Chile – Bilinguismo de infância

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Crianças chilenas e estrangeiras interagindo. Foto: arquivo pessoal.
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Bilinguismo pode parecer um assunto já meio batido no universo da educação. Parece que todos falam e escrevem sobre isso, né? Essa impressão é realmente válida pra quem faz parte desse mundo, ou porque já vive há muito tempo em outro país ou porque trabalha na área de ensino de idiomas.

O fato é que o bilinguismo ainda é, e vai continuar sendo, uma preocupação para todos os pais que estão atentos ao processo de adaptação dos seus filhos fora do Brasil e à aquisição de uma nova língua. Quem não é professor de idiomas ou profissional da área relacionado à aquisição da linguagem, não tem nenhuma obrigação de ter conhecimento do assunto até o momento que seja necessário entender algo a respeito.

Pensando exatamente nisso, tratarei do tema usando uma linguagem que mães “normais” possam entende-lo de um jeito simples e direto.

O que é o bilinguismo?

O tema é MUITO extenso e existem várias propostas para definir o bilinguismo, assim como existem vários tipos. Agora, vou falar somente sobre o bilinguismo de infância.

O que é o bilinguismo de infância?

A aquisição de um idioma quando a pessoa ainda é uma criança. Na primeira infância, que segundo especialistas, se dá desde o nascimento até os 5 anos, e legalmente, até os 6 anos, uma única rede de neurônios trabalha para que a criança aprenda mais de um idioma de uma vez. Mais tarde, o cérebro precisará criar outra zona neural fazendo que o processo de aprendizagem seja mais lento. Conclusão? Quanto mais cedo se aprende um idioma, mais fácil é o processo de aprendizagem. Isso é fato e é comprovado!
Porém, qualquer ser humano pode aprender uma língua quando quiser, em qualquer fase da sua vida, claro!

O bilinguismo de infância ocorre de duas formas:

1-Aquisição simultânea (ao mesmo tempo) de duas línguas: quando a criança nasce em um lar onde dois idiomas são falados, por exemplo, pai chileno e mãe brasileira.
2-Aquisição de duas línguas de forma consecutiva (uma após a outra): quando a criança já tem alguma das habilidades (fala, audição) desenvolvida na língua materna – do país onde nasceu – e passa a aprender outra língua no país onde vai morar.
Esta segunda forma é o foco do meu texto, direcionado para os brasileiros com filhos pequenos que vem morar no Chile, porque é exatamente o que acontece com as crianças. Elas têm o português como língua da família, em casa, e o espanhol como língua na rua, no colégio – em termos bem simples, para que entendam.

Afinal, que idioma meu filho tem que falar em casa?

Se algum professor do seu filho recém-chegado diz que ele está tendo muita dificuldade em se comunicar em espanhol na escola e que vocês, pais, deveriam falar com ele em espanhol em casa, demonstrem que têm conhecimento do processo de aquisição de uma nova língua. De que forma? Diga que seu filho, por ser brasileiro e ter recentemente mudado para o Chile, será uma criança bilíngue, o que quer dizer que ele tem que ter acesso ao idioma nativo em casa e ao espanhol em sociedade, no caso, no colégio.

Explique que sua função, como mãe, neste contexto, é continuar se comunicando com ele em português e a função do colégio que o acolheu, sabendo que é estrangeiro, é dar todo o suporte necessário, especialmente nos primeiros meses. Como? Com muita paciência e dedicação, como qualquer profissional da área da educação DEVE ESTAR APTO a fazer.

Faça isso com muita educação, claro, mas com muita segurança! Mostre que você, como mãe, sabe o que está acontecendo (se não estava antes de ler o texto, agora está),e o que está acontecendo é NATURAL! Tudo se encaixa no seu devido tempo se, cada uma das partes envolvidas, cumprir o seu papel.

Caso essa “ignorância pedagógica” (acabei de criar um termo pra tamanha desinformação de um professor de um colégio que se denomina conceituado) persista, tenha certeza que o “problema” não está com sua família que fala português com ele, muito menos com seu filho que, obviamente, ainda não consegue falar espanhol no primeiro mês de aulas. O “problema” está com os profissionais que não sabem lidar com essa situação.

Se o colégio já está demonstrando essa falta de tato com o fato de uma criança estrangeira ainda não se comunicar em espanhol no primeiro mês de aula, fique de olho, isso é um alerta de que mais contratempos podem vir por aí.

Brasileirinha adaptada ao idioma no seu devido tempo. Foto: arquivo pessoal.

Essa fase inicial do aprendizado do idioma é muito importante, embora simples. Não permita que maus profissionais a prejudique. Como a maioria das escolas aqui no Chile têm recebido muito bem os brasileiros, os pais têm muitas opções caso sintam a necessidade de uma mudança. Eu, como mãe e professora de línguas, não sou partidária da ideia que quanto mais cara a escola ou quanto mais localizada nos bairros chiques, melhor. Priorizo, porque valorizo, bons profissionais!

No caso de uma criança estar apresentando dificuldade na fala, na pronúncia de algumas letras, isso NÃO se deve ao fato de ela estar aprendendo um novo idioma. Não existem evidências científicas de que o bilinguismo pode ocasionar atraso no desenvolvimento da linguagem. São duas coisas distintas. Lembrem-se que, dentro da normalidade, cada criança tem seu ritmo próprio, cada padrão cerebral é diferente. Por outro lado, ela pode, sim, ter algum transtorno para o desenvolvimento da linguagem, independente da criança ser exposta a 1 (sua própria língua), 2 ou mais línguas. No caso de suspeita de um transtorno após os 3 anos de idade, ela precisará do auxílio de um profissional, um bom fonoaudiólogo ou matricular-se em uma Escuela de Lenguaje.

O que quero deixar claro é que seu filho teria essa mesma dificuldade caso estivesse no Brasil, falando somente português. A questão aí não é a aquisição de uma nova língua, são os distúrbios de linguagem ou um normal atraso. Dificuldade de fala não tem nada a ver com estar aprendendo um novo idioma!

Para finalizar, tenham certeza que o bilinguismo só traz vantagens para as crianças – para qualquer ser humano, na verdade. Nunca abandone a língua de herança do seu filho, nunca deixe de falar em português com ele. Se alguém lhe disser o contrário, demonstre que você sabe da importância de adquirir dois idiomas de forma consecutiva. Por outro lado, distúrbios de linguagem podem ocorrer se a criança falar 1, 2 ou 5 idiomas, sejam eles quais forem, e a solução é tratamento com um profissional adequado, não o abandono da língua materna.

Bem-vindas à riqueza dos idiomas.

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