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Japão

Existe felicidade no Japão?

Esses dias recebi um vídeo com o título: “Dicas para alcançar a felicidade, segundo os japoneses.” Logo parei para pensar que nós, do ocidente, sempre tivemos em mente que a sociedade japonesa tem a receita para tudo e, além de viver até uma idade avançadíssima e guardar grande sabedoria, é formada por pessoas inegavelmente felizes. Bom, pensei, talvez os japoneses do meu convívio sejam exceções.

Infelizmente, não são. Apesar de oferecer muitas coisas boas e ser um país desenvolvido, contrariando as estatísticas mundiais, o Japão teve em 2016 mais de 20 mil casos de suicídios documentados. E, por incrível que pareça, é uma taxa mais baixa do que os anos anteriores, perto das crises financeiras. Os motivos apurados são variados, mas a maioria envolve as questões econômicas, de saúde e de subsistência. Ano passado, o suicídio foi a principal causa de morte entre homens japoneses entre 20 e 40 anos.

Aqui, dá para se ganhar bastante dinheiro. Mas me pergunto até que ponto o dinheiro vale a pena. Há, também, bastante oportunidade de trabalho para quem estiver interessado – e para quem tiver saúde para isso. Pelo menos para os estrangeiros, o tipo de trabalho mais comum é dentro das fábricas (principalmente para quem não tem domínio do idioma). Claro que cada lugar é diferente, mas existem vários tipos de trabalho. Alguns são braçais, de serviço pesado, e outros não. Geralmente, os que pagam melhor são os mais cansativos.

Leia também: 10 curiosidades sobre o Japão

Eu trabalho em uma fábrica de eletrônicos, e a experiência é diferente de tudo que já vivi. Pelo ramo da fábrica, o serviço é bem tranquilo. Não preciso carregar peso, não é um trabalho sujo e o ambiente é relativamente silencioso, mas são 8 horas em pé, fazendo mais ou menos a mesma coisa.

Além disso, quase sempre tem hora extra – as chamadas zangyo – podendo chegar até a 12 horas de trabalho por dia, folgando uma vez por semana. O salário nesta fábrica não é dos maiores, mas é o suficiente para se viver bem aqui no Japão, e dependendo de como você vive, dá até para juntar um pouco, se você não tiver filhos. Proporcionalmente, é bem mais do que se ganha em média no Brasil, mas as condições são diferentes. O problema é: eu, brasileira, consegui o trabalho por meio de uma empreiteira, que apesar dos pesares, é uma proteção a mais aos contratados. Mas, como eu disse, nem sempre as condições de trabalho são “aceitáveis” assim. Inclusive, segundo esta matéria aqui, uma das causas recorrentes de suicídio no Japão é o estresse no ambiente de trabalho.

Na fábrica, observei algumas coisas que explicam muitos hábitos japoneses. Para tudo há regras. Costumo dizer que, trabalhando aqui, vivemos no país do “não”. Não pode tatuagem, não pode sapato x, não pode cabelo pintado, não pode tirar o colete no corredor, não pode, não pode, não pode…

Atrelado a isso, existe também a cultura japonesa de não reclamar. Se, por exemplo, um chefe te pressiona por causa de um problema, mas nada ocorreu por culpa sua, o japonês, culturalmente, abaixa a cabeça, pede desculpas e continua trabalhando. Eles não se impõem muito, ainda mais quando se trata de um chefe, por causa de uma relação de hierarquia, que é muito valorizada aqui. Eles deixam de se impor porque acham desrespeitoso, mesmo que estejam sendo injustiçados.

O resultado é claro: pessoas frustradas, sem conseguir expressar o seu descontentamento (até porque, de tanto viver sob as regras, acabam nem sabendo como!). A pressão vem de todos os lados, inclusive de si mesmo.

Por não saber como lidar com os sentimentos, as pessoas se isolam. As relações interpessoais aqui são diferentes, mais distantes e até mais “impessoais”. A solidão atinge a todos: eu mesma, que não vivo exatamente no “modo japonês”, muitas vezes me sinto sozinha, ainda que morando com meu marido. Agradeço todos os dias pelos amigos que conquistei aqui!

A depressão ainda é um tabu no Japão. Dessa forma, muitos dos que sofrem da doença não procuram ajuda porque têm medo de serem incompreendidos e não sabem expressar o que sentem. O sistema de saúde, nesse sentido, mais atrapalha que ajuda: não existe a cultura de buscar um psiquiatra para tratar depressão, e os médicos raramente trabalham junto a psicólogos, o que dificulta muito o tratamento.

Leia sobre: Dá para morar no Japão sem saber japonês?

Apesar disso, a taxa de suicídio vem diminuindo com o passar dos anos. Ainda bem! Pesquisadores japoneses acreditam que a queda se deu devido ao sistema de prevenção adotado recentemente, que conta com atendimentos via telefone. Quem sabe daqui para frente a sociedade japonesa tenha mais ferramentas para lidar com a depressão e, de fato, possa ser referência quando o assunto é felicidade. Mas, por enquanto, ainda há um longo caminho a se percorrer.

Imagem: pixabay

Lista de telefones úteis para quem está no Japão, dados pela revista Alternativa:

  • LAL (Linha de Apoio aos Latinos)
    Às quartas-feiras, das 10 às 21 horas; sextas-feiras, das 19 às 21 horas; sábados, das 12 às 21 horas. Tel: 0120-66-2488 ou 045-336-2488 (em português).
  • Sabja (Serviço de Assistência aos Brasileiros no Japão) – Aconselhamento Psicológico
    De segunda à sexta-feira, das 10 às 16 horas. Tel: 050-6861-6400
  • Linha da Vida (Hamamatsu) – Atendimento Psicológico
    Às sextas-feiras, das 19h30 às 21h30. Tel: 053-474-033

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2 comentários

Daiane Janeiro 7, 2018 at 4:41 am

Olá Juliana,
Estou assistindo uma série japonesa, e eu fiquei um pouco curiosa sobre a cultura japonesa quando se trata de relacionamentos amorosos e até mesmo entre amigos. Será que você poderia escrever um pouco sobre esse tema? Obrigada!

Resposta
Juliana Platero Janeiro 26, 2018 at 10:32 am

Oi Daiane, obrigada pelo comentário! Adorei a ideia, vou escrever sim!
Um beijo!

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