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Trabalho voluntário na Índia

Quando me libertei das prisões da sociedade, larguei tudo para realizar meu grande sonho, fui fazer trabalho voluntário na Índia. De manhã ensinava inglês em uma escolinha para crianças Deficientes Intelectuais, como já contei aqui. Pela tarde, eu dava aulas de computação, também em inglês, para um grupo de garotas adolescentes sem condições financeiras.

Para chegarmos ao local era necessária uma viagem de carro em uma íngreme subida de 30 minutos, depois mais uns bons 25 minutos de caminhada, ainda subindo. Porém, toda vez que chegávamos eu quase esquecia a caminhada… quase! O lugar era simplesmente maravilhoso, as alunas moravam em pequenas casinhas extremamente humildes, sem porta, chão de terra e sem luz elétrica. No meio havia um Templo abandonado com uma pequenina sala com 4 computadores antiquíssimos, daqueles que o monitor é gordinho, sem internet, obviamente, e bons 10 minutos para inicializar!

Lá de cima podíamos ver todo o Vale de Palampur e a cordilheira dos Himalayas ao fundo. Me fazia repensar quem era pobre, aquelas meninas que tinham a chance de aprender computação em um templo com vista para os Himalayas com voluntários de todo o mundo, ou eu, que fui mais uma daquelas crianças ocidentais presas anos dentro de uma sala com vista para o quadro negro com professores que recebem tão mal que já perderam sua chama interior.

Todos os dias o portão do templo se abria e um grupo de lindas adolescentes indianas, vestindo seus sáris, lenços, piercings, maquiagens e chinelinhos entravam correndo, muito animadas. Elas tinham entre 11 e 15 anos, não tinham maldade, eram ingênuas, inocentes, e bastante curiosas, gostavam muito de aprender e de brincar depois das aulas. Não tinham acesso à internet, só sabiam que o resto do mundo existia através dos voluntários que por ali passavam. Me perguntavam tudo sobre o Brasil, sempre me pediam para sambar e cantar músicas brasileiras, insistiam tanto que eu sempre acabava cedendo mesmo sendo péssima nesses quesitos.

Elas renovavam minhas energias, era revigorante estar naquele lugar maravilhoso, com garotas tão novas e tão cheias de vida, garotas que não estavam contaminadas pelo consumismo do mundo que elas jamais conheceriam. Enxergavam a beleza da vida em uma dança, uma música, uma língua nova. Como adolescentes que mal tinham o que comer, viviam sem eletricidade, sem Facebook e WhatsApp, sem dinheiro para comprar roupas e sapatos poderiam ser tão alegres, tão cheias de vida, com olhos tão brilhantes e uma curiosidade inabalável? Como encontravam a beleza da vida nas suas músicas, na dança ou no jogo de peteca que costumávamos jogar depois das aulas? Como poderiam ser felizes sem viajar? Sem ir à praia nos feriados ou dirigir um carro novo? Como eram felizes sem balada ou restaurantes caros nos finais de semana?

Para que todas pudessem comer, suas mães mandavam um pouquinho de comida de cada tipo para que todas dividissem e elas faziam questão que comêssemos. Eu me sentia indigna de comer, me sentia roubando o pouco que tinham, mas descobri que para elas era um prazer dividir tudo. Aprendi que quem menos tem, muitas vezes é o mais generoso. Elas colocavam tudo em cima de uma folha sulfite no chão e comiam com as mãos, o que na Índia é bastante comum. Eles comem tudo com as mãos, até o arroz. No começo foi muito difícil acostumar, confesso que senti nojo, ficava pensando que aquela folha não protegia nada e que elas não deveriam lavar a mão direito, mas depois entendi que eu havia sido programada para pensar tudo aquilo e me acostumei a mudar crenças antigas e separatistas que o mundo ocidental havia enfiado na minha cabeça.

Um dia, conversando com uma das meninas que virou meu xodó, ela me perguntou se eu comia carne como a maioria dos ocidentais. Eu, toda orgulhosa, disse não, que era vegetariana e não compactuava com o Holocausto Animal, por isso admirava a cultura Asiática, pelo vegetarianismo e o veganismo serem muito praticados. Ela me perguntou se eu tomava leite, comia ovos ou queijos, lhe respondi que sim. Então ela falou uma coisa que mudou minha vida e meus ideais: “Então você compactua com o Holocausto Animal, ser vegetariano é uma grande hipocrisia, os animais continuam sofrendo na indústria do leite e dos ovos. Não adianta somente parar de comer carne se você quer realmente fazer a diferença!” A partir desse dia eu comecei minha transição para o Veganismo, filosofia de vida (e não dieta) que hoje sigo completamente.

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Essas garotas, tão novas e tão humildes, mudaram minha vida, minha percepção de mundo e meus valores. Me ensinaram coisas sobre mim mesma que jamais teria descoberto se elas não houvessem arrancado de mim. Eram a luz que eu havia vindo procurar nessa viagem. Me ensinaram humildade, tolerância, simplicidade, hipocrisia e o verdadeiro sentido da felicidade.

Mujica, ex presidente Uruguaio, disse: “Eu não sou pobre, eu sou sóbrio, de bagagem leve. Vivo com apenas o suficiente para que as coisas não roubem minha liberdade.” Elas me fizeram entender que, quanto mais coisas e mais apego carregamos em nossa bagagem, menos liberdade teremos na vida.

Aprendi que devemos ser respeitosos com todos, pois nunca se sabe quem vai nos ensinar uma nova lição. E se formos humildes o suficiente, todos nos ensinarão alguma coisa, como foi o caso dessas meninas encantadas, que me mostraram quais eram as minhas prisões, só assim pude me libertar de minhas amarras.

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2 comentários

Luciana Martelli Maio 17, 2016 at 5:37 pm

Olá Carolina!

Parabéns pela coragem se sair da zona de conforto. Achei linda a sua historia de dedicação ao próximo.
Eu também um dia espero me livrar das amarras e libertar minha alma nesse mundo vasto e bonito.

Um grande abraço!!!

Resposta
Juliana Lopes Março 22, 2018 at 4:33 am

O texto é fantástico, levo para a vida o input sobre “crenças antigas e separatistas que o mundo ocidental havia enfiado na minha cabeça”. É essa a razão de toda a dificuldade de adaptação e desconforto com algumas culturas orientais. É contra isso que estamos lutando quando não aceitamos. E não é pra todo mundo, nem todos estão preparados.

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