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Maternidade Pelo Mundo

Tratamentos de fertilidade pelo mundo

Vou contar a minha história.

Comecei a rascunhar este artigo na sala de espera de uma clínica. Eram meus últimos dias em Bucareste e tal como tinha acontecido na chegada, havia passado por uma curetagem em razão de outro aborto retido. O terceiro, em cerca de 1 ano e meio. O primeiro aconteceu nas semanas iniciais: terminei na emergência de um hospital desconhecido, atendida pelo plantonista, numa situação angustiante.

Do aprendizado trazido por momentos difíceis como aqueles, surgiu a ideia do texto. Concluí que para acabar com estigmas e falta de informação é importante dar voz ao que experimentamos. Trazemos ao debate público questões relacionadas aos mais variados temas envolvendo a mulher, mas deixamos de lado algumas dores próprias do feminino. A infertilidade e as perdas gestacionais vivenciadas na carne da fêmea são parte dessas dores – quantas vezes sentidas às escondidas. Por isso esse artigo: na 1a parte apresento a minha história, na 2a, o que aprendi com o processo e questões práticas sobre tratamentos de fertilidade na Europa.

A meu ver, tudo o que é próprio do feminino deve ser debatido. Proponho falar sobre o que nos rasga por dentro para que possamos continuar inteiras, lembrando que ao compartilhar nossas experiências acolhemos mulheres que passam pelo mesmo. Se esse for o seu caso, gostaria de dizer que não está sozinha e que tudo bem falar sobre infertilidade.

Leia também: Infertilidade: custos e tratamentos na Alemanha

Minha história

Há 6 anos queremos engravidar. Conheci meu marido aos 34, casei aos 36, começamos a tentar nos meus 37. Eu sei, já havia passado dos famigerados 35, mas ainda não tinha chegado nos temidos 40. Comigo foi assim: abraço a minha história por inteiro! O reloginho da maternidade não desperta ao mesmo tempo em todas as mulheres como desejo carregado desde a infância. Definitivamente, não. Por mais carinho que tivesse pela ideia, ser mãe não era um objetivo, apenas tornando-se querido ao solidificar sentimentos com o meu marido.

Tenho imenso respeito por mulheres que encaram sozinhas a gestação de um filho, mas esse rumo nunca foi o meu. Trazer uma criança ao mundo sempre me pareceu um projeto feito a dois, porém, nem sempre conhecemos com quem valha a pena executá-lo aos 25 (ou, talvez, aos 25, nem queiramos conhecê-lo!). Faço esse prelúdio porque, vez ou outra, escuto vozes condenando mulheres que adiam a maternidade. Vontade não tem idade. E cada uma arca com a sua.

O começo: Vevey, Suíça

Com sinais clínicos de ovulação, menstruação regular e boa saúde, a ginecologista anunciou, nos recém-completos 37 anos, para não me preocupar. Mulheres saudáveis engravidavam naquela idade e apenas após 1 ano de tentativas frustradas, partiríamos para investigações. A recomendação era a de praxe.

Passados 8 meses, comecei a sentir fortes cólicas menstruais. Voltei à medica. Durante o ultrassom levantou-se a hipótese de endometriose. Precisaria de exames complementares, mas em dois meses mudaríamos para os Estados Unidos. Recomendou-me continuar a busca por lá.

Longa espera: Dallas, Texas

Foi o que fiz. O Texas tem uma das mais importantes faculdades de medicina do país, os hospitais são renomados e não tive dificuldades em encontrar uma ginecologista. Estava com 38 e fui orientada a testarmos nossa fertilidade. Foi-me pedido o exame antimuleriano (aquele que mostra a reserva ovariana), ao meu marido, um espermograma e para averiguar a endometriose, a histerosalpingografia.

Estávamos bem: ele não tinha problemas, a reserva era boa e a histerossalpingografia mostrou não haver obstrução nas trompas, descartando-se a endometriose. O conselho foi: “Faça sexo nos dias férteis!’. Com ele, seguiram-se meses de uma silenciosa desconfiança. As dores não pararam e o nenê não vinha. De volta à ginecologista, aos 39, ouvi que: 1) era “normal” sentir esse tipo de dor; 2) a minha infertilidade classificava-se entre as “sem motivo aparente”; 3) provavelmente não engravidava por conta da “cabeça”.

A descoberta: São Paulo, Brasil

Aos 40, procurei o especialista em fertilidade. Após os exames simples de toque ginecológico e ultrassom (rotinas que em 2 anos nos EUA, nunca fui submetida), a endometriose tornou-se uma certeza confirmada pela ressonância magnética da pelves. Era a razão das dores. Aprendi que existem 3 tipos de endometriose. A minha, a “superficial”, apesar de não bloquear as trompas, dificulta a gravidez. Senti o peso da negligência numa fase onde não havia tempo a perder.

Levando em conta idade e tamanho das lesões, deixamos de lado a cirurgia (pelo tempo de recuperação) e fomos direto à FIV. Era o início e estava animada com as possibilidades, embora não tenha demorado para descobrir a agonia que ronda os tratamentos de fertilidade.

Engravidei na primeira tentativa. No ultrassom das 6 semanas, tinham dois saquinhos: um, quietinho, o outro com o coraçãozinho pulsando rápido – que imagem bonita, a daquele coraçãozinho desejado. Saímos do exame para o aeroporto. Estávamos de partida e deveria encontrar um médico na nova cidade, precisaria de outro ultrassom na 8a semana.

Tempos difíceis: Bucareste, Romênia

Como não fiz o dever de casa, aterrizei em Bucareste grávida e desorientada. O país não tem um sistema de saúde eficiente e médicos bons são raros. O primeiro foi uma catástrofe. Recebeu-me mal humorado e, terminado o ultrassom, não sabia dizer se os embriões tinham batimento cardíaco. Solicitou-me um Beta. Era uma sexta-feira, por volta das 14:00 e estávamos em um hospital. Pedi para fazer naquele instante. Disse que seria impossível pois o laboratório já estava fechado. Precisei esperar a manhã do sábado, repetir o exame 48 horas depois, brigar pelo telefone com alguém que mal falava inglês e assim ter acesso aos resultados atrasados para finalmente confirmar a perda dos bebês.

Nessa época, fui acompanhada pelo médico brasileiro que me orientava à distância. Esperei o que pude, mas a curetagem foi necessária. Do atrapalho do procedimento até encontrar uma especialista competente em fertilidade, foi grande o sofrimento.

Passados alguns meses, fizemos uma segunda FIV. Engravidei, perdi na 10a semana; mais um aborto retido, nova curetagem. Tinha 41 anos e compreendi que, por volta dos 40, as chances de aborto aumentam por crescer a probabilidade dos aneuploides (embriões com deficiência cromossômica). Para a próxima FIV a indicação era fazer o PGS (preimplantation genetic screening), teste que avalia o material genético do embrião, transferindo-se para o útero apenas os viáveis.

Estávamos preparados para tentá-lo, mas eis que, ao fazer 42, descobri-me naturalmente grávida. Uma alegria que pouco durou. Outro aborto seguido por curetagem e malas prontas para o próximo destino.

Leia também: Tudo  que você precisa saber para morar em Portugal

Última tentativa: Lisboa, Portugal

Em Lisboa, duas clínicas, ambas espanholas, seriam mais indicadas para o meu caso. Escolhi uma delas e, a princípio, tive boa impressão. Faríamos outra FIV respaldada pelo PGS. Contudo, precisaria atualizar alguns exames. Entre eles foi-me pedido um novo, capaz de avaliar a imunidade intrauterina. O resultado foi um baque e explicava uma das razões dos abortos de repetição, tirando a culpa exclusiva de eventuais aneuploides. Resumindo, dependendo da combinação genética do embrião, meu organismo vai reconhecê-lo como corpo estranho. A descoberta dessa questão imunitária é recente e ainda não existe um tratamento específico para ela. Sim, as chances de uma gravidez a termo são poucas, mas como existiam e tínhamos esperança, decidimos tentar.

Para meu desencanto, a boa impressão sobre a clínica não restou. Durante a estimulação ovariana a médica deixou-me ovular antes da punção. Cheguei para o procedimento e não havia mais óvulos para aspirar. Empenho, sentimento e dinheiro jogados fora. Ao invés de assumir o vacilo, culpou meus ovários que, segundo ela, já não respondiam à estimulação. Mudei de clínica e obtive um resultado melhor: 12 óvulos e 2 embriõezinhos congelados e submetidos ao tal PGS, o teste que avalia a viabilidade cromossômica.

Infelizmente, o resultado não foi o desejado: ambos embriões eram aneuploides, não sendo aconselhável a transferência. Como decidido, chegamos ao nosso limite e paramos por aqui. Não foi uma decisão fácil, mas foi a que nos coube tomar, com muito respeito por tudo o que vivemos ao longo desses longos 6 anos. Por ora, a certeza que temos é que ainda tem vida, muita vida pela frente. E em reconhecimento a essa vida que continua com suas possibilidades e plenitudes, contradizendo o amontoado de vozes um tanto perversas que preveem solidão e arrependimento para as mulheres sem filhos, é que histórias como a minha também precisam ser contadas.

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