo em pé, estamos famintos, certo? Certo! Bom apetite e aproveite o resto da visita!

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