Sozinhas e ainda assim decididas a ficar na Alemanha

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Fonte: Beata Ratuszniak - Unsplash
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Sozinhas e ainda assim decididas a ficar na Alemanha.

Elas são brasileiras, eram casadas com alemães, estavam morando na Alemanha havia pouco tempo, entretanto uma delas se separou do marido e a outra ficou viúva repentinamente. Sem filhos, ainda assim elas decidiram refazer as suas vidas na Alemanha. Decisão difícil, pois o questionamento da família no Brasil é constante. Duas histórias de mulheres corajosas em busca de seus caminhos.

O BPM entrevistou: Fernanda Correa, 37 anos, fisioterapeuta, trabalha numa clínica geriátrica em Dresden, separada há quatro anos. E Fabyanna Vogler, 37 anos, psicopedagoga, trabalha atualmente numa loja, viúva há um ano.

BPM – Quanto tempo você morava na Alemanha na época da separação/viuvez?

Fernanda: Eu morava há dois anos e sete meses na Alemanha. Hoje estou há seis anos aqui.

Fabyanna: Eu estava somente há um ano e três meses na Alemanha, mas já morava fora do Brasil há 3 anos, morei antes em Portugal, onde fiz meu mestrado.

BPM – Quando você se separou/enviuvou, pensou em voltar para o Brasil?

Fernanda: Na época da separação eu não tive dúvidas em continuar morando na Alemanha, eu não achava justo voltar porque o casamento tinha acabado sabendo que eu estava recentemente empregada. As vezes em que eu pensei em voltar foi em momentos de doença na família.

Fabyanna: Quando meu marido faleceu, eu fiquei três meses na Alemanha resolvendo burocracia e depois disso voltei ao Brasil para ficar perto da minha família e receber o apoio e carinho necessário naquela fase difícil. Depois de um período de recolhimento, decidi retornar à Alemanha e recomeçar minha vida aqui, mas ainda não sei se será definitivo.

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BPM – Quais as situações mais difíceis de enfrentar sozinha na Alemanha?

Fernanda: Passar pela separação foi uma experiência de autoconhecimento muito grande, porque eu tinha que ter uma atitude, tomar minhas decisões, tinha que pensar no que eu queria. Foi uma experiência muito dolorosa de aprovação. Depois vem a solidão, pois foi em um momento que eu não tinha muitos vínculos e as pessoas aqui são muito fechadas. Resolver as coisas burocráticas sozinha também é muito trabalhoso porque você não tem ninguém para te explicar as coisas, é ter que ir atrás das informações e se virar.

Na época da separação eu recém tinha conseguido um emprego, e no começo tive muita dificuldade porque eu não falava muito bem alemão e me faltava vocabulário da parte técnica. Era um mundo novo no trabalho para mim, além da mentalidade, a adaptação aos colegas e os colegas comigo. Estou trabalhando há 4 anos nessa clínica, hoje eu vejo que conquistei bastante meu espaço lá, a chefe do departamento, por exemplo, já pede minha opinião em algumas decisões que tem que ser tomadas, eu vejo que tenho meu respeito, que conquistei meu espaço. Foi um longo caminho até chegar a esse ponto. Longo e doloroso porque a barreira da língua foi muito grande no início.

Fabyanna: A minha grande dificuldade é o idioma, ainda não consegui aprender o alemão para resolver a burocracia. Fazer amizade também é mais trabalhoso, parece-me que os alemães só fazem amizade quando tem um amigo em comum que apresenta a gente. Ficar doente estando sozinha é muito penoso, pois mesmo estando fraca, temos que tomar conta de nós mesmas. É nesses momentos que pensamos na família e na falta que ela faz.

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BPM – A tua família já questionou ou ainda questiona a tua decisão de ficar na Alemanha?

Fernanda: Sim, a minha mãe sempre abre o convite para que eu volte. Já o meu pai não interfere muito, ele aceitou minha decisão e me deu força para continuar vivendo minha experiência aqui. Isso me motivou a seguir na minha decisão.

Fabyanna: Sim, minha mãe se preocupa muito comigo e questiona a minha decisão. Quando ela esteve na Alemanha comigo, logo depois do falecimento do meu marido, ela percebeu o quanto é difícil resolver tudo sozinha. Ela sabe que eu tenho muitos desafios pela frente e se preocupa comigo enfrentando tudo isso só.

BPM – Com quem você conta na hora do aperto?

Fernanda: Comigo mesma! (risos) Agora que tenho mais amigas aqui, conto com elas. A Ana Gaspar foi uma pessoa que me apoiou imensamente na época da separação. Já cheguei a contar até mesmo com o meu ex.

Fabyanna: Eu conto com meus amigos que moram na Europa. No ano passado quando tudo aconteceu, eles demonstraram o quanto uma amizade verdadeira e valiosa independe do lugar que você esteja. Recebi também muito apoio de pessoas que eu não conhecia e que se solidarizaram com a minha situação.

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BPM – O que te motiva a ficar na Alemanha?

Fernanda: Tem várias coisas que me motivam a ficar, meu emprego, a experiência de viver no exterior, conhecer outra mentalidade, a liberdade de viver aqui. Uma coisa que eu acho bacana, é o fato de o país ser menos machista e ter uma desigualdade menor das mulheres em relação aos homens. As condições de vida que a Alemanha oferece são atraentes: segurança, transporte, consciência ambiental e os vínculos que a gente vai criando, isso acaba segurando. Quanto mais tempo a gente passa aqui, mais difícil fica pensar em voltar, você acaba se adaptando e perdendo a coragem de voltar.

Fabyanna: Eu não quero voltar ao Brasil por causa da violência. Não me sinto mais segura lá. A violência aumentou muito em Natal e as pessoas vivem como prisioneiras. Aqui tenho mais liberdade de locomoção, os meios de transporte públicos são seguros e funcionam bem. Além disso tem a tranquilidade e boa qualidade de vida que o país oferece.

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Larissa é nascida em Porto Alegre, criada em Vacaria, na serra gaúcha e herdou dos seus pais a vontade de viajar. Advogada de formação, escritora de coração, aventureira por emoção, veio para a Europa em 2001 em busca de novos desafios e de seu lugar no mundo. A primeira estação em Madri não lhe despertou a vontade de ficar ali para sempre, e, assim chegou, num dia frio de março, um dia antes de seu aniversário de 27 anos, numa pequena cidade na costa da Alemanha para trabalhar numa sorveteria de italianos. Apesar do trabalho árduo, decidiu que esse era o seu lugar, e que teria muito o que aprender nesse país. Assim sendo, aprendeu alemão, conheceu seu marido, trabalhou como intérpretre, fez mestrado, trabalhou numa empresa brasileira, teve filhos, mudou-se em 16 anos de Alemanha, 6 vezes de cidade, e está sempre em busca do conhecimento humano e de histórias inspiradoras. Tem seu próprio blog sobre suas observações da vida alemã, o Brasanha, escreve sobre a maternidade na Alemanha no Batatolandia e colabora com o projeto Carlotas sobre empatia e diversidade.

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