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Neologismos do Espanhol Mexicano

Neologismos do Espanhol Mexicano.

Como em todo país, o México tem seus neologismos criados pelo povo e que retratam
características ou comportamentos tipicamente mexicanos. Alguns termos muito falados aqui não são encontrados em um dicionário espanhol da Espanha, por exemplo. Mais do que gostar de estudar espanhol, gosto quando me deparo com essas palavras e aprendo sobre sua origem e o que está por trás de suas criações. Para quem está chegando ao México, vale conhecer algumas delas.

1. ¿Mandé?

Essa foi a palavra que mais ouvi no México quando cheguei, principalmente porque usava meu portunhol para me comunicar e as pessoas não me compreendiam com clareza. Isso porque o termo “¿Mandé?” é semelhante ao “Quê?”, no Brasil.  Confirma-se, a palavra, quando as pessoas não a entendem e querem que você repita o que disse. Ou, simplesmente, quando as chamamos e elas nos respondem: “Quê? O que foi?”

A origem de “¿Mandé?”, assim mesmo, com interrogação, resulta do período colonial quando os índios, escravos dos colonizadores espanhóis, respondiam aos patrões, dizendo: mándame señor.

Porém, até hoje é muito usado por todos os lados. Os filhos de famílias tradicionais mexicanas respondem aos pais, dizendo “¿Mandé?”. Os avós e familiares mais velhos, então, nem se fala! A criança leva uma bronca se não respondê-los com o “¿Mandé?”. É como em nosso português que respondemos aos mais velhos como “senhor” e “senhora” em sinal de respeito. De qualquer forma, é bem diferente quando você chama alguém pelo nome e é respondido com o “¿Mandé?”. Não tem como não se espantar com uma palavra que semanticamente indica uma posição de inferioridade de quem a pronuncia. Há quem diga que outros países da América Latina criticam o México por usar o “¿Mandé?”, nos dias atuais, como se ainda existisse hierarquia de classes por aqui; o que, em parte, é verdade; pois, a submissão das camadas sociais mais baixas e o machismo são características marcantes do país. Uma prova disso é que a palavra “¿Mandé?” é ainda mais usada nas classes e posições socialmente desfavorecidas.

2. ¡Híjole!

Imagine que você passou horas trabalhando em um documento e perdeu todo o arquivo
quando o computador travou. Ou você está atrasado para um compromisso, sai de casa
dirigindo e a rua está completamente congestionada. É nessa hora que você fala o “¡Híjole!”, como se fosse “Caramba! E agora?” É um termo tipicamente mexicano e escutado por toda a parte – no comércio, nas ruas, no trabalho ou na vizinhança – e é uma interjeição derivada da palavra “hijo” (filho). No restaurante, por exemplo, se pedimos tacos de frango, o garçom poderia nos responder “¡Híjole, acabou o frango!” Quem vem morar no México vai ouvir o “¡Híjole!” logo no começo da vida.

Leia também: Hablas Español?

3. ¡Ándale!

“¡Ándale!” é aquela palavra gostosa de escutar, principalmente quando o som da primeira
sílaba é estendido ao máximo, soando como “¡Áaaaaaaaandale!” O sentido primeiro da
palavra, usado na segunda pessoa do singular, é o de apressar alguém, como “Vamos!”, por exemplo, ao querer atravessar rapidamente a rua. Como o termo é usado na segunda pessoa, o certo seria dizer “¡Ándate!”; pois, o pronome indireto, neste caso, seria o “te” e não o “le”, que é designado para a terceira pessoa. Porém, este uso gramaticalmente incorreto do pronome “le” para a segunda pessoa é bem característico do espanhol mexicano falado.

O segundo sentido da palavra (e o meu preferido) é quando alguém está tentando explicar algo e, quando você finalmente entende, a pessoa diz, demoradamente, “¡Áaaaaaaaandale!”, como se fosse o nosso “Iiiiiiiisso!” Definitivamente, é a palavra que eu mais gosto de escutar no espanhol mexicano; pois, traz o som cantado e gostoso de ouvir do idioma praticado no país.

4. ¡Órale!

O “¡Órale!” pode ser sinônimo de “¡Ándale!” no sentido de “Vamos!”, mas também é usado
para mostrar surpresa ou incredulidade, como “¡Órale! No creo que estás saliendo con él” (Não acredito que está saindo com ele!) É usado no início das frases, como neste exemplo, e muito falado pelos mexicanos. É uma interjeição bem regional, sem tradução, que seria mais ou menos como o “Uai” dos mineiros ou o “Bah” dos gaúchos, e também gostosa de escutar e falar. Além disso, é outro exemplo do pronome “le”, da terceira pessoa, usado
“equivocadamente” na segunda pessoa.

5. ¡Guácala!

Se você perguntar a um espanhol o que é “¡Guácala!” é bem difícil que ele conheça esta
palavra, assim como também não vai encontrá-la em um dicionário espanhol da Espanha. É outra interjeição bem mexicana, muito usada pelas crianças. Escutei-a, pela primeira vez, pelo meu filho de três anos, e, sinceramente, pensei que ele estivesse inventado essa palavra porque soou tão natural ao contexto e compreendi na mesma hora o sentido de “¡Guácala!”

É uma onomatopeia que traduz o som de algo que dá nojo, como uma comida que a criança não quer comer. Eu diria que é como o nosso “Blerca!”. Em espanhol, é sinônimo de “¡Que asco!”

Para quem não sabe ou não se lembra, onomatopeia são palavras ou conjunto de palavras cujo som reproduzem seu significado, muito usada na literatura de Guimarães Rosa, por exemplo.

Agora, imagine a cena da criança dizendo “¡Guácala!” enquanto faz uma careta para a comida que não gosta, com toda a espontaneidade própria da infância. Não é exatamente o som que diz “Que nojo!”? Outro neologismo mexicano que, mesmo não sendo dito em uma situação tão agradável como “¡Áaaaaaaaandale!”, é gostoso de escutar.

Leia também: Cidade do México: inferno ou paraíso

6. Ahorita    

Este termo deveria ser o primeiro desta lista por ser a palavra de maior crítica dos estrangeiros ao povo mexicano, mas deixei-o por último por dois motivos. Primeiro, porque não é uma palavra criada no México, faz parte do idioma espanhol e significa “agora mesmo”.

Segundo, porque já soube que o significado de “ahorita”, incutido no México, é usado em outros países da América Latina, como na Colômbia. Não sei dizer se é dito na mesma intensidade e frequência que no México, mas não acredito que seja. “Ahorita” é um ícone do povo mexicano e certamente uma das palavras mais ouvidas no país.

Embora “ahorita” signifique “agora mesmo”, o tempo no México é algo completamente subjetivo. Não conheço melhor exemplo de palavra que possa representar um povo. Se alguém diz “Ahorita voy”, que significaria “vou agora mesmo”, você pode esperar segundos ou um dia inteiro.

Gosto muito do México e do povo daqui, mas o “ahorita” é de irritar qualquer um. O garçom diz que “ahorita” vai trazer o seu prato; o seu funcionário diz que “ahorita” vai terminar a apresentação; a sua ajudante, em casa, diz que “ahorita” vai passar a sua roupa; alguém diz que “ahorita” fará a entrega em sua casa, e você não tem a menor ideia do quanto tempo vai esperar. E aí eu pergunto: “ahorita quando?” E eles respondem: “¡ahorita!”, como se fosse óbvio o significado da palavra. O tempo do “ahorita” pode ser tão longo que o mexicano inventou o diminutivo “ahoritita”, que significa “agorinha mesmo”.

Esse, sim, é um neologismo daqui. Ufa, quando me dizem “ahoritita” até respiro aliviada porque desta vez será rápido. Mas, quase nunca é. Ou seja, em geral, o povo mexicano tem esse jeito relaxado e tranquilo com o tempo das coisas. E o uso excessivo do “ahorita”, no dia a dia, demonstra isso.

É o principal motivo de piada dos estrangeiros em relação ao que é viver no México, e o assunto daria um post exclusivo, mas o mais engraçado é que o mexicano não percebe o uso subjetivo do “ahorita”.

Acredito que estejam tão acostumados a aceitar a espera e o atraso dos compromissos no país que é cômodo usar o “ahorita” para não se comprometerem com um horário certo.

Leia também: costumes mexicanos

Quando estou chegando de carro com compras do supermercado, normalmente ligo para a minha ajudante e peço-lhe para descer até a garagem e me ajudar com as sacolas. Sempre escuto como resposta o típico “¡Ahorita voy!” A vontade é de dizer: “Não é ahorita, é agora! Já estou chegando!”, o que seria uma grande bobagem; pois, ela iria me responder a mesma coisa: “¡OK, ahorita voy!” Bom, em todo o caso, agora ligo para ela quando ainda estou a vários quarteirões de casa.

Até o próximo artigo!

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2 comentários

Celina Julho 18, 2018 at 4:52 pm

Muito bom!!! Adorei

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Ana Paula Almeida Julho 21, 2018 at 2:26 am

Que bom! Obrigada 🙂

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