O templo de Borobudur na Indonésia

5
375
Advertisement

É muito emocionante ter a oportunidade de reviver momentos especiais ao ter a chance de se visitar um lugar de sonhos, mais de uma vez na vida. Eu tive essa oportunidade quando novamente visitei o templo de Borobudur na Indonésia.

Acredito que tenha muita sorte, alguém que tem a oportunidade de visitar o sudeste de Ásia e ao sair das rotas de conforto do turismo, descobrir que por “essas bandas” há belezas inimagináveis e paisagens de tirar o fôlego.

Jogjakarta foi um desses lugares incríveis que tive a honra de poder conhecer. A primeira vez vim para uma estadia de imersão em uma escola de Bahasa Indonésia, então estava bem recente no idioma, na história do país e na sua cultura. A segunda vez que fui para Jogja, como carinhosamente a cidade é chamada pelos “íntimos”, foi como voluntária para socorrer vítimas de dois desastres naturais concomitantes: a erupção do vulcão Merapi e um terremoto terrível que afetou inclusive os dois maiores templos da cidade: o Borobudur e o Pranbanam. O primeiro budista e o segundo hindu.

Nessa ocasião, vivemos uma completa aventura, já que vários hotéis ruíram e como havia um grande número de socorristas internacionais, não dava muito para escolher onde ficar. Acabamos ficando em uma guest house bem precária e passamos as noites acordados com medo dos ratos que tentavam pular em cima da cama.

Nem pense em me imaginar em uma cena heroica. Sou super medrosa e bem fresca pra falar a verdade, então, foram dias realmente difíceis, mas dos quais não me arrependo nem um minuto. Foram dias de sentir a dor alheia na própria pele. Eu já tinha o bahasa (idioma indonésio) bem melhor e achava que ia arrasar falando na língua local, mas então fui surpreendida com o fato de que muita gente ali só falava javanês!

Viajamos pra lá, eu, meu marido e duas jovens amigas representantes do Rotaract. Ele é médico e tinha uma função muito definida, já nós, fazíamos de tudo: distribuição de alimentos, de medicamentos e orientação de como se tratar e cuidar dos machucados. Foi uma experiência marcante demais ver aquela gente sendo atendida em tendas, recebendo cirurgias à base de éter (não havia hospitais suficientes para todos, nem anestesia ou medicamentos), comendo peixe seco distribuído em pedaços de jornal e beijando nossas mãos em agradecimento.

Eu morria de vergonha que alguém chegasse a me agradecer, sendo que o que eu tinha a oferecer era na verdade pouco, insuficiente e indigno daquelas pessoas tão dignas.

Foram dias de muita intensidade e amor!

Isso ocorreu em 2006 e voltar para lá, exatamente dez anos depois, reacendeu em mim memórias tão detalhadas que eu sequer podia imaginar que ainda povoavam minha alma. Tudo ficou ainda mais intenso quando eu entrei no Borobudur.
Como disse, esse foi um dos templos que chegou a ser afetado pelo terremoto de dez anos atrás. No fundo eu morria de medo de adentrar seus portões e encontrar apenas as ruínas do que eu havia visto um dia, mas para a minha alegria, ele estava ali, inteiro, preservado e íntegro. O estrago foi menor do que eu esperava e a restauração foi rápida para evitar uma degradação maior do monumento.

O templo Borobudur é uma verdadeira obra prima, considerada patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO. Foi construído no Século IX e é o maior templo budista do mundo, sendo ainda considerado uma das maravilhas do mundo antigo. Quando você se vê diante daquilo, o coração até bate mais forte e os sonhos da alma parecem se inquietar. Nuvens de libélulas me cercaram, e bem…isso transcende esse mundo.

Budista Mahayana, o templo é configurado por nove plataformas, sendo seis quadradas e três redondas. No centro, há uma cúpula bem grande que “finaliza” a obra arquitetônica. Ao redor de cada plataforma há diversos painéis decorativos, esculpidos em pedra, e que contam um pouco da tradição budista, suas histórias, símbolos e crenças. Ao todo são 2672 painéis. É uma loucura, porque dá vontade de parar em frente a cada um deles e ficar ali admirando, sorvendo e buscando entender o que cada traço ou linha deseja dizer para além de sua beleza artística.

É também extremamente mágico imaginar quantas pessoas caminharam por ali e admiraram as mesmas coisas que eu. Estou ligada a elas de algum modo, ainda que não nos conheçamos. Quantas gerações de seres humanos caminhou e subiu por cada degrau daquele lugar em busca de iluminação, orientação e ascenção espiritual?

O incrível número de turistas e estudantes que entope as galerias e escadas do lugar, por vezes nos faz esquecer de seu sentido sagrado que está para muito além do turismo. É um lugar muito forte, carregado de energia e calor.

O templo, ou Candi, como são chamados os templos na província indonésia de Java (pronuncia-se Xandí) conta com 504 estátuas de Buda. Desavisada, na minha visão imediatista ocidental, achei que eram todas iguais, tipo uma variação sobre o mesmo tema. Só que não, elas têm significados distintos e inúmeras delas possuem mudras diferentes entre si.

Mudras são gestos feitos com as mãos e que representam diferentes invocações da natureza e de divindades sagradas. Para nós, são mais conhecidas através do yoga, mas para os seguidores esses gestos podem ir muito além do que imaginamos. Além das mãos, podem ser feitos com os pés, (bem comum nas danças indianas), a boca (me disseram, mas confesso que não imagino como seja), com os olhos (como nas danças balinesas) e até com a mente.

Depois dessa informação desci alguns andares e voltei a observar cada Buda com mais calma. De fato, cada um ostentava uma posição diferente nas mãos. Todos sentados em posição de lótus. Aliás, como sempre, o lótus é parte fundamental na construção arquitetônica do sudeste da Ásia. São diversas as formas de se representar a flor de lótus, mas ela sempre está lá. Representa a pureza e o poder transformador.

O templo Borobudur tem como marca registrada essas inúmeras mini cúpulas que circundam todo o templo e a cúpula principal central. Sempre quis saber do que se tratava e voilá! São mais uma das representações possíveis de flores de lótus.

O local é imperdível e um capítulo à parte é a interação com o povo local que fica fascinado ao encontrar ocidentais circulando por ali. Se no começo você fica todo sem jeito pensando em como vai conseguir “arrancar” uma foto bacana com alguém trajado de modo local (vexame que quase todo turista passa!), em pouquíssimo tempo você se dá conta porque todos vão querer tirar fotos com você. Minha filha Khadija já estava exausta de tanto posar para fotos com as meninas adolescentes, encantadas com seus grandes olhos.

Ossos do ofício! Conheça esse lugar extremamente mágico e ganhe inteiramente grátis um dia de popstar.

Informações importantes:

– Há preços diferenciados para locais e estrangeiros, mas se você possui o kitas (visto de moradia), não se esqueça de levá-lo. O preço para indonésios é 30 mil rúpias e para estrangeiros, 250 mil.

– Todo turista é encorajado a fazer compras na jalan (rua) Malioboro, uma espécie de 25 de março/ Sahara da cidade. Tudo muito barato, mas eu amei mesmo fazer compras na feirinha que tem na saída do templo. Mais organizada, igualmente barata e ótima para se barganhar, então leve dinheirinho extra para aproveitar comprinhas na saída.

-Existe uma opção para os mais animados, de ver o nascer do sol no templo. É bem mais caro, algo em torno de 400 mil rúpias e precisa ser marcado antecipadamente com alguma agência de viagens. As saídas são por volta de três da manhã. Eu não sou tão corajosa, mas quem foi, realmente gostou!

Texto anterior50 lições para a vida que aprendi esquiando: Parte 1
Próximo textoDicas para estudar inglês no País de Gales
Fabi é uma mulher de fibra, que carrega no coração o mundo inteiro. Jornalista e bailarina, tem mestrado em Educação, Arte e História da Cultura e é doutoranda em Antropologia, mas nem liga para esses títulos porque o que ela gosta mesmo é de estar no meio da moçada, promovendo Direitos Humanos e empoderamento popular. Atua com educomunicação e juventude desde que se entende por gente, e ganhou em 2015 o título de mulher inspiradora pelo coletivo feminista "Think Olga" que nomeia os destaques femininos em suas áreas de atuação. Fabi é consultora em comunicação e mobilização social e ja trabalhou para diversas agências das Nações Unidas, além do CDC de Atlanta, além de diversas ONGs e Fundos. Escreve para esse blog desde 2013. Ela tem rodinhas nos pés e asas nas costas. Talvez por isso alguns a chamem de fada. Não tentem descobrir de onde ela é, porque ela pertence a muitos lugares e ao mesmo tempo a nenhum. Essa aquariana de riso farto, tira leite de pedra por onde quer que vá. Saiu do Brasil para morar na Indonésia em pleno pós Tsunami sem falar nenhuma palavra de inglês, se virou bem e daí pras Filipinas e Vietnã. Fez uma pausa no Brasil e agora está na Suíça. Por quanto tempo? Não se sabe. Ela segue à risca o conselho de Frida Kahlo que diz: Onde não puderes amar, não te demores...

5 Comentários

  1. Fabi, como eu queria voltar pra Indonésia É ter a oportunidade de reviver esses momentos e lugares. Amei seu texto, informativo e inspirador, para quem não conhece o lugar, e nostálgico, para quem já o visitou. Um abraço!

  2. Olá Fabi,
    Muito, mas muito legal o texto! Aumentou ainda mais a minha vontade em conhecer Borobudur e Prambanam!
    Ficarei no aguardo de mais dicas, inclusive as de Jakarta, das comidas e das lojinhas (como disse, não quero apanhar quando voltar – rs).
    Um abraço e obrigado mais uma vez!

Deixe um comentário

Por favor inclua o seu comentário
Por favor escreve o seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.