Do Acre para a França

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Me lembro que desde pequena eu já tinha uma relação de amor platônico com a França e sabia que em um dado momento da vida ainda iria morar aqui; a fascinação pela cultura me motivou a querer descobrir o que é viver à la française.

Quando cheguei aqui em Paris pensei: aproveita e se joga! Afinal, a intenção era de vir para fazer o mestrado e logo em seguida voltaria para o Brasil, para a família, para o namorado… Mas nas voltas que a vida dá, nos namoros que acabam, nas oportunidades que aparecem, na família que apoia a mudança, nos novos amores que acontecem, cá estou eu há quase 4 anos.

A França é na verdade um dos pontos em que ancorei nessa vida de nômade. Eu preciso dizer que o que eu gosto mesmo é de botar o pé na estrada, e a cada vez que eu resolvo fazer isso descubro que vale muito à pena! Entre os altos e baixos, expectativas e realidade, pude entender que o bom de tudo isso é contar com o imprevisível e deixar as coisas acontecerem.

Eu nasci no Acre, mas ainda adolescente me mudei para Brasília, onde me formei em Relações Internacionais. Como eu queria fazer esse curso e não tinha na minha cidade, tive que sair de casa e me virar sozinha desde os 16 anos. Durante o período da faculdade consegui um estágio para trabalhar na área de cooperação internacional e ali recebi a luz divina dizendo – é com isso que eu preciso trabalhar (pelo menos até os próximos capítulos); e ai querendo dar continuidade a isso, optei por uma especialização que tinha tudo a ver com o que acredito, o Desenvolvimento Sustentável.

Acho que o fato de ter nascido e crescido em Rio Branco, sempre rodeada de natureza, mesmo que mais limitada que antigamente, e em uma região em que está cada vez mais difícil conciliar as necessidades da sociedade moderna com a preservação do patrimônio natural, esse interesse acabou acontecendo bem naturalmente.

A minha primeira vivência internacional aconteceu ainda no período da faculdade, porque eu precisava aprender inglês bem e de uma vez por todas, e vi que a única saída seria morar fora por um tempo. Aliás, se eu tivesse noção de tudo que estava incluído nesse “pacote” que é o intercâmbio, teria salvado meu tempo e dinheiro em anos de cursos de inglês e teria me aventurado bem antes. Acredite, esse é um dos melhores investimentos que você pode fazer por você!

Assim com muito esforço dos meus pais, morei em Toronto, no Canadá, por quase um ano. A princípio deveria ficar apenas por 6 meses, mas depois de um acidente em que quebrei a perna resolvi ficar por mais um tempo e foi uma das melhores decisões que tomei.

Morar fora não é tarefa fácil, principalmente quando você faz isso ainda bem nova. Eu tive que aprender cedo as doçuras e amarguras de tomar conta de mim estando longe da família e dos amigos. Mas isso me fez entender que obstáculos são inerentes à vida, e que é preciso aprender a lidar com eles e tirar o melhor proveito disso, e de quebra me preparou para viver em qualquer lugar desse mundinho.

No Canadá eu aprendi a ser cidadã do mundo, a respeitar as diversidades, e acima de tudo, a saber que eu era mais forte do que eu imaginava. Voltei ao Brasil e em seguida morei em São Paulo, onde fiquei por dois anos. Eu queria ter uma experiência nova de vida, de cidade, de trabalho, mas a frustração de não conseguir atuar na área de desenvolvimento social acabou me dando um empurrãozinho pra querer fazer um mestrado fora do país.

E lá fui eu de novo, depois de me candidatar pra um mestrado em Paris, me mudei pra cidade da luz em 2013 e a sensação que tive era de estar vivendo um sonho, literalmente. Era o mestrado que eu queria, na universidade que eu queria e na cidade que eu sempre idealizei.

Nesse momento, entendi o que era estar no lugar certo e na hora certa. Não sei se teria tido a capacidade de aguentar as adversidades que enfrentei e que ainda enfrento se tivesse ido antes e também não sei se teria aprendido o mesmo tanto.

Mas eis que de repente, surgiu uma oportunidade de trabalhar em Casablanca, no Marrocos, em uma filial do grupo francês Suez Environnement, e é óbvio que eu não poderia dizer não e pé na estrada de novo.

No primeiro momento o choque cultural foi grande, o maior que eu já tinha vivido mesmo depois de já ter rodado um pouquinho por esse mundo. Dentre algumas coisas, a maior dificuldade que tive foi lidar com o papel da mulher na sociedade. Mas eu tinha que entrar na dança, e assim meio desengonçada e desconfiada me deixei levar. Nisso tudo fui me redescobrindo, e agora entendo que, mais do que nunca, as mulheres precisam se empoderar, se apoiar, se orgulhar de quem são, e acreditar no que querem ser.

Foi um período bem difícil, porém necessário, e que me permitiu entender e desmistificar muitas coisas, e também me deu força pra continuar seguindo.

Depois de seis meses retornei à Paris, conclui o mestrado em Desenvolvimento sustentável e dinâmicas espaciais pela Universidade Paris-Sorbonne, e continuo morando nessa cidade maravilhosa desde então.

Nessa remada já foram 4 países e 6 cidades, e eu quero mais. O que eu mais gosto nisso tudo é o friozinho na barriga de descobrir o novo, os micos que pagamos, o gostinho de vitória quando algo dá certo, de se descobrir super forte e capaz de tudo.

Mas por enquanto eu estou feliz por aqui. Ter escolhido esse país como segunda casa foi uma decisão que vai além dos clichês, porque o que mais me encanta são coisas abstratas, tais como a defesa da democracia e das liberdades cívicas, a educação e objetividade – ainda que esta às vezes possa ser confundida com mau humor ou frieza – o senso crítico e acima de tudo, a arte de viver conciliando trabalho e vida pessoal.

Apesar disso tudo, como eu dizia anteriormente, morar em um país que não é o seu não tem tanto glamour assim; a adaptação, a aceitação, o convívio com outros hábitos e culturas, e a saudade da família, são coisas que ainda persistem, pelo menos para a maioria.

Depois de quase 4 anos, a vida por aqui está mais suave, mas não fácil; afinal nem tudo são flores.

A gente vai aprendendo a dançar conforme o ritmo, e para completar encontramos pessoas maravilhosas nesse caminho. Hoje continuo sendo brasileiríssima, mas levei comigo um pedaço de cada lugar que estive e acredito que deixei um pouquinho de mim também.

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Metade brasileira e metade senegalesa, Amy nasceu em Rio Branco, no Acre. Formada em Relações Internacionais e Mestre em Estratégias do Desenvolvimento Sustentável, ela já morou no Canadá, no Marrocos e atualmente reside em Paris, na França. É vegetariana de lua e fã de corridas matinais. Está aprendendo a viver dia após dia sem fazer muitos planos.

16 Comentários

  1. Amy,

    a sua narração é de quem não apenas passa pela vida, mas de quem a experimenta intensamente! Lembrei-me de um poema do Leminski que diz que perto do osso a carne é mais gostosa. Tenho a impressão, às vezes, que crescer é um longo processo de desconstrução. Doloroso, mas maravilhoso! Continue escrevendo, estaremos aqui curiosos e ansiosos pra compartilhar suas corajosas aventuras! Um abraço !

    • Belli!

      Que lindo receber um comentário teu! Ver que você, assim como a minha irmã, não é mais aquela criança piradinha e que virou de repente uma mulher super inteligente, determinada e bem madura pra idade é a prova de que a vida é um processo de descontrução, e isso acontence todos os dias. Descontruir nos permite, na maioria das vezes, viver intensamente e nesse sentido, eu ainda deveria tentar muito mais! Fico super feliz e orgulhosa de te rer como leitora! Beijo grande.

  2. Belo texto, consciso e esclarecedor. Vislumbro nele um grande potencial jornalístico a ser lapidado e assim incrementar aquilo que você sempre teve de mais forte em sua formação de base : a arte de escrever com sua narrativa bem peculiar. O caminho é longo mas não impossível. Bisous,Papa.

  3. Parabéns Amy, sou fã do seu pai, ele foi meu professor, conheci sua mãe quando ela deu entrada no processo de aposentadoria no Instituto de Previdência em que trabalho, educada e muito simpática, e agora essa sua história, que família show, que Deus continue iluminando todos vcs, virei sua fã também 🤗🤗

  4. Oi Amy, gostei muito do que você escreveu, nossa muito lindo Parabéns! aqui no Brasil fiz faculdade de Turismo e estou na minha segunda graduação que vai ser pedagogia gostaria de fazer pós graduação na França um sonho 🙂 pode me dar a dica de como fazer isso olhei no site da faculdade que você mencionou mais não sei nem por onde começar.

    • Oi Silvana, obrigada por acompanhar o BPM e por deixar o seu comentário! Então, para estudar na França é nécessário passar pelo Campus France, caso você faça a candidatura do Brasil, é claro. Esse é o site: http://www.bresil.campusfrance.org/, e lá você vai encontrar toda a orientação para dar início ao seu projeto de pós graduação. O Campus France tem um escritório em São Paulo, caso você queira entrar em contato com eles diretamente. Espero poder ter ajudado e boa sorte! 🙂

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