Vida de imigrante: os prazeres e as angústias de migrar

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Alguma estátua que me identifiquei muito em algum de Berlim. Foto: Acervo pessoal
Alguma estátua que me identifiquei muito em algum de Berlim. Foto: Acervo pessoal
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Vida de imigrante: os prazeres e as angústias de migrar.
Venho por meio deste abrir meu coração pra vocês, queridos leitores, mais uma vez, e divagar um pouco sobre essa vida louca e linda de imigrante.
Ouço muito as pessoas falando por aqui que não são imigrantes, e sim expatriados, que imigrante é uma maneira menos polida de dizer que saímos do nosso país de origem e viemos tentar a vida em outro. Será mesmo? Olha o que diz o dicionário:
Imigrar: Instalar-se em um país estrangeiro, normalmente, de modo definitivo.
Imigrante: Pessoa que habita e possui residência fixa (legal ou ilegal) em um país estrangeiro.
E agora expatriado: Indivíduo que foi alvo de expatriação; quem se expatriou; pessoa que foi obrigada ou não a viver fora de seu país.

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Mesma coisa, né não? Eu gosto de falar que sou imigrante, pois é isso que sou mesmo. Saí do Brasil pra viver na Alemanha por escolha própria, felizmente. Não porque precisava, e sim porque queria uma experiência de vida. Hoje tenho passaporte europeu, mas nada disso tira de mim essa definição, e não tenho vergonha nenhuma disso, pelo contrário. Penso que por mais tempo que passe aqui ou em qualquer outro país, que mesmo que aprenda a falar a língua local, super me adapte 100% aos costumes e tradições locais, serei sempre uma imigrante em um país que não seja o nosso Brasil varonil.
Pois bem, definições feitas, vamos simbora embarcar em mais uma aventura escrita. Vem comigo?

Quando a gente decide migrar para outro país, independente do motivo (no meu caso, como falei acima, por escolha mesmo), a primeira coisa que pensamos e a única certeza que temos é que será tudo diferente do que estamos acostumados. A língua vai ser outra, a cultura, o jeito das pessoas, o clima, tudinho, na maioria dos casos, vai mudar. E a gente vai se preparando pra isso aos poucos, no processo de sair de casa e migrar. O que ninguém te conta é que, depois de um tempo, essas mudanças acabam se tornando corriqueiras, e pessoas que são adaptáveis (e quem quer migrar tem que ser ou ao menos se esforçar pra ser adaptável) se acostumam com isso.

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Só que no momento que você sai do seu país, onde na maioria das vezes vivemos em uma zona de conforto gigantesca (e não falo zona de conforto de privilégios, de grana, etc., falo zona de conforto geral, desde a simples tarefa de sair e comprar um pão na padaria da esquina e saber pedir exatamente o que tu quer até receber uma carta em casa e entender tudo que tá escrito nela), a gente NUNCA MAIS entra em zona de conforto. Estou sendo radical, eu sei, e perdoe-me quem já se sente numa zona de conforto no seu novo país, porque eu, depois de 2 anos e meio fora não sei o que é estar fazendo algo totalmente confortável. Entendem?

Mesmo em Berlim, lugar que eu tanto amo e onde é minha casa agora, que é uma cidade aberta, cosmopolita, onde na maioria das vezes eu posso falar inglês com as pessoas e muitas vezes até o português, mesmo aqui, a zona de conforto é algo que eu acredito nunca mais alcançar.

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Vocês podem estar pensando: “Tá, mas e aí, Mah, é horrível não se sentir numa zona de conforto, não é? Então porque tu tá aqui?” NÃO, gente boa, não é horrível, eu diria que é desafiador. Aqui eu me sinto todos os dias tendo que provar a mim mesma que eu consigo as coisas, que eu sou capaz. Aqui eu comemoro as pequenas vitórias do dia a dia que quando eu morava no Brasil eram esquecidas.

Aqui em vibro a cada frase que consigo pronunciar em alemão, a cada informação que consigo dar na rua, a cada produto que descubro no supermercado e consigo realmente entender pra que serve. Aqui me sinto vitoriosa quando saio pelas ruas de bicicleta e não uso o Google Maps ou quando pego o metrô e desço exatamente onde eu queria, apenas olhando as informações das estações. Aqui vibramos e comemoramos coisas que todos deveríamos vibrar, pois essas vitórias diárias é que fazem a vida valer a pena e que nos fazem sentirmos vivos, sabe como é?

Eu sinto falta de não me sentir segura, claro, estaria mentindo se dissesse que não é cansativo todos os dias ter que provar ser forte pra si mesma, provar ser bom, capaz. Às vezes a vontade que dá é de sentar no sofá, pegar uma almofada e gritar: CHEGAAAAA! Para o mundo que eu quero descer, não aguento mais esse monte de desafios, só quero relaxar e simplesmente viver.

Várias vezes essa vontade vem, mas sabe o que é bom? É que essa vontade dá e passa. E nos momentos em que estamos vibrando por aquela super pequena inesperada e louca vitória diária de ter conseguido marcar um médico especialista em alemão e ainda por cima ter conseguido bater um breve papo no telefone com a moça do outro lado da linha, a sensação é tão mais maravilhosa e surpreendente que a gente deixa de lado a vontade de sumir e gritar ou afoga ela com algumas boas cervejas. E lembra o porquê de termos saído do nosso querido país: pra nos tornamos pessoas melhores.

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É isso que a gente busca aqui, dia a dia, vitória a vitória, desespero a desespero, choro e riso aqui se misturam muito. E quem disse que ia ser fácil? Fácil não é, mas tudo que se conquista a base de muito suor e perrengues é mais gostoso. E assim seguimos, nessa escolha maluca e deliciosa, cheia de prazeres e de muitas angústias, aproveitando cada dia nesse caminho de ser imigrante, porque o futuro a gente não sabe, então o negócio é curtir MUITO o processo todo, o hoje.

Uma vez li uma frase, inclusive foi em um comentário aqui no site, de um leitor muito sábio que disse assim: “Deus deve ter no paraíso um espaço especial para as pessoas que migraram.” #euacredito

E com essa frase eu deixo vocês, um beijo e um TAMO JUNTO pra todos os imigrantes mundo a fora. A GENTE é F#%&. Rs

4 Comentários

  1. Ótimo texto. Esses dias fui no dentista (aqui no Canadá) e precisei ligar para o plano dentário e entender porque tava dando problema no cartão com a boca toda anestesiada (hahaha) Falando inglês, tentando pronunciar e babando tudo ao mesmo tempo. Rio toda vez que lembro, mas consegui resolver. Isso que importa!

    • Oiii Camila! E não é? Bem isso, e tu arrasou hein? Falar inglês com a boca anestesiada é pra poucas heheheheh adorei! Fiquei imaginando a cena hahahah obrigada pelo comentário e força pra nós! Somos guerreiras, um beijo Mah

  2. Me identifiquei muito. A gente nunca mais relaxa parece.. Eu sempre tentava entender o porquê.. Talvez vc tenha descrito bem, obrigada pelo texto! Acho ainda que gente não relaxa pq tá sempre preocupada se vai dar conta do amanhã, que não te deixa ficar em casa se estiver doente por exemplo. É muita responsabilidade. A vida adulta aqui te pede pra correr mais rápido!

  3. Parabéns pelo ótimo texto. Acabei de chegar e é exatamente isso que procuro, sair do conforto, manter o cérebro funcionando e me desafiar todo dia.

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