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Saúde pública em Roma

Saúde pública em Roma.

Uma das coisas que eu tinha curiosidade de entender quando cheguei a Roma era como funcionava a saúde pública. Sempre soube que no sul da Itália deixava a desejar, e que no norte funcionava muito bem. Mas e em Roma, como seria?

PRIMEIRA COISA A SE FAZER

Assim que cheguei à Itália, fiz todos os procedimentos burocráticos para transferir a minha residência de cidadã italiana, residente no exterior, para cá. E, uma vez aqui, sempre que mudamos de casa devemos comparecer no Comune (como se fosse a prefeitura) e informá-los. Logo em seguida, deve-se ir à ASL (órgão responsável pelo sistema sanitário) e escolher um médico de base, ou médico de família, como os italianos costumam dizer. Esse médico é aquele que vai te acompanhar sempre, e você não precisará pagar nada pela consulta.

Leia também: Mudanças na lei de cidadania italiana

COMO FUNCIONA? 

A consulta não pode ser agendada. O paciente chega no consultório e tem que esperar na fila. Alguns médicos disponibilizam senhas por ordem de chegada, já outros não, e então se deve somente perguntar quem é o último da fila e esperar a sua vez. Prepare-se psicologicamente para esperar algumas horas.

Uma coisa importante que levamos sempre na carteira é a tessera sanitaria, como se fosse a carteirinha da saúde. Para os italianos, é praticamente automática a emissão dessa carteirinha assim que nascem, para quem chega de fora, a carteirinha é emitida logo depois que se faz o cadastro na ASL.

Depois da consulta com o clínico geral, caso o paciente necessite de um médico específico, exames ou mesmo uma cirurgia, o próprio médico de base faz o direcionamento para o respectivo especialista, assim, tudo continuará de forma pública. Somente no momento do agendamento do procedimento ou exame, no hospital ou na própria ASL, você saberá se não precisará pagar nada ou apenas o ticket, que seria uma contribuição para o sistema de saúde que, normalmente, custa 15 €.

O LADO NEGATIVO DA SAÚDE PÚBLICA 

Fazer tudo de forma pública tem suas desvantagens, que são as seguintes: fila de espera, ou seja, o agendamento de um exame ou uma cirurgia ocorrerá somente na primeira data disponível do hospital público; e, para uma consulta com especialista, além de agendar quando houver disponibilidade, o seu médico, provavelmente, nunca será o mesmo, vai depender do médico que estará no hospital no dia do seu atendimento.

MÉDICOS E EXAMES PARTICULARES 

Especialistas, como, por exemplo, ginecologista ou cardiologista, costumo ir de forma privada. A média de preço de uma consulta é de 80 €, e os exames variam de 35 € a 150 €, na maioria das vezes.  Alguém pode me perguntar: “Você diz que a saúde pública é de qualidade, mas vai ao médico privado?”. Sim, mas o motivo é que não quero esperar dois ou três meses para uma consulta, e porque quero ser consultada sempre pelo mesmo médico, que é uma opção minha. Então, uma vez por ano, quando tenho que fazer um check-up gasto, mais ou menos, 400 € por tudo, que mesmo fazendo a conversão em reais, nunca é como pagar um convênio todo mês no Brasil, como costumava fazer. Além do mais, sabemos muito bem o preço de um bom plano de saúde no nosso país.

PRONTO SOCORRO

O paciente que precisar ir ao pronto socorro, assim que chega para o atendimento passa pela triagem, e eles o enquadram em uma das 4 categorias existentes, que são: rosso (vermelho) – para os casos graves, giallo (amarelo) – para os casos não tão graves, verde (verde) – para casos não graves, e, por fim, bianco (branco) – para casos não graves e sem urgência. Neste último, o tempo de espera é maior e, além disso, é passível de cobrança, que seria o ticket, o mesmo anteriormente mencionado. No entanto, na maioria das vezes, eles usam o código verde.

MINHA EXPERIÊNCIA EM PRONTO-SOCORRO 

Precisei usar duas vezes o pronto-socorro em Roma, a primeira foi quando tive um sangramento de quase um mês, como se fosse uma menstruação longa. Assim que cheguei no hospital, já dei uma bela agravada na situação, pois não queria que me dessem o código branco, me deram o verde, e esperei por quatro horas para ser atendida. Fizeram todos os exames ginecológicos possíveis e imagináveis, além do hemograma completo. No fim, constataram um problema hormonal, pois eu havia parado de tomar anticoncepcional um mês antes.

A segunda vez que tive que ir ao pronto-socorro foi em decorrência de um abcesso na glândula de Bartholin. Um cisto a havia bloqueado e, consequentemente, ela começou a inchar e a infeccionar. Foi tão rápido o processo inflamatório que em uma manhã de quinta-feira não conseguia nem andar, nem deitar, nem sentar, ou seja, não conseguia fazer nada, pois a dor era terrível.

Quando cheguei ao hospital, mal podia caminhar, colocaram-me rapidamente em uma cadeira de rodas e deram-me o código amarelo. Em meia hora já estava na área específica fazendo todos os exames pré-operatórios. A infecção era tanta que eu precisei operar com urgência. Depois de duas horas da minha chegada ao hospital, eu estava pronta para iniciar o procedimento.

Quando acordei da anestesia, estava em um quarto com outras três meninas, as enfermeiras mediam a minha temperatura a cada quatro horas, limpavam o local operado e sempre perguntavam como eu estava me sentindo. No total, fiquei três dias no hospital. O cardápio era bem variado, com peixe e frango, purê de batata, brócolis, macarrão, sopa. Por ser comida de hospital, era muito boa, bastava colocar um pouco de sal e pronto. Café da manhã com torradas, geleia, café com leite, iogurte e fruta. Lembrei-me de quando operei o ombro no Brasil e tive um tratamento muito parecido em um grande hospital particular de São Paulo, mas a diferença é que no Brasil eu pagava um plano de saúde que me custava R$ 500 por mês, e aqui era tudo público, não teria que pagar nada. Isso, sim, deveria ser normal, mas para nós brasileiros chega a ser estranho ver saúde pública de qualidade.

Como será que seria essa cirurgia em um hospital público brasileiro? Nunca imaginei como seria viver no Brasil sem um plano de saúde. Quando saímos do nosso país, percebemos que estamos acostumados a não ter coisas que são básicas, a não ter o mínimo de contraprestação aos impostos que pagamos. Nos acostumamos com isso de uma forma assustadora. Na Itália, por exemplo, quando cheguei e questionei sobre não se pagar pela assistência sanitária, os italianos me respondiam: “Mas é claro que não se paga”. E eles não conseguem entender o fato de termos que pagar um plano de saúde, todos os meses, para poder ter atendimento de qualidade.

Enfim, a saúde pública a que tive acesso em Roma não deixou a desejar em nada. Depois de dois anos e meio na Itália, já me acostumei com o fato de que saúde pública de qualidade existe, que é um dever do Estado e um direito do cidadão. Algo que, infelizmente, ainda não conseguimos saber o que significa no Brasil.

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