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Voltar ao Brasil, mas só como turista

Um ano e oito meses depois de ter saído do Rio de Janeiro, fiz minha primeira visita à minha cidade natal. Aproveitei que eu e os meninos estávamos de férias (eu do college, eles da escola) e decidimos passar duas semanas, em agosto de 2019, curtindo família e amigos. Meu marido, que havia acabado de trocar de emprego, ficou aqui por Toronto com o nosso gatinho (de certa forma, de férias também, com a casa só para ele).

Preciso confessar que não sinto falta do Brasil. Não sou o tipo de pessoa que sofre por não ter Carnaval, Guaraná, coxinha, praia ou feijão. Adaptei-me muito fácil ao estilo de vida e aos produtos do Canadá, e vida que segue. Sinto saudades, sim, dos meus amigos, da minha família, dos meus pais, mas ao sair do Brasil coloquei na cabeça que este era o preço pago por decidir correr atrás dos meus sonhos e de uma vida melhor, e vim sem olhar para trás.

Eu já morei fora uma época, ainda solteira, nos meus vinte e poucos aninhos, e tenho a nítida lembrança do choque que foi, para mim, retornar ao Brasil. Eu achava tudo estranho, tudo me incomodava e eu me senti meio sem pertencer ao meu país por bom um tempo. Por isso, desde que compramos as passagens, uma pulguinha atrás da orelha fazia-me pensar sempre em como me sentiria, como reagiria… Cabe aqui mencionar que viajando sozinha com meus dois filhos, minha ansiedade piorava com a questão da segurança, afinal, o Brasil não está fácil e o Rio não é para amadores.

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Mas chegou o dia da viagem, os meninos estavam ansiosos e eu embarquei na onda deles. Além de uma temporada de férias para descansar a cabeça, estar no Rio, dessa vez, significava conhecer a Carolina, minha sobrinha que havia nascido em novembro de 2018 e eu só conhecia por Facetime. Aliás, aqui vai mais uma confissão: essa viagem era, principalmente, por ela, e a sensação de segurá-la no colo pela primeira vez e de ver meus filhos encantados e apaixonados pela prima, fez tudo fazer sentido.

Cabe mencionar que organizar uma viagem nos termos da que fizemos, requer uma certa atenção aos detalhes. A passagem, por exemplo, conseguimos comprar com uma tarifa relativamente barata, num esquema de ligar direto para o escritório da Air Canadá no Rio e pagar com cartão brasileiro. Tivemos que fazer seguro de viagem, para o caso de precisar usar hospital (ainda mais viajando com crianças), e aí descobri que essa não é uma tarefa muito fácil, pois nem todas as companhias de seguro têm cobertura desse tipo (conseguimos numa empresa chamada Energia Seguros). Optei por comprar um chip pré-pago com plano de dados e manter o meu número no WhatsApp, pois assim poderia ter uma linha local e continuar falando pelo aplicativo com qualquer pessoa que já tivesse os meus contatos.

Enfim, foi uma organização diferente de todas as viagens que já havia feito e aí incluo, também e principalmente, organizar um calendário que comportasse tudo o que eu queria fazer e ver, encontros com amigos, programas familiares, carinhos nos meus pais, atividades dos meus filhos (que tinham mais uma quantidade louca de amigos para encontrar), visitas aos sogros, aniversário do meu caçula, um dia inteiro para atualizar minhas tatuagens, comprinhas e, é claro, “babar” na Carolina, afinal ela era o meu principal “ponto turístico”.

É engraçado estar na sua cidade mas sentir-se como uma visita entre seus familiares e amigos de uma vida. Em meio a matar saudades, saber como estão todos e ouvir fofocas e novidades recentes, eu me vi respondendo às mesmas perguntas dezenas e dezenas de vezes. “Mas como faz com o frio? As pessoas saem de casa no inverno? Mas como assim você não tá sentindo frio nesse inverno carioca rigoroso de 18°C? E as escolas dos meninos? Eles já têm amigos? Falam bem inglês? Quando será a próxima visita? Foi de vez ou pensa em voltar?” – A gente vira uma atração, uma celebridade momentânea, é até curioso.

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Outra questão interessante é ver como até bem pouco tempo eu fazia parte daquela realidade e, de repente, tudo aquilo passa a ser a vida dos outros, não mais a minha. No Rio de Janeiro, por exemplo, até mesmo por uma questão de sobrevivência, aprendemos que a pobreza, o caos e a violência fazem parte do cotidiano. Você pode não concordar, pode fazer a sua parte contra esse sistema, mas ou você deixa aquilo entrar na sua rotina, ou você pira. E eu, estando de fora, pude experimentar uma sensação de incômodo bem diferente à dormência que a gente se obriga a viver por lá. Lembro de passar ao lado de um camburão de polícia, por exemplo, e me sentir muito violentada ao olhar aqueles fuzis expostos pela janela, como se fosse uma coisa normal. Ou de me incomodar absurdamente ao ouvir as notícias absurdas dos telejornais. Longe de querer aqui entrar no viés político, apenas tentando descrever reações distintas de uma pessoa que passou 42 anos naquela realidade.

Outra coisa bem curiosa é que certas coisas que fizeram parte da minha vida inteira, de repente, perderam um pouco a graça. Coisas bobas, mas que me chamaram a atenção. Um exemplo: o Nescau não tinha mais o gosto que eu lembrava, e eu digo agora que prefiro o Nesquick, que vende aqui no Canadá. Ou distâncias dentro meu bairro, que eram pertinho, dessa vez me pareceram uma eternidade!

Por outro lado, família e amigos de uma vida são sempre família e amigos de uma vida, não importa a distância (e o mesmo vale para os amigos dos filhos). Numa viagem dessas, nós colocamos o papo em dia, recordamos situações incríveis e vemos que as pessoas que amamos continuam tendo um lugar especial no nosso coração. E nós no coração delas. E de inúmeros papos, aparecem mil convites para que eles conheçam a nossa nova casa e possam entender um pouquinho do que tanto me encantou no outro hemisfério.

Foi uma viagem diferente, com certeza. Cansativa, para dar conta de tantos eventos, mas principalmente calorosa, aconchegante e cheia de amor. Aliás, acho que nunca estive tão cercada de amor, mesmo estando fisicamente longe por tanto tempo. Eu continuo sem sentir falta da coxinha, da praia, do Carnaval, mas o Brasil deu-me o que de melhor eu posso carregar para qualquer lugar. E ainda tem a Carolina…

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6 comentários

Isadora Ferreira Andrade Novembro 12, 2019 at 9:27 pm

Eu gostei bastante! É bom ver uma visão diferente depois que saímos do Brasil.

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Flávia Bartholo Novembro 13, 2019 at 3:55 am

Oi, Isadora. Sim, apesar de ser algo muito pessoal, acredito que de uma forma ou de outra, todos nós mudamos a forma de enxergar as coisas depois da experiência de morar no exterior.
Bjs para vc!

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Jaqueline Novembro 14, 2019 at 9:11 am

É lamentável mas a sua reflexão foi bem realista . Eu vivo na Belgica á 15 anos e sinto a mesma sensação !

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Flávia Bartholo Novembro 14, 2019 at 4:57 pm

Oi, Jaqueline. Acho que a gente tem que ser honesto com o que sentimos, né? Já achei mais esquisito sentir assim, agora não ligo mais tanto. Temos que seguir em frente e sermos verdadeiros.

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Fernanda Campestrini Novembro 14, 2019 at 9:08 pm

Oi Flavia! Também sou colunista aqui e sou outra que não sente falta do Brasil, só das pessoas. Realmente, voltar é uma situação meio estranha, como a gente muda e tudo ficou lá. Mas sempre é bom ver as pessoas e matar saudades, né? Parabéns pela sobrinha!

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Flávia Bartholo Novembro 15, 2019 at 1:33 am

Oi, Fernanda! Fiquei curiosa e fui lá ver seu blog! Vou te acompanhar! Quanto à saudade e sentir falta, acho que depende de muitas coisas. Vejo gente aqui que não se adapta, que quer voltar ou que sente falta de tanta coisa, que vive melancólico. Não sei bem se eu não sinto pq “sou assim” ou pq saí muito bem decidida e resolvida. Fato é que me faz bem não sentir essa falta e torna as coisas aqui. mais fáceis (ou menos difíceis). Bjs!!

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