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Trabalho em fábrica japonesa

Trabalho em fábrica japonesa.

O Japão é bem conhecido mundo afora pela quantidade de fábricas que abriga. Mas, infelizmente para o país, porém felizmente para quem tenta uma oportunidade fora da sua terra natal, não tem mão-de-obra suficiente para suprir tanto trabalho disponível. Por isso, a maioria dos estrangeiros que vêm morar no país encontra oportunidades nessa área.

Antes de vir para cá, eu imaginava que as fábricas eram todas parecidas com as retratadas no filme “Tempos Modernos”, do Chaplin, que mostra a Revolução Industrial: um ambiente completamente insalubre, de trabalho repetitivo, alienação do funcionário, esteiras nas linhas de produção, exigências de velocidade e qualidade impecável, chaminés imensas… Não posso dizer que estou completamente errada, algumas fábricas no Japão são assim, mas não são todas.

Fonte: pixabay

Existem vários tipos de trabalho de fábrica. Solda, empilhadeira, inspeção, montagem, embalagem, alimentos… O que define se será insalubre, braçal, sujo ou que carrega peso será o tipo de trabalho. É preciso frisar que onde se paga melhor, geralmente, também é onde se tem um maior desgaste físico.

As horas extras no Japão são uma realidade. Mas depois de um tempo trabalhando, os funcionários – principalmente estrangeiros – acabam se adaptando a elas, já que o valor da hora aumenta 25% e grande parte dos estrangeiros que trabalham nessa área encontra aqui uma boa oportunidade de juntar dinheiro. Claro que há limites de horas extras definidos pela lei. A legislação trabalhista do Japão você pode conferir aqui.

Leia também: 10 curiosidades sobre o Japão

Eu, particularmente, só trabalhei em uma fábrica de montagem de componentes eletrônicos, por isso não posso falar com tanta propriedade dos outros tipos de serviço, mas a minha experiência foi bem válida e, apesar do trabalho não exigir qualificação, aprendi bastante.

Logo que comecei a trabalhar, a maior dificuldade que tive foi ficar em pé o dia todo. Eram oito horas de trabalho, sem contar os intervalos (bem curtos), e quando comecei, a produção estava atrasada, por isso as horas extras estavam em alta, somando mais ou menos 11 horas por dia, de pé. E não podia usar qualquer sapato, não. Precisava ser um tênis de borracha, antiestático, duro e bem desconfortável. No começo, os meus pés inchavam tanto que quando eu chegava em casa, precisava entrar engatinhando, porque simplesmente não aguentava de dor ao pisar no chão. Felizmente, o ser humano é muito adaptável e, depois de duas semanas, eu já não sentia mais nada.

O trabalho em si é bem repetitivo e completamente alienado. Onde eu trabalhava, não precisava calcular o tempo para mandar peças por uma esteira ou algo assim, mas inicialmente a minha função era colocar e tirar celulares de dentro de uma máquina a laser (cuja função era colar a tela de LCD no celular), colar alguns adesivos (cuja função eu não faço a menor ideia) e colocar o aparelho já montado em uma máquina para conferir a impermeabilidade. Para onde ele ia depois ou de onde veio antes, eu não sabia. Com o tempo, fui aprendendo mais funções na linha de produção, mas ainda assim nunca soube o processo completo. Em compensação, o ambiente era limpo e o maior esforço físico que eu precisava fazer era ficar em pé o dia todo.

Para mim, foi uma experiência legal porque tive a chance de aprimorar o idioma japonês, além de entrar em contato com estrangeiros de outras partes do mundo: filipinos, chineses, vietnamitas, etc., sem mencionar os nativos daqui. A troca de cultura era bem intensa e, de vez em quando, alguns impasses que aconteciam na convivência eram causados por diferenças culturais. Acabei aprendendo a lidar com nacionalidades diferentes, o que foi bem enriquecedor.

Leia sobre: Dá para morar no Japão sem saber japonês?

Passei por algumas situações de machismo dentro da fábrica, como comentei neste texto, e devo dizer que as empreiteiras responsáveis pela contratação de funcionários estrangeiros aqui no Japão podem ser muito complicadas. A empreiteira para a qual eu trabalhava, por um lado ajudava bastante com documentações e serviços gerais como traduções, hospital, etc. O apartamento que eu morava era da empreiteira e já vinha mobiliado com eletrodomésticos, o que de início foi ótimo porque não precisei investir nisso como quando aluguei apartamento por conta. Felizmente, o salário também era pago direitinho, diferente de algumas outras empreiteiras por aí.

Por outro lado, depois de algum tempo de convivência com as outras pessoas da linha, constatei que o racismo está presente dentro das empreiteiras. Os brasileiros já conquistaram seu espaço aqui no Japão, então têm a mão-de-obra um pouco mais cara. Em contrapartida, os vietnamitas – que faziam o mesmíssimo trabalho que eu – ganhavam consideravelmente menos. A justificativa era que o tipo de visto deles é diferente, mas na prática é bem injusto. Eles entram no país com um visto similar ao de estudante, mas as jornadas longas de trabalho os impedem de estudar. Dessa forma, na ponta do lápis, é só mão-de-obra barata mesmo. Sem contar as condições de vida: uma amiga vietnamita morava em um apartamento do tamanho do meu, mas era obrigatório que ela dividisse em 4 pessoas. Para os brasileiros, a empreiteira prometia um bônus a cada três meses (mas não era bem verdade). Para os vietnamitas, nem a promessa existia. E, é claro, os japoneses ganham mais por hora do que todos os estrangeiros, mesmo caso o trabalho deles não seja satisfatório. Só pela nacionalidade, mesmo.

Então, se você pretende vir ao Japão para trabalhar, minha dica é: pesquise tudo muito bem. A empreiteira, a cidade, o tipo de trabalho, tudo! Lembre-se que quem imigra, precisa sempre de mais segurança.

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2 comentários

Guilherme Araki Novembro 18, 2018 at 11:09 pm

Olá! Tudo bem?
Li o seu artigo e achei muito interessante! Estou com interesse para viajar ao Japão com minha namorada e juntar um dinheiro. Será que você poderia responder algumas dúvidas?
Quando você foi, já tinha um emprego ou teve que arranjar lá? Se arranjou por aqui, tem alguma agência para recomendar? É possível trabalhar sem saber japonês?
Meus avós, tios, trabalharam no Japão mas a muito tempo atrás… gostaria de ter uma visão mais atual, sabe?

Fico no aguardo.
Obrigado!

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Juliana Platero Novembro 22, 2018 at 5:54 am

Oi Guilherme, tudo bem? Muito obrigada pelo seu comentário!

Bom, respondendo às suas dúvidas, meu marido veio pra cá através de agência antes de mim, mas eu não precisei porque, como ele já estava aqui, negociou uma vaga pra mim diretamente na empreiteira.
As vantagens de vir com agência são: você pode financiar a passagem, então não precisa de um investimento tão grande pra vir; você já tem apartamento pra ficar sem precisar procurar; já pode começar a trabalhar o mais rápido possível pra não ficar um tempo só gastando.
As desvantagens são: os preços abusivos que as agências cobram pra colocação, e muitas agências não assumem responsabilidade se você tem algum problema com a empreiteira.
As agências mais conhecidas são Ikkou e Ichiban, mas sei que as duas, apesar de fortes, acumulam bastante processos judiciais. Se você vir através de agência, precisa correr esse risco. Felizmente, o meu marido não teve problemas, mas tem gente que tem.

Sobre trabalho, se for em fábrica, não é necessário nem japones e nem qualificação. É claro que quanto maior seu nível de japonês, mais fácil de conseguir vagas. Mas é possível sem, sim. Há lugares aqui no Japão que tem tanto brasileiro que há serviços em português em hospitais e prefeituras.
Se vocês não falam, é melhor procurar emprego através de uma empreiteira (e a maioria já até oferece apartamento).
Só pesquisa bastante antes de fechar, porque tem bastante empreiteira picareta no mercado!

Se tiver mais alguma dúvida, pode me falar, vou procurar te responder assim que possível! 🙂

Ah, sua namorada também é descendente? Se não, procure saber como farão com o visto dela. Precisaria casar.

Fico à disposição!
Um abraço e boa sorte,
Juliana

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