Uma nova Arábia Saudita

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Estou quase completando três anos de Arábia Saudita. Nesse curto espaço de tempo estamos vendo o país passar por uma grande transformação.

Uma nova Arábia Saudita está nascendo e estou aqui, vendo tudo isso acontecer! 

Com a ascensão ao trono do Rei Salman em 2015, um de seus filhos, o príncipe herdeiro Mohammad bin Salman de 33 anos, tem tomado a frente de muitas das decisões. Ele representa a juventude do país, que tem mais acesso à informação, mais cabeça aberta e ansiosos por novidades e representatividade. Rumando a um Islã mais moderado.

É claro que muitas das decisões, se não todas, tem um motivo político e econômico por trás. Mas esse não será o foco do texto.

As mudanças como o fim da “polícia religiosa” e a participação feminina nas eleições regionais eu já citei no texto: O que mudou desde que cheguei na Arábia Saudita.

Agora vou listar as principais grandes mudanças ocorridas e prestes a ocorrer aqui no país, anunciadas nos últimos meses.

  1. Abertura de cinemas

Os cinemas voltaram a ser permitidos depois de 37 anos de proibição.

Novos cinemas estão sendo construídos e alguma exibições já estão acontecendo. A primeira sessão rodou o filme “Pantera Negra” no dia 18/04/2018 em Riade, a capital. Logicamente, mulheres de um lado e homens do outro.

E claro, os filmes com conteúdos picantes ou ofensivos não vão passar nem perto daqui. Os que passarem vão provavelmente sofrer cortes de cenas, coisa que acontece nos cinemas de outros países muçulmanos.    

Leia também: Custo de vida na Arábia Saudita

  1. A transformação da mão de obra

Quando me mudei pra cá, me chamou a atenção de que quase não era preciso falar árabe. Nas lojas, restaurantes e táxis, a predominância era da mão de obra estrangeira. Com isso a grande popularidade do inglês.

Após introduzirem a sauditização, isto é, a obrigatoriedade da exclusividade da mão de obra saudita em certas áreas, as coisas tem mudado bastante.

Não generalizando, mas algumas nacionalidades são conhecidas pela cordialidade, simpatia e excelência no atendimento ao público, filipinos por exemplo. Com o aumento da mão de obra saudita, inclusive das mulheres, a percepção do tratamento foi bem drástica, no meu ponto de vista. A qualidade do atendimento decaiu.

Muitas das mulheres não estavam acostumadas a lidar com o público, a falar com desconhecidos, outras olham com desdém para não muçulmanos ou não sabem falar inglês. São raros os que fazem um bom atendimento, de acordo com a minha experiência. Não raro temos que esperar eles terminarem a conversa com o colega, o chá, ou a mensagem que estão escrevendo no celular.

  1. Mulher dirigindo

A partir de junho de 2018, as mulheres estarão liberadas a dirigir pelas ruas da Arábia Saudita. Deixando, este, de ser o único país no mundo com essa restrição.

Essa questão vai até um pouco além de apenas o “dirigir” em si. É uma verdadeira transformação na sociedade. As mulheres serão empregadas em áreas como a venda de carros, de instrutoras de auto-escola até a agentes e guardas de trânsito. Algo que no momento não existe e vai ser mais um punhado de novas oportunidades para elas.

Um exemplo interessante é o dos aplicativos como o Uber, em que 80% dos usuários são mulheres. A empresa já recebeu milhares de solicitações de mulheres querendo ser motoristas, e já estão em processo de treinamento e contratação.

Nós estamos na expectativa de ver como vai ser o comportamento do trânsito com a introdução das mulheres no comando.

Existem muitos rumores, medos e apreensões em saber como a sociedade mais conservadora vai receber isso. Se vai haver respeito no trânsito, se vai existir algum tipo de abuso ou intimidação vinda de outros motoristas. Esse é o maior medo daquelas mulheres que querem, mas ainda estão em dúvida se vão dirigir logo de início.

O que sabemos é que o governo vai ser bem cuidadoso para que qualquer tipo de abuso seja punido. Bem como as mulheres também estarão condicionada às mesmas leis de trânsito que os homens.

Leia mais: 10 curiosidades sobre o Ramadã

  1. Visto para turistas

Até então, para conseguir entrar no país, você precisa:

  • ter um contrato de trabalho,
  • ter algum parente até certo grau residindo legalmente,
  • a convite de alguma empresa,
  • para fazer a peregrinação à Mecca e Medina.

Não era só: “acho que vou visitar a Arábia, compro a passagem e solicito um visto”.

O turismo é uma grande fonte de renda. Vejam Dubai por exemplo, que é uma cidade no meio do deserto e se transformou em um popular destino turístico.

A Arábia demorou para se espelhar nos vizinhos, que mesmo abertos ao turismo, não deixaram de ser muçulmanos. A grande resistência da população quanto ao turismo, é que a influência ocidental venha competir com os costumes e tradições da religião. Dando lugar à uma cultura que não é a deles.

São várias as atrações que tem potencial de chamar a atenção dos turistas: a própria cultura, sítios arqueológicos, o Mar Vermelho e sua fauna, desertos, dunas e lugares históricos.

Ainda é preciso muito preparo para receber turistas. Os vistos serão restritos a algumas áreas do país apenas, mas já é um grande passo.

  1. A não obrigação da Abaya

Não é nada oficial. O que aconteceu foi que recentemente o príncipe herdeiro falou em uma entrevista. Ele disse que as mulheres não são obrigadas a se cobrir, mas que devem se vestir de maneira modesta. E isso abriu espaço para muitas interpretações.

Pouco a pouco essa afirmação está sendo endossada por outros religiosos mais moderados. E devagar algumas mulheres se encorajam a sair na rua sem se cobrir. Mas tudo ainda muito timidamente.

O que pode acontecer se alguma mulher sair na rua sem o vestidão que chamamos de abaya, com roupas normais, é ser repreendida por alguma pessoa e passar algum constrangimento. Apesar de existirem histórias de pessoas que foram presas por confrontar esse costume alguns anos atrás.

Sinceramente, as vezes que vi alguma mulher sem abaya no shopping, o máximo que aconteceu foram alguns olhares de espanto.

A gente nunca sabe o que pode acontecer, depende muito do lugar em que você vai. Mas o mais sensato mesmo é esperar um pouco mais até que seja algo oficial, até para evitar qualquer desgaste.

Na cidade em que moro não precisamos cobrir a cabeça. Eu vejo muitas jovens andando com a abaya aberta, mostrando a roupa que estão usando por baixo. Mas a maioria esmagadora anda só com os olhinhos de fora, de abaya preta.

  1. Shows, música e mulheres em estádios

Assim como os cinemas, outras atrações artísticas vem chegando para quebrar com as restrições.

Shows de música instrumental, DJs, cantores, eventos trazendo atores internacionais vem sendo mais frequentes e populares entre os jovens.

O ator Wagner Moura esteve em Jeddah em Março para a ComiCon devido a seu papel na série Narcos. O que mostra que a juventude assiste séries e está conectada no mundo.

Mulheres também já podem ser vistas frequentando estádios de jogos de Futebol, coisa que até o ano passado era proibido.

Muita gente lendo esse texto deve se pegar pensando o quão chocante são essas mudanças. Não pelo fato de serem mudanças, mas pelo fato de tantas coisas banais para nós, como o cinema ou um show de música, serem tabus nessa cultura e somente agora (2018) é que estão sendo introduzidos aqui.

Não que vivemos em um país de tendas, beduínos e sem energia elétrica. Pelo contrário, temos prédios e estruturas magníficas por aqui. Muita tecnologia, mas que bate de frente com as tradições e religião desse povo.

Essas novidades geram muita discussão na internet. Uma parcela é totalmente contra e lista seus inúmeros argumentos. Já outra parcela é à favor do progresso e mostra que a tradição e a modernidade podem conviver juntas.

P.S.: O argumento contra mais “engraçado”, por assim dizer, que eu li é o seguinte: “que hoje vem o cinema, amanhã vem os biquínis e a prostituição.”

É mais para chorar do que para rir… mas aqui eu sou apenas uma mera espectadora, comendo pipoca enquanto o filme da nova Arábia passa na tela da vida.

2 Comentários

  1. Ola Gabriela, tudo bem? Trabalho em uma consultoria e costumamos convidar uma pessoa para dar um testemunho, esse testemunho tem duração de 1 hora, e geralmente fazemos via skype. Teremos um treinamento para um casal que vai para a Arabia saudita e gostaria de saber se você tem interesse em dar um testemunho.

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