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Voltar para a Indonésia depois de 10 anos

Voltar para a Indonésia, dez anos após ter vivido aqui por dois anos, tem sido uma experiência, digamos, enigmática.

A primeira vez que vim era muito inexperiente e estava cheia de esperanças e expectativas. Eu nunca havia saído do Brasil e nunca havia morado fora da minha cidade, então tudo era assustador e excitante ao mesmo tempo.

Na ocasião, o país era recém saído de um período de ditadura e, por isso, ainda era bem fechado para o mundo exterior.

Amei apaixonadamente a Indonésia instantaneamente. Seu povo, o mais doce do mundo; sua comida deliciosa e com preços super acessíveis; sua cultura vasta e rica em detalhes; sua dignidade frente às intempéries da natureza ou da miséria; e sua pobreza econômica tão firmemente contraposta por sua grande riqueza espiritual.

Cheguei aqui logo após o Tsunami e, ao invés de encontrar um povo cabisbaixo e desanimado, encontrei uma gente forte, firme, resiliente e amorosa. São muito parecidos com os brasileiros: engraçados, festeiros e sabem rir das próprias desgraças. Mas são também muito firmes em suas convicções e não baixam a cabeça para convenções internacionais e regras preestabelecidas, e nunca os vi se curvarem ante países maiores cujas regras imperialistas por vezes tentam se sobrepor.

É um povo de personalidade forte e sorriso fácil, mas que lida melhor com a doçura alheia do que com sua possível dureza. Em outras palavras: sendo gentil você consegue o inimaginável, mas não tente arrancar nada à força. Não tente “domar” um indonésio. Não se atreva a dominá-los. Eles possuem um espírito livre e um imenso orgulho de sua cultura e história, e honram essa trajetória sendo leais a seus princípios.

Eles deixam bem claro, e já os ouvi usando exatamente essas palavras: não há país maior que a Indonésia. A ONU não é maior que a Indonésia. Ninguém nesse mundo é maior que a Indonésia. (Não à toa o coro de seu hino nacional bradar Indonesia Raya: que significa Grande Indonésia). No entanto, é bom deixar bem claro que isso não chega nem perto de ser uma declaração de que a Indonésia seria maior do que quem quer que fosse. Eles não pretendem subestimar ou submeter outros povos, apenas deixam claro que esse povo não se curvará a outros povos, porque não precisa e porque não quer. Sabe o famoso complexo de vira-lata? Então, eles não fazem ideia do que se trata.

Bom, se da primeira vez vim para cá estava cheia de alegria e empolgação, dessa vez vim triste e contrariada. Como disse em meu texto anterior (aqui) , eu não estava preparada para voltar agora.

Queria muito mesmo voltar para a Ásia, mas não agora. No entanto, bastou uma semana no meio desse povo para lembrar porque eu amei tanto esse lugar a ponto de chamá-lo de “minha casa fora de casa”.

Aqui eu me sinto de fato amada.

O povo é afetuoso demais, é humilde e muito acolhedor. As pessoas sorriem para você na rua de graça!

Ok, tenho certeza de que algumas pessoas vão dizer que estou exagerando e que nem tudo são flores. E não são mesmo. Claro que não! E também preciso dizer que certas coisas só acontecem quando você está com o coração aberto para receber e os olhos abertos para enxergar.

Tem gente que vem aqui e não enxerga nada disso, e talvez eu enxergue simplesmente porque eu seja como eles. Exatamente igual a eles. E de tal maneira igual que, não raro, sou confundida na rua com as mulheres locais.

Sou pobre, alegre e deslumbrada com as pequenas alegrias da vida como eles.

Como aprendi com essa gente, convivendo com os sobreviventes do Tsunami de Banda Aceh!É um povo que tem o dom da primavera. Como nós! Como eu!

Mas bem, sempre digo que um rio nunca é o mesmo rio quando você mergulha pela segunda vez. E assim também é quando você volta depois de muito tempo longe.

A Indonésia está mais globalizada. Há muito mais acesso a gastronomia ocidental, os supermercados vendem de tudo que se imagina. Lembro que antes tinha que ir a Singapura para comprar salame ou salsicha que não fosse de carne de vaca, camarão ou siri (não se vendia a carne de porco em supermercados comuns por conta da religião). Lembro que na semana em que cheguei em 2005, extremistas religiosos haviam explodido um mercado que vendia carne de porco no interior do país.

Agora temos acesso a quase tudo que tem aí (menos farofa, carne seca e sonho de valsa, risos). Embutidos, marcas internacionais e redes mundiais de fast food estão por toda parte – embora eu ache o máximo poder ir a vários shoppings diferentes e nenhum deles ter um McDonalds sequer, já que a marca não é tão popular aqui – e o acesso a produtos internacionais de maneira geral está cada vez mais acessível. Já achei até pão de queijo no supermercado!

A parte chata é que havia mercados locais onde eu amava ir para comprar batik, bolsas, artesanato e outras coisas e agora estão “empesteados” de produtos chineses, imitações e coisas que são pura demanda ocidental, mas que naquela época existiam, porém estavam longe de ser também uma demanda local.

O batik continua sendo a roupa mais tradicional e mais usada pelo povo nativo, mas em alguns lugares mais “chiques” que tenho ido, tenho visto mais roupas no estilo ocidental. Menos bordados, menos lantejoula e renda, menos tecidos locais. Os grandes mercados continuam vendendo produção local, mas se antes eu via batik por toda parte, agora eu vejo roupas da frozen, leggings e croppeds.

Claro que todo mundo tem o direito de experimentar de tudo, mas fiquei com uma estranha sensação de que uma invasão ocidental está varrendo o país com suas quinquilharias desnecessárias e seu consumismo selvagem.

Também percebi que há muito mais chineses nas ruas (indonésios-chineses) e, normalmente, estão nos locais de maior condição socioeconômica. Tenho observado que nos locais de maior concentração de renda, os chineses são os consumidores e os indonésios os prestadores de serviço. Claro que isso não é uma generalização, é uma observação parcial e empírica do que tenho vivido cotidianamente, mas, aparentemente, é real e tem sido o motivo de uma grande mobilização xenofóbica por parte de indonésios contra os chineses, que têm concentrado hoje a maior parte do capital econômico do país.

Isso tem tido um impacto que vai para além da economia. Afeta a moda, a cultura e até a maneira como o povo local lida com a religião. Nunca vi tanta música de Natal, Papai Noel e ridículos floquinhos de neve espalhados por essa cidade de 40 graus, que nem comemora o Natal. Tudo made in China, claro!

Preciso explicar, antes de tudo, que eu amo a China, mas é fato que eles estão dominando a Ásia (o mundo?) e isso gera impactos sérios. E eu ousaria dizer, cultural e antropologicamente complicados.

Como resposta, o país está vivendo uma onda nacionalista. É uma resposta natural dada não apenas aos chineses, mas a todos nós que aqui estamos trazendo nossas culturas e costumes para se mesclarem aos deles.

As leis estão mudando e dificultando a emissão de vistos de trabalho. Conseguir um emprego sendo gringo, virou um drama à parte. Antes era super comum encontrarmos dezenas de pessoas que se aventuravam por essas bandas, dando aulas de inglês para sobreviver e conviver com a cultura local, fazendo mochilão ou apenas passando algum tempo maior nesse lado encantador do planeta. Agora são tantas exigências para se contratar um professor, por exemplo, que essa é uma porta praticamente fechada para quem não for, de fato, um profissional de nível internacional recrutado para esse fim. Para trabalhar aqui você tem que comprovar uma especialidade não encontrada em nível local. Então, esse continua a ser um terreno profissional fértil para profissionais de alto nível, mas, obviamente, deixou de ser um local para “aventureiros”.

As escolas internacionais também estão sofrendo várias sanções. O ensino do bahasa indonesia (língua local) passou a ser obrigatório – o que de fato eu acho justo – além de educação cívica e, em alguns casos, religião. Nenhuma escola pode mais ostentar o título de Escola Internacional. Elas ainda podem desenvolver um currículo próprio, como Cambridge, por exemplo, mas devidamente submetidas às regras indonésias.

A solução para o nome de algumas foi trocar o internacional por intercultural ou independente, por exemplo. Todas essas mudanças acabam impactando a economia local, já que os expatriados alimentam um nicho do mercado que é impossível de ser suprido apenas pelos locais.

Outro ponto delicado é que o recente presidente eleito na Indonésia tem uma posição bem fundamentalista e tradicionalista, o que tem “engessado” o desenvolvimento de algumas ações de promoção dos direitos das mulheres, dos LGBTs e de não muçulmanos. Como efeito colateral, o extremismo religioso tem começado a dar as caras depois de muito tempo de convívio tolerante e respeitoso entre os “diferentes”. Basicamente o que também temos vivido no Brasil e em muitos outros lugares do mundo, afinal, esse recrudescimento no exercício das liberdades individuais tem crescido ao redor do globo terrestre e, ao que parece, não vai parar tão cedo.

Felizmente, há no mundo todo gente engajada em fazer desse um mundo mais justo e humano e aqui não é diferente.

Sigo me deliciando em receber, no meio da rua, sorrisos de gente que eu nunca vi.

Se existe um lugar no mundo com potencial para a bondade e a solidariedade, esse lugar é aqui. Por isso, quero muito dar o melhor de mim para esse povo que sempre me acolhe como se eu fosse uma igual.

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3 comentários

Danylo Vilaça Janeiro 23, 2017 at 12:44 pm

Indonésia Rayane, fiquei encantado. Acredito que, tudo na vida tem seus prós e contras e no caso dá globalização na Indonésia, o contra seria o afastamento da cultura original tão bem apresentada em seu texto, Fabi. Fiquei motivado a visitar esse país um dia… Amei saber que encontrou pão de queijo no supermercado. Felicidades para você e sua família em Jakarta e onde quer que estejam!

Resposta
Fabi Mesquita Janeiro 23, 2017 at 12:50 pm

Ah meu amoooor! que saudade! Preferia encontrar vc do que o pao de queijo hahah bjs

Resposta
Danylo Vilaça Janeiro 23, 2017 at 12:45 pm

Indonésia Raya!* Corrigindo!

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