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Quando resgatei meu patriotismo

Quando resgatei meu patriotismo.

“Sete de setembro, data tão festiva, foi a independência dessa terra tão querida…”. Esta era a música que me recordo cantar todo o mês de setembro em minha escola do ensino fundamental, em comemoração a independência do Brasil. Época em que, ao menos uma vez por semana, todos os alunos se reuniam no pátio e antes de começar as aulas cantavam o hino que, claro, era trabalhado nas aulas para que todos os soubessem com esmero. 

Éramos crianças apaixonadas e orgulhosas pela nação verde e amarela e que mesmo não sendo ativistas, nos sentávamos em frente a televisão para acompanhar e torcer pelas “diretas já” e pelo resgate da democracia. 

Estudar a história do pais era um deleite, mesmo com algumas fundamentações equivocadas. Apontar cada estado no mapa e saber na ponta da língua a capital de cada um deles era um motivo de felicidade mais do que uma obrigação para os exames escolares. 

Mas quando foi que tudo isso se perdeu? Quando deixei de admirar o Brasil e a desejar ter nascido em outro país? 

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Não sei exatamente, mas talvez quando adquiri um maior realismo e senso crítico, quando na vida adulta me deparei com os inúmeros e altíssimos impostos a pagar sem um contraponto a contento, quando passei a não fazer do futebol o único sinônimo do país, quando fui obrigada a votar e assim inteirar-me verdadeiramente da política.

Acho que não tenho a resposta exata a essa indagação, porém o que sei é que meu patriotismo se escorregou pelo ralo e chegou ao esgoto. Confesso que critiquei em demasiado o país, como muitos brasileiros, e sem buscar mudanças, pelo contrário, anulei alguns votos, chamei de vagabundos os verdadeiros manifestantes e me gabei ao adquirir uma nacionalidade europeia;  como se isso fosse apagar a minha identidade. 

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Até pouco tempo atrás torcia para a seleção canarinha perder o Mundial e até curtia as derrotas, taxava o povo de otário, como se eu não fizesse parte dessa massa e acreditava que só o brasileiro era desrespeitoso e mal educado.

O resultado de todo esse desafeto com o meu pais foi não encontrar uma camisa verde amarela para vestir em dia de jogo da seleção, foi buscar lugares pelo mundo com a mínima presença de brasileiros, foi evitar falar português em público para negar a minha origem, foi deixar o país onde nasci.

Hoje, após mais de 2 anos vivendo a utopia europeia, por escolha (ou falta de), consigo enxergar o Brasil de encantos mil e resgatar o orgulho infantil à nação. Isto não significa que não faço criticas, não me indigno com os fatos ou deixe de me importar simplesmente por não estar mais ali; sofro com a infindável corrupção, com a insegurança se alastrando como um tsunami, com a desigualdade e com a sua injustificável utilização para discriminações e privilégios, sofro ao saber que o nosso Sistema Público de Saúde, exaltado pelos governos internacionais, esteja fadado a extinção por burocracia e má administração e sofro ainda mais por não encontrar comodidade em retornar ao país, embora acorde todos os dias com a esperança de boas novas.

Estando longe, mais como espectadora do que protagonista, fiz as pazes com o Brasil e posso categoricamente sentir orgulho de ter uma das maiores variedades e delicias gastronômicas e fazer questão de apresentar a nossa culinária à todos os amigos gringos, em poder ensinar a nossa rica língua à inúmeros estrangeiros que são encantados por sua sonoridade e melodia, em nunca ter vivido uma guerra e os resquícios de suas privações, em poder chorar, abraçar, e gargalhar em público sem o mínimo de vergonha, em ter o privilegio de dias ensolarados quase todo o ano e não ter que ingerir comprimidos de vitamina D para suprimir a falta do astro rei e também pela nossa quase obsessiva limpeza.

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Resgatei meu patriotismo quando fui a única torcedora brasileira na casa do adversário em partida contra a Bélgica e, mesmo diante da derrota, não desisti de acreditar. Resgato meu patriotismo quando apenas utilizo o português para falar com o meu filho que nasceu na Europa e que nem ainda pode identificar e decifrar os códigos da linguagem. Resgatei meu patriotismo ao ser  reconhecida pelo meu sorriso fácil, quando vejo o brilho nos olhos dos estrangeiros quando digo que sou brasileira (e sinto orgulho em dizer). Resgatei meu patriotismo quando li artigos onde um professor universitário brasileiro que atua no exterior, menciona o quão critico e questionador é um aluno brasileiro. 

Resgato meu patriotismo quando não permito um não brasileiro ofender o meu pais, quando encontro qualquer produto autenticamente nosso nos mercados, quando vejo que os acontecimentos negativos não são maximizados por aqui, quando não tenho a vergonha de ser feliz e principalmente, quando me lembro que tenho um lindo refugio para voltar à pátria amada, Brasil.

Resgatei meu patriotismo quando deixei de viver no Brasil. Infelizmente!

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4 comentários

Ana Setembro 7, 2018 at 6:12 pm

Belo texto. Gostaria de te-lo escrito. Porém, a cada dia aumenta meu medo de não ter mais um belo refúgio para voltar. Pelos jornais, a impressão que tenho é que o Brasil está se afundando, as pessoas perdendo a esperança, a inocência e a identidade. E a cada vez que volto, só vejo a deterioração aumentar, os preços exorbitantes, as ruas sujas, mendigos na rua, violência em todo canto, sem perspectivas de melhora. E isso dói justamente pq é o lugar para onde voltar. E foi nesta dor que descobri meu patriotismo. LG,

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Alexandra Valenti Setembro 8, 2018 at 10:20 am

Chorei! Choro escrevendo.. me identifiquei com o seu texto, seu desabafo, a sua sinceridade.
Infelizmente a saudades é grande, e o entendimento e a valorização só chegaram depois de 5 anos vivendo na França.
Hoje vivo em um país que não é meu, é do meu marido, da minha filha francesa e do meu bebê que vai nascer em terra francesa.
Meu Brasil amado, de gente simples, verdadeira e feliz. Meu Brasil amado de tantas riquesas, diversidades e calor humano.
Meu Brasil amado da feijoada, dos amigos e das gargalhadas, da falta de protocolo e do toque humano.
Meu Brasil amado, como tu me faz falta!

Resposta
Ana Setembro 12, 2018 at 12:52 pm

Adorei o texto, queria saber qual é o artigo que você mencionou no texto sobre os alunos brasileiros.

Resposta
Marcela Bueno Setembro 12, 2018 at 3:25 pm

Olá Ana Luiza,
Obrigada! O texto mencionado foi uma entrevista com o professor Lucas Melgaço, publicada aqui mesmo no BPM, segue o link https://www.brasileiraspelomundo.com/lucas-melgaco-geografo-pos-doutorando-e-professor-na-belgica-582036948
Abraços,

Marcela

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