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Veganismo em Londres

Veganismo em Londres.

Entre tantas coisas boas que aprendi em Londres, a mais valiosa delas foi respeitar as diferenças. Justamente por valorizar tanto esse aprendizado, tenho tentando mostrá-lo em diferentes ângulos aqui na minha coluna e, é claro, neste texto não poderia ser diferente, só que desta vez o assunto é complexo, polêmico e ainda carrega muitos mitos e dúvidas ao redor do mundo.

Começando pelo começo, há algum tempo eu e meu marido definimos, depois de muita conversa, questionamentos, pesquisas, erros e acertos que estaríamos dispostos a nos sacrificarmos se fosse preciso, mas que nossa prioridade seria preservar a vida, e quando digo vida me refiro desde a minha, cuidando da minha saúde e bem-estar, como a vida de qualquer outro ser existente na terra, incluindo a sua. Mas, uma decisão que parece óbvia, mudou e sacudiu tudo, nos fez questionar qualquer simples ato do nosso dia-a-dia.

Costumo dizer que virar vegano não é planejado, simplesmente acontece, nada mais é do que a consequência de um estilo de vida, de uma crença. Ninguém decide ser vegano da noite para o dia, é preciso ter motivos fortes para sustentar um estilo de vida, infelizmente, tão complicado em muitos lugares do mundo. Caso contrário, no primeiro obstáculo, você irá mudar de ideia.

Coincidência ou não, Londres oferece muitas opções para nós, desde restaurantes renomados, como produtos alternativos em qualquer tipo de supermercado (como o leite de amêndoas com preço similar ao do leite de vaca, por exemplo). Além disso, nos últimos meses,  Londres decidiu levar o veganismo a sério, colocando em diversos espaços de mídia a campanha “Go Vegan World”, uma campanha feita pelo Eden Farmed Animal Sanctuary, localizado na Irlanda. A primeira vez que essa campanha foi ao ar, saiu na Irlanda, em 2015, para comemorar o “World Vegan Month” (o Mês Vegano Global). Tiveram tanto sucesso, que esse ano decidiram expandir para outros países, e é com muito orgulho que digo que os ingleses, muitos imigrantes, turistas, e eu, tivemos o prazer de ter acesso a ela. Trata-se de anúncios com fotos de animais saudáveis e frases que mostram como eles são abusados durante a produção de derivados de origem animal, como ovo, leite e etc, deixando claro que não basta ser vegetariano para acabar com o sofrimento, é preciso ser vegano.

Além das questões animais que já são conhecidas no mundo inteiro, o veganismo tem outros pontos interessantes como sustentabilidade e saúde. No caso da sustentabilidade, entende-se que a criação de gado é um dos principais fatores que contribuem para o aquecimento global. São diversos km de áreas florestais desmatadas para criação de gado. Os animais, por uma questão de demanda, são criados em grande escala e, consequentemente, necessitam de muita água e alimento (muito mais que um ser humano consome por dia), que, para serem produzidos, necessitam de mais um bom punhado de desmatamento por conta da alta demanda e da necessidade de tornar o animal muito maior que ele seria naturalmente. O veganismo propõe irmos direto ao ponto e consumirmos grãos, frutas e vegetais, diminuindo consideravelmente os danos que a produção de animais causa no mundo e desmatando infinitamente menos.

Leia também: tudo que você precisa saber para morar na Inglaterra

Com relação a saúde que, na minha opinião, é o assunto mais polêmico de todos, existe um mito de que quem para de comer carne (mais conhecida como proteína) fica fraco, cansado, flácido e sem músculos. Esse é um discurso que a indústria da carne e derivados se apropriou com o objetivo de incentivar cada vez mais seu consumo até torná-lo necessário. Mas, existem estudos sérios como o “The China Study”, baseado em anos de pesquisas sobre a relação entre o consumo de produtos de origem animal e doenças como o câncer da mama, próstata, intestino grosso, diabetes, doença coronária entre outras. É claro que para cada estudo publicado aparecem mais dez contestando a ideia, mas engana-se quem pensa que o consumo de proteína animal começou a ser questionado recentemente por uns três ou quatro cientistas malucos, esse é um assunto velho que infelizmente tem a ver com política e economia, o que faz a informação ser camuflada por aqueles que têm interesses econômicos em continuar vendendo esses produtos desenfreadamente. Entretanto, a verdade é incontestável: uma dieta a base de plantas é rica em proteína vegetal e todos os nutrientes que precisamos para sobreviver com saúde. É como esses “eco-chatos” dizem por aí: “se queremos ficar fortes como o boi, devemos então comer grãos como ele, não matá-lo para comê-lo.”

É claro que não espero convencer ninguém a parar de comer carne, mas a verdade é que existem questões culturais e hábitos que impedem as pessoas de se permitirem questionar, ou até mesmo de dar um primeiro passo. Contudo, a boa noticia é que o mundo está mudando, por um lado para pior, com problemas ambientais e de saúde, mas por outro, temos acesso a informação, e muitos países como a Inglaterra e Irlanda acreditam que essas informações merecem chegar até nós, pois a possibilidade de ser vegano existe e não é uma coisa de outro mundo, que só bicho grilo faz.

Como comecei dizendo no meu texto, espero que assim como Londres, que leva esse assunto a sério, o veganismo tenha uma chance de se explicar e se defender, e, quem sabe, você possa conhecer esse estilo de vida, entender melhor os conceitos, consumir com mais consciência e, enfim, absorver o que há de melhor na diversidade: a oportunidade de repensar e mudar.

Para quem se interessou, coloco aqui alguns documentários sobre o assunto: Cowspiracy, Forks over Knives e Earthlings.

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14 comentários

Francisco Nobre Março 8, 2017 at 5:43 pm

Sou muito simpático à causa vegana. Já pensei muito em adotá-la e o fiz em pequenos intervalos. Algumas coisas me impediram de prosseguir, como uma prima que adotou a prática e alguns meses depois adquiriu uma baita anemia e perdeu muita massa muscular, mesmo após consulta com nutricionista, ou pela dificuldade de encontrar produtos veganos a preços ao menos competitivos (tipo, 20 ou 30% mais caros, mas o pouco que encontramos no Brasil é o dobro do preço de similar animal). Infelizmente não dá para comparar a dieta de um boi com a nossa, pois a anatomia do sistema digestório do boi é totalmente diferente do nosso. E fui ensinado, e ainda acho bem plausível, que nós seres humanos só temos esse cérebro enorme graças à mudança de dieta, de totalmente herbívora (quando ainda nos assemelhávamos aos antigos chimpanzés) para a atual onívora, quando incluímos cada vez mais alimentos ricos em proteína animal. Se não fosse essa mudança talvez ainda fossemos chimpanzés. Quem sabe?! Mesmo assim, concordo inteiramente com a total supressão de alimentos e produtos de origem animal em nossa dieta e consumo, haja vista o imenso sofrimento que causamos a eles. Se morasse na Inglaterra, pelo que você escreveu, talvez a mudança fosse mais fácil.

Resposta
Johana Quintana Março 8, 2017 at 11:29 pm

Oi Francisco, que bacana conhecer um pouco da sua experiência! Fico feliz de receber novas perspectivas e ideias.

Sinto muito sobre o que houve com sua prima, espero que ela tenha se recuperado rapidamente.

Como pôde perceber, não sou especialista no assunto, apenas escrevo sobre minhas experiências pessoais e divido minhas opiniões e um pouco do conhecimento que obtive. Por exemplo, sei que há muitos casos de pessoas que aderiram à dieta vegana e que se sentiram bem, melhoraram seus exames e passaram a ser mais saudáveis, inclusive atletas de alto rendimento (veja http://www.greatveganathletes.com), além de pessoas normais como eu e meu marido.

Sobre os preços, você tem razão: os substitutos diretos de proteína animal como carne de soja, leite de soja, entre outros, são mais caros do que as alternativas tradicionais (carne, leite, ovo) – inclusive meus pais já comentaram isso comigo. Sem dúvida em Londres temos opções mais acessíveis (até porque aqui a carne é mais cara do que no Brasil, um dos maiores produtores do mundo, que consegue oferecer preços baixos), mas será que não seria possível fazer um mercado e uma feira super completos com opções naturais (sem as alternativas industrializadas)? Por exemplo, quando falamos com a nutricionista, ela recomendou o aumento do consumo de verduras verde escuras (que possuem alto índice de proteína vegetal) temperadas com limão (que ajuda na absorção da proteína), legumes como brócolis, grãos como ervilha, feijão e lentilha (que são ricos em proteína, e talvez a maior fonte de proteína hoje na minha casa), tofu e cogumelos – além de nozes, castanhas e talvez até suplementos de proteína veganos (temos um de ervilha e arroz aqui). Repare que todos estes alimentos (excluindo o suplemento) são naturais e provavelmente uma lista de compra com eles não seria necessariamente mais cara do que uma com carne, leite e ovo. Aliás, sobre o leite, você pode tentar produzir em casa o seu próprio (utilizando castanha de caju ou soja, por exemplo), se quiser depois te passo receitas.

Sobre a questão da dieta do boi, você tem razão, não podemos comparar e não foi essa a minha intenção quando citei aquela frase, foi apenas mostrar, usando uma frase descontraída, que é possível sim ser saudável comendo apenas produtos de origem vegetal. E claro, concordo que a proteína foi essencial para o desenvolvimento do nosso cérebro, mas não necessariamente a animal. Inclusive, na época que éramos semelhantes aos chimpanzés, não havia estudos sobre os alimentos, nutrientes e dietas recomendadas – por isso uma alimentação à base de plantas naquela época talvez pudesse “deixar a desejar”, porque não continha todos os nutrientes que precisávamos para nos desenvolvermos. Mas, agora, com toda a informação que temos sobre o valor nutricional e constituição dos alimentos, será que não conseguiríamos nos nutrir como os nossos antepassados sem ingerir proteína animal?

Enfim, se você tiver interesse dê uma olhada nas fontes que coloquei no final do texto. Talvez mostrem para você alguns aspectos sobre saúde de maneira mais técnica e te dêem mais segurança. O documentário “Forks Over Knives”, por exemplo, fala bastante sobre nutrição e saúde – e está disponível no Netflix.

Resposta
Anabela Dias Março 8, 2017 at 6:01 pm

Muito bom, obrigada! São textos como este que me fazem acreditar num futuro melhor!

Resposta
Johana Quintana Março 8, 2017 at 10:43 pm

Obrigada pelo apoio Anabela. Fico feliz em saber que gostou. Tenha fé sim, o futuro a nós pertence.

Resposta
Gabriel Março 8, 2017 at 11:00 pm

Incrível!! Parabéns!!

Resposta
Johana Quintana Março 8, 2017 at 11:31 pm

Obrigada!!!! 🙂

Resposta
Lucas Nunes Março 9, 2017 at 3:30 am

Texto incrível, só acho!

Resposta
Johana Quintana Março 9, 2017 at 2:55 pm

valeu!!

Resposta
Karen Teles Março 10, 2017 at 2:28 pm

Adorei! E falando sobre os preços, na verdade, produtos que já estão prontos na prateleira para consumo como leite de soja, soja cozido a vapor, tofu, homus, etc… realmente são muito mais caros. Mas se você optar em cozinhar, ou em fazer seu próprio leite por exemplo, você gastaria menos. Ah mas dá trabalho! Sim, tanto quanto cozinhar uma carne, um frango ou um peixe dão trabalho. Ah mas eu não sei fazer… dá um google em receitas veganas, Bela Gil tem ótimas receitas também, como a moqueca de jaca que fiz e amei! Boa sorte pessoal! Beijão Joh e parabéns pela iniciativa do blog, amei!

Resposta
Johana Quintana Março 11, 2017 at 6:22 pm

Boa Ka, é isso mesmo, existem milhares de opções, basta usar um pouco do seu tempo para dedicar-se ao preparo delas.
Bjs!!!

Resposta
Denise D. Março 15, 2017 at 11:48 pm

Apoiadíssimo ! Adorei seu texto.
bjs

Resposta
Johana Quintana Março 16, 2017 at 3:37 pm

Obrigada Denise. 🙂

Resposta
Erika Fevereiro 4, 2018 at 10:18 pm

Olá. Muito bom seu texto. Estamos com um grande problema em santos.
Temos um navio com 27mil bois abordo e estamos tentando acabar com isso.
Por favor precisamos viralizar isso p o mundo.
Caso interesse entre em contato, por amor

Resposta
Johana Quintana Fevereiro 5, 2018 at 12:23 pm

Oi Erika, bom dia!
Tenho interesse em ajudar sim. O que precisam?

Beijos, Joh

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