Por que há tanta tristeza em países felizes?

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Saúde Mental. Tema cercado de tabus, de barreiras que despertam curiosidade mas também assustam. Somos mergulhados em um profundo mar de dúvidas e incertezas sem entender ao certo como países desenvolvidos e considerados tão felizes podem ter tanta tristeza. Nesse mês meu olhar imigrante se volta para esse cenário, e longe de encontrar verdades, que possamos nos questionar, pensar, sentir, e cuidadosamente tentar iluminar um pouco do escuro túnel que é esse tema, em qualquer lugar do mundo.

Por que falar disso?

A nível mundial parece estarmos em crise nessa área, Saúde Mental. Nunca se falou tanto sobre esse assunto, como se a sociedade estivesse sendo “forçada” a olhar para algo difícil de encarar. Sim, está sendo forçada, sem alternativa. Jogos suicidas virtuais levando jovens fragilizados ao terrível desfecho, seriados que literalmente “atiram” no seu despreparado público um tema que dói de verdade, dói na alma. Suicídio, sofrimento psíquico, doenças mentais. Fenômenos humanos difíceis de entender, mas de impacto fulminante. Afeta gerações e modifica a vida de todos ao redor.

Como brasileiros, podemos ser motivados a associar essa trágica realidade aos nossos já conhecidos problemas sociais. Infelizmente índices negativos não são novidade e nos acostumamos com notícia ruim. Somos o 8º país em número de suicídios no mundo, é o que diz a Organização Mundial da Saúde (OMS), no seu primeiro relatório de prevenção do suicídio, em 2014.

“Os tempos são outros”, quem não ouviu essa expressão? Apesar de antiga, serve muito bem para explicar o mundo em que vivemos. Hoje possuímos muitas facilidades, principalmente em termos de tecnologia. Temos acesso a informações o tempo todo, ferramentas que facilitam nossa vida, estamos conectados, é o fim da solidão! Será?

Virtualização das relações. Crianças com agenda cheia, criadas para o sucesso e treinadas para o desempenho e desenvolvimento máximo de suas habilidades. Adolescentes imersos no vazio de uma sociedade individualista e hiper-consumista, sem referenciais sólidos que sustentem as angústias e os desafios próprios da sua etapa de vida. Pais perdidos, exaustos e sem tempo. Fragilização das famílias. Infelizmente as facilidades tecnológicas trouxeram também esse outro lado.

Essa é a grande urgência desse tema, a exposição de tantos jovens, essencialmente adolescentes, à uma situação limite. Essa vulnerabilidade não é exclusiva de países menos desenvolvidos, é o que dizem os números.

E quanto aos países desenvolvidos?

Naturalmente somos levados a acreditar que países desenvolvidos, com altos índices positivos não enfrentem problemas semelhantes. É um impulso natural e espontâneo principalmente quando viemos de uma realidade tão diferente.

Vivo num país admirado pelas suas qualidades, não só geográficas, mas enquanto sociedade modelo e altos índices positivos, a Nova Zelândia.  Acreditem isso é real! Basta andar na rua para confirmar! O país que hoje possui pouco menos de 5 milhões de habitantes, acolhe bem desde idosos, crianças, até deficientes físicos, nas suas particularidades, todos incluídos na dinâmica social. Infelizmente não impede de haver um alarmante índice de suicídios no país e uma grande preocupação por parte do governo. Em 2014, 504 pessoas morreram por suicídio na Nova Zelândia, o que equivale a uma taxa de 10,7 por 100.000. Para cada suicídio feminino, houve 3 suicídios masculinos (Ministério da Saúde, Nova Zelândia, 2016).

Aqui em especial, se lida com uma sociedade bastante diversa, são diferentes culturas que coabitam no mesmo território. Esse é um dos grandes atrativos, a meu ver, uma riqueza cultural incrível. Porém, cada cultura lida de forma diferente com a doença, principalmente no caso das doenças mentais. Além disso, possuem suas próprias representações sociais quanto à família, sociedade, papel do homem e papel da mulher, sucesso e fracasso… O que aumenta ainda mais a complexidade sobre a questão do suicídio aqui na Nova Zelândia.

Existe um estudo interessante chamado O paradoxo de altos índices de suicídio em lugares felizes (Dark Contrasts: The Paradox of High Rates of  Suicide in Happy Places), Daly, Oswald e Wilson (2011) que mostrou um resultado surpreendente: indivíduos mais fragilizados podem sentir-se pior e ter mais dificuldades em lidar com suas alterações de humor em um lugar que seja “modelo de felicidade”. Para os autores, muitas pessoas podem sentir-se extremamente diferentes desse modelo e isso poderia agravar seu sofrimento aumentando a sensação de exclusão…  Em outras palavras, poderíamos resumir como a corrida pelo sucesso, pela satisfação pessoal, pelas conquistas e aqueles que de alguma forma se sentem excluídos desses padrões construídos? Talvez sim.

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Você sabe o que é uma doença mental?

Doenças mentais são fenômenos resultantes da combinação de muitos fatores, não somente socioeconômicos. Podem ser biológicos, familiares, culturais, vulnerabilidade genética, exposição a situações traumáticas, situações abusivas, violência, etc. Por isso dizemos que é complexo. Existem estágios que antecedem a doença mental, como no caso da depressão grave, por exemplo, que pode ser tratada sem impedir uma vida de qualidade. A própria palavra “crise” tem na sua origem grega o significado de definição e resolução, ou seja, as crises fazem parte do processo humano normal de desenvolvimento e infelizmente a sociedade contemporânea só percebe no sucesso e êxito o sentido para suas vidas. Se houver prevenção e informação, possivelmente muitas pessoas poderão evitar tais doenças, já nos primeiros sinais. A OMS estima um suicídio a cada 40 segundos no mundo e mesmo assim, não há na grande maioria dos países investimento e uma política de prevenção.

Prevenção

Em um mundo tão competitivo e de relações que beiram à superficialidade, o estigma de se falar sobre esse assunto ganha força. Vergonha, medo e negação são sentimentos comuns e que acompanham àqueles que estão acometidos por algum nível de sofrimento emocional. O processo de aceitação e busca de tratamento pode levar anos e muitas vezes é desencorajado pelas pessoas que deveriam apoiar: família, amigos, colegas de trabalho e em alguns casos o próprio cônjuge. A forte representação social de fraqueza e fracasso, dificulta esse acolhimento e a prevenção, que poderia simplificar de forma significativa o sofrimento e em casos extremos, o suicídio. Em se tratando de adolescentes, onde os recursos psíquicos estão ainda em processo de desenvolvimento, fica ainda mais difícil transpor essas barreiras.

O que concluímos então?

Como disse anteriormente, esse é um tema que mobiliza, assusta, porém não diminui a sua importância e urgência no cenário atual. Apesar de não encontrar todas as respostas que gostaria me deparo com uma grande lição: não podemos nos esquecer do que é verdadeiramente humano, antes de qualquer ideal a ser seguido, de qualquer modelo. Não olhar para o sofrimento humano, para as diferenças, não significa que não existam.

Deixemos que a próxima geração esteja mais conectada com suas próprias emoções, suas angústias, ensinemos a falar disso e principalmente, estejamos preparados para ouvi-los.

Não esqueça: Não é necessário ser um profissional para contribuir positivamente com alguém que precise de ajuda, através da escuta e empatia, podemos nos conectar ao outro e isso certamente irá resultar em um grande alívio àquele que está sofrendo. A abertura emocional que ocorre quando caem as barreiras do estigma são ferramentas terapêuticas ao alcance de todos.

“Buscamos, no outro, não a sabedoria do conselho, mas o silêncio da escuta; não a solidez do músculo, mas o colo que acolhe.”

Rubem Alves

 

Caso haja urgência, não hesite em procurar, orientar ou encaminhar a pessoa até um serviço de emergência médica. Seguem alguns  links e contatos de organizações que podem orientar e ajudar:

Nova Zelândia:

Mental Health Foundation

Lifeline – 0800 543 354 or (09) 5222 999 within Auckland

Suicide Crisis Helpline – 0508 828 865 (0508 TAUTOKO)

Healthline – 0800 611 116

Samaritans – 0800 726 666

Depression Helpline – 0800 111 757 or free text 4202 (to talk to a trained counsellor about how you are feeling or to ask any questions)

Brasil:

CVV

CVV (Centro de valorização da vida) – 141

CAPS (Centro de atenção psicossocial) – Procurar na sua cidade, caso não possua, procure o posto de saúde mais próximo.

Referências:

DALY, M. C.; OSWALD, A.J; WILSON, D.J.  Journal of Economic Behavior & Organization.  Dark Contrasts: The Paradox of High Rates of  Suicide in Happy Places, 2011.

NEW ZEALAND, Ministry of Health, 2016. 

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Preventing suicide: A global imperative, 2014. 

 

 

9 Comentários

  1. Vanessa, muito bom teu texto! demonstra preocupação com o sujeito em sofrimento e estratégias de prevenção

  2. Oi, Vanessa! Parabéns pelo teu texto, importante falar sobre suicídio.
    Também sou de Porto Alegre e psicóloga! Estou começando a pensar em um doutorado na Nova Zelândia. Seria ótimo conversar contigo, pode me passar teu contato? Abraço!

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