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Suíça

Quem são os “ticinesi”?

Ticino, ou Tessino, na nossa língua, é uma pequena porção de paraíso, o único cantão de língua italiana com seus 340 mil habitantes, sendo mais de 30% estrangeiros, distribuídos em uma área alpina de 2.800 km². Dizem as más línguas que é a ovelha negra da Suíça: os tessineses se sentem meio que deixados de lado do resto do país, talvez por ser um cantão menos economicamente interessante que Zurique e Genebra, devido aos salários serem mais baixos contrastando com o resto da Suíça.

Na verdade eles têm um problema de identidade. Na TV se veem sempre discussões polêmicas nesse sentido: são ítalo-suíços ou suíços italianos? Dizem que o cantão Tessino nasceu de pais italianos e cresceu em família suíça. De fato, até o século 16 o Tessino pertencia à Itália.

A língua oficial é o italiano, mas basta sair de casa e a “língua” predominante é o dialeto: não apenas um, são muitos! Tantos que nem eles sabem quantos – por exemplo, em todo Vallemaggia (um dos Vales em Tessino) existem aproximadamente 6 mil habitantes divididos em 9 cidadezinhas e cada uma dessas tem o seu dialeto. Não é louco, isso? E para eles não importa se você não entende uma só palavra, o jeito é sorrir e concordar com tudo. É claro que, depois de algum tempo nós, estrangeiros, aprendemos a nos comunicar também em dialeto, por questão de sobrevivência.

 

Existem 2 tipos de tessineses, divididos por uma montanha chamada Monte Ceneri. De um lado está situada a cidade de Lugano e demais cidadezinhas que se encontram a apenas 1 hora de Milão – não é à toa que os luganeses são os mais elegantes, antenados e “metidos” entre os tessineses. Já do outro lado da montanha se encontram Bellinzona (capital do cantão), Locarno, Ascona e todos os vales, habitados principalmente por agropecuaristas e pessoas que optaram por viver em contato com a natureza onde a vida é mais simples e a moda não é a prioridade.

Se devo escolher uma palavra para definir o suíço-italiano, essa palavra seria provincialista. Claro que estou falando de uma maioria e como em todo caso, existem exceções. É baixa a possibilidade de um tessinês abandonar a cidadezinha onde mora para se transferir para uma cidade grande. Possuem um grande respeito pela natureza, são atentos à reciclagem do lixo e à proteção do ecossistema.

Não é difícil encontrar pessoas que nunca saíram da Suíça italiana e isso para mim era incompreensível. Eu sempre me perguntava: “mas eles sabem que em 1 hora de veo se aterra em Paris, em 1 hora e meia, em Barcelona, em 2 Londres e Amsterdã?“. É o sonho de quase todo brasileiro, mas não para o tessinês. A aventura não faz parte do DNA desse povo. Tudo deve ser calculado antes, pois sofrem com os imprevistos.

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Quer saber qual é o cúmulo da honestidade? Se por acaso baterem no seu carro por esses lados e você não estiver por perto, deixarão um bilhetinho com desculpas e o número do celular. Impressionante, não?

E os costumes? Alguns eu adotei, como por exemplo, entrar em casa sem sapatos e às vezes não se entra de jeito nenhum: precisa esperar do lado de fora. Parece antipático mas conserva a casa limpa, mesmo porque empregada domestica aqui é luxo.

Algo também interessante é o telejornal: é tudo muito suave. As notícias positivas são sempre suíças. Assassinatos, corrupções e tragédias são notícias do exterior e isso não é por acaso, é uma inteligente estratégia de controle. Nada melhor do que um povo tranquilo e contente com o próprio país, não é verdade?

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O tessinês não se interessa por política; muitos não sabem quem governa ou qual é o sistema de governo, não conhecem o hino nacional e a maioria não vota, visto que o voto não é obrigatório – a porcentagem de comparecimento às urnas é de aproximadamente 48%.

Enquanto um brasileiro não vê a hora de chegar a aposentadoria e começar a curtir a velhice, por aqui isso significa um problema. Eles não querem parar de trabalhar porque não sabem o que fazer com o tempo livre, sofrem só em pensar no dia em que deverão acordar e não ir para o trabalho… “Como preencher a vida sem o trabalho?” Eu tenho a resposta, mas deixa pra lá…

A verdade é que aqui vive um povo admirável. Morando em outro país aprendi que a percepção de certo e errado é subjetiva e que a vida é muito mais “colorida” onde existe a diversidade.

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15 comentários

Grasiela Novembro 3, 2015 at 10:00 pm

oi Selma também sou colaboradora do Brasileiras pelo mundo. Adorei saber um pouco como vivem as pessoas por ai. Achei o maximo sobre o bilhete, td de bom !

Abraço e felicidades,
Grasiela M Vicentini

Resposta
Selma Novembro 4, 2015 at 9:32 pm

Oi Grasiela, obrigada! Fico feliz em poder conhecer pessoas novas e trocar experiências. Por falar em honestidade, dias atrás comprei um livro de receitas no supermercado, paguei e acabei esquecendo no carrinho, só percebi quando cheguei em casa, voltei no mercado e a pessoa que achou meu livro entregou ao caixa do mercado, incrível!

Resposta
Angela Regina Tinti Novembro 3, 2015 at 11:16 pm

Adorei o texto, eu tive o privilégio de conhecer esse pedacinho de paraíso. lugar lindo e de um povo muito hospitaleiro.
Espero volta um dia.

Saudades. Beijo
Angela Tinti

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Nego Albino Novembro 4, 2015 at 1:41 am

Bem legal. Mas uma pequena correção: Ticino não pertencia à Itália até o século 16 porque isso seria completamente impossível. A Itália unificada, como conhecida hoje, tem pouco mais de um século apenas.

Resposta
Selma Novembro 4, 2015 at 10:31 pm

Oi Nego Albino, obrigada pelo seu comentário, mas para obter certas informações consultei um professor suíço de história. Posso dividir esse conhecimento com você: “O Ducado de Milão (1395-1708) foi um antigo Estado da Itália setentrional. No decorrer dos séculos a extensão desse território variou muito. No final de 1400 fazia parte do Ducado de Milão metade ocidental da atual região Lombardia, parte de Piemonte, da Emilia Romagna e o Cantão Ticino. Entre 1500 e 1600 o Ducado perde Parma e Piacenza, além do Cantão Ticino e Valtellina aos Suíços. No início de 1700 perde toda a região Piemontesa e Lombarda e o oeste do Ticino.

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Francine Fernandes Fevereiro 16, 2016 at 1:40 pm

Olá!
Não tinha conhecimento desse blog, mas achei fascinante.

A contribuição cultural depositada aqui é admirável.
Fiquei bem entretida com as valiosas informações e voltarei ao blog sempre que possível.

Continue, Selma. Textos muito caprichosos.

Abraço!

Resposta
Selma Poncini Fevereiro 16, 2016 at 2:07 pm

Oi Francine, fico feliz em dividir as minhas experiências e com isso contribuir de qualquer forma; o teu comentário é um grande estímulo.
Obrigada,

abraços e volte sempre!

Resposta
jorge luis Junho 13, 2016 at 12:56 am

olá Selma estou aprendendo o básico de Italiano , Alemão e Francês , pretendo ir para a Suíça para esta região de Ticino , pretendo trabalhar como garçom ou mensageiro de Hotel , vc pode me ajudar com a informação de quanto ganha um profissional dessa área , se vc conhece grupo de pessoas que eu possa dividir despesas aluguel

Resposta
Selma Poncini Junho 13, 2016 at 7:02 am

Oi Jorge, não sei quais informações você obteve da Suíça, mas vou te dar algumas úteis. Primeiro você deve saber que com passaporte brasileiro você poderá permanecer aqui no máximo 3 meses como turista. Não poderá encontrar trabalho sem uma permissão obtida no “ufficio straniere” e não te darão um permesso sem um contrato de trabalho. Sem falar fluentemente pelo menos uma das línguas oficiais da Suíça não encontrará trabalho, muito menos como garçom que pedem alemão e uma outra língua Suíça. Sinceramente se você não tem parentes na Suíça, se não tem cidadania europeia, se não é casado com uma suíça ou se você não é um daqueles profissionais de ponta que toda empresa quer ter…sem querer te desanimar, será muito dificil você encontrar um trabalho na Suíça.
Sei que talvez a minha resposta não é aquela que você gostaria de ouvir, mas é meu dever dizer a verdade. Se você quer fazer uma experiência no exterior, talvez deveria pensar em um país sul americano pra começar.
Um abraço e boa sorte.

Resposta
Santusa de Fatima Assis Outubro 26, 2016 at 4:04 pm

Olá selma adorei saber mais sobre o jeito de viver e como é lindo este lugar,a tia de meu esposo mora em ticino via san Gottardo ,temos muita vontade de visita -la agora muito mais.um Abraço .

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Selma Poncini Outubro 27, 2016 at 3:47 pm

Olá querida, muito obrigada pelo seu comentário, acho que você faz muito bem em vir visitar a tia do marido. Ticino é um paraíso, principalmente de maio a setembro.
Um abraço e continue seguindo o blog.

Resposta
Alessandra Ferraz Fevereiro 7, 2017 at 12:17 pm

Ola meninas!
Buscando informações sobre o estilo de vida do ticino, encontrei o blog… Grata pelas informações!
Atualmente moro no Porto-Portugal, e meu esposo é italo-brasileiro, já morou na Suíça alemã durante dez anos. Voltou para o Brasil, onde ficou por mais dez anos, agora ha um ano voltamos a viver na europa, chegando por Portugal. agora ele está ha um passo de se empregar novamente na Suíça alemã. Mas, gostaríamos mesmo de viver no Ticino, até mesmo para que os filhos desenvolvessem melhor a língua “madre” no caso, o italiano…
receio eu já com meus 40 aprender o alemão, uiiii, não sei não. Já o italiano tenho muito mais facilidade e gosto muito também.
parabéns pelo BLOG, e sigo em busca de mais infos, como custo de vida etc…
Grazie!!!

Resposta
Bismark Aguiar Abril 23, 2018 at 6:42 pm

Oi Selma!
Estou indo com a minha esposa para Lugano, poderia me dar umas dicas para restaurantes, vamos passar 3 dias

Resposta
Liliane Oliveira Abril 24, 2018 at 12:17 pm

Olá Bismark,
A Selma Poncini parou de colaborar conosco, mas temos outras colunistas na Suíça que talvez possam te ajudar.
Você pode entrar em contato com elas deixando um comentário em um dos textos publicados mais recentemente no site.
Obrigada,
Edição BPM

Resposta
Bismark Aguiar Abril 24, 2018 at 4:50 pm

Oi Liliane,
Obrigado pela atenção.

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